Inverno. Estou febril, os invernos sucessivos minaram meu corpo e já não tenho a efervescência física, a energia inquieta de há muito tempo.
Tudo anda a passos lentos, pausados, com cuidados, como se fossem quebrar as finas camadas de gelo que cobrem as águas paradas nas manhãs de geada.
E essas divagações levam a observar o quanto de nós se perde se não pararmos para escutar nossos próprios sentimentos e emoções.
Nessas andanças emocionais solitárias - o inverno é o tempo da solidão - e dos desvios pelos labirintos das falas mudas e dos silêncios cósmicos, acolho a absoluta convicção de que, mesmo Vivaldi, quando compôs a célebre série "As Quatro Estações", viu as sutilezas, encantamentos e seduções dessas noites de inverno brancas, glaciais, místicas e aterradoras em seus silêncios prateados, em seus muros que nos cercam mas não nos protegem, como numa prisão puramente emocional, que carregamos em nossa memória, e que nos limita, engessa e domina, impedindo que se possa transpor e transgredir nossas próprias limitações. Todas as lembranças, fracassos e vitórias se tornam fardos e cinzas com os sopros do inverno e os dias de neblina e cinzas fazem as cores cinzentas do inverno.
As longas noites hibernais continuam, mudas, soberanas e cruéis, e seu frio absorve todas as energias, corações se tornam gélidos e, neles, o inverno permanece, como única estação, para sempre, perpetuando sua monocórdica sinfonia gélida.
E, nessa dança de falas e gestos mudos, de movimentos glaciais invadindo tempestades de neve, de nuvens escuras trazendo outros sopros congelados, as sombras da noite descem, mas não geram apenas sombras, são longos xales de fios negros de seda, agulhas de gelo finíssimas, transparentes e frias, perfurando o torpor da noite, perfurando os grossos abrigos de lã, perfurando nossa carne, em busca do mais profundo dos nossos interiores, em busca da frieza maior que só os anjos negros conseguem manter, ou sobreviver, na sua eternidade de sombras.
Envoltos em finas nuances de texturas e horizontes, adormecemos como adormecem os cisnes, nos lagos brancos quase congelados, onde a lua e as estrelas se quebram, num jogo de imagens que se faz, se desfaz e se refaz intermitentemente.
Porque é inverno e nossas vidas se transfiguram em sopros e nuvens inquietas, em sonhos e despertares cobertos de ausências e salas vazias.
Valdir dos Santos é artista plástico e poeta em Caxias do Sul.
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