Nossa cidade, mesmo para quem não nasceu aqui, tem poderes que transitam entre a indiferença estratégica (quando as pessoas têm opinião formada, mas não expressam); a ojeriza rancorosa (quando as pessoas não gostam mas aqui permanecem, na maioria das vezes, por interesses pecuniários) e as paixões insanas, como orgulhosamente me rotulo, defino e me declaro.
Sou absurdamente apaixonado por esta urbe. É uma paixão descalibrada, fermentada por arroubos quase frenéticos, que induzem este pobre narrador a um estado de transe, circunstanciado pelo aroma delicado do único pé de Magnoliae (esse arbusto não está solitário, mas amargamente sozinho, pois que se saiba não existe um outro em nenhum espaço público da cidade) especificamente na pracinha da Igreja de São Pelegrino, outro ícone das minhas paixões alucinadas.
Entre as minhas paixões por ser caxiense por opção - nasci em Júlio de Castilhos e isso é uma outra história -, estão as neblinas de inverno, essas inexpugnáveis barreiras visuais que às vezes até nos encharcam, criando atmosferas delicadamente cruéis, principalmente para nossos afoitos motoristas. São mais de 300 mil veículos, isso nos propicia um trânsito instável, um salve-se quem puder veloz e imediatista.
É voz corrente que, independentemente do clima, mas principalmente nas neblinas invasoras das nossas vias públicas, que "time is money" e, na nossa cidade, essa premissa está no DNA dos caxienses, reforçados - e é impossível ignorar esse detalhe da maior importância - pela qualidade e variedade de marcas, ou grifes automotivas, exibidas na frota anônima que acelera, vaza sinais e enlouquece o concorrente ao mesmo espaço nas ruas e avenidas. Ganhar a dianteira do outro motorista não é um desafio, é um "direito" que descaradamente todos pleiteiam.
Agora, outono e quase inverno, não um inverno denso como o do escritor John Steinbeck, americano que escreveu "O Inverno da nossa desesperança", mas o tempo das neblinas frequentes, densas, envolventes, aos olhos de alguns puramente poéticas, aos olhos de outros desafiadoramente dramáticas, mas indisfarçáveis, impossível ignorar essas variações do humor do tempo.
São ciclos nebulosos que se repetem todos os outonos e invernos e acionam reações conturbadas, enfatizando que, como tudo, outonos e invernos passam, não com a velocidade que os motoristas querem, mas como mudanças poéticas que só nossos olhares enviesados percebem.
Essas neblinas - ou cerrações - às vezes se dissolvem num instante, deixando lições que, ironicamente, tem gente que não as sente, mesmo que sejam partes inquestionáveis da difícil arte de viver.
Valdir dos Santos é artista plástico e poeta em Caxias do Sul.
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