Caxias do Sul 15/10/2026

Ensaios para a vida: agora você continua

Na trama da vida, você só pode continuar a sua vida, saímos da ficção
Produzido por Neusa Picolli Fante, 15/10/2026 às 08:50:35
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda/Divulgação

“Agora você continua” é a lembrança das estórias construídas: quando as minhas filhas eram crianças, sentávamos no chão da sala ou em outro lugar qualquer e inventávamos estórias... Sim, narrativas que não tinham um fim determinado, em que a fantasia permeava em todos os labirintos que não conseguíamos decifrar ou encontrar uma saída possível.

Bichinhos, objetos e pessoas viviam num mundo mágico onde tudo poderia mudar a todo instante...

Uma iniciava e passava adiante... agora você! Ou o que acontece agora? E assim continuavam as estórias construídas ao acaso. Não lembro bem dos pequenos enredos que construímos, mas recordo que eram fantásticos e que nos divertíamos muito juntando animais, vozes, consciências, situações irreais que nos traziam alguma lição. Ou somente serviam para que nos divertíssemos.

O relato começava por uma de nós e em seguida tomava forma com qualquer uma das outras. E assim eram as estórias construídas ao acaso, com um destino que poderia mudar a todo instante. Percalços, sonhos, continuidades... tudo era traçado a três e ensaiado para a vida...

Todas se experimentavam construindo continuidades e, talvez, se exercitando em algumas respostas que o tempo inevitavelmente questionaria. Isso acontecia quando as meninas eram bem pequenas, acredito que antes de saberem escrever, já sabiam inventar a continuação de pequenas estórias.

Hoje, cada uma em sua casa, na sua vida, continuam muitas narrativas. Constroem caminhos para sua jornada, bem como podem lidar com os imprevistos, inclusive com dias difíceis e de vulnerabilidade.

Vejo só agora que o continuar desses pequenos enredos ajudava-as a se prepararem para a vida, para o improviso. Ao se adaptarem às situações mais absurdas dos personagens, ensaiavam-se para os seus dias. Talvez essa lembrança tenha vindo quando me vi com meu neto de 3 anos brincando de “agora você continua”. Num primeiro momento, ele ficou confuso em inventar o que a formiguinha fazia, mas aos pouquinhos fomos construindo caminhos para ela, e ele se divertia com a imaginação.

Esse “agora é você” se referia a como você prosseguiria a vida do outro, ou de um outro, ou então muitos outros, quem sabe... como se o destino do próximo estivesse em suas mãos...

No entanto, tenho uma triste notícia: na trama da vida, você só pode continuar a sua vida, saímos da ficção. Mas a sua vida interfere na do outro, e de muitos outros... Então o “você continua” permanece a ajudar, a construir ou destruir, ou até mesmo a modificar a vida de alguém.

A tentativa de controle real que existe na vida de algumas pessoas perpassa as ingênuas estórias que construíamos. Muitas vezes, delimita fronteiras abusivas, às vezes, de quem amamos, simultaneamente identifica quem nos tornamos.

A vida também é traçada com vários atores, sejam eles principais ou coadjuvantes, assim como as nossas estórias eram traçadas... Pessoas que se entrelaçam no que aprendem juntas, ou, quem sabe, cada uma em seu momento. No entanto, minhas meninas aprenderam a poder construir muitas continuidades, assim como a vida clama a todo momento...

E se eu dissesse para você “agora você assume”, como direcionaria a vida dos outros à sua volta? Agora, volte para a sua: como acredita que os outros encaminhariam a sua?

Lembre-se de que você só pode continuar a sua, que consequentemente interfere na do outro...

A vida é assim, o “agora você segue” está presente na vida de todos nós. Despir-se do ego e deixar o que seguramos, com medo de perder entre nossos dedos, é fato. Largar, não é simples, mas ensaios fazem parte.

Dias de movimento, dias de confinamento... “agora você continua”...

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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