Quando Antonio Vivaldi compôs “As Quatro Estações” (ouça AQUI), certamente não imaginou o quanto seus acordes traduziriam os estados de alma, sentimentos, conflitos e seduções íntimas dos privilegiados que ouvem essa sinfonia.
Temos nossos próprios outonos, etapa significativa das nossas vidas, quando percebemos a inexorável passagem do tempo no corpo e nos próprios pensamentos. É quando já não temos a inocência da infância (primavera), os ímpetos da juventude (verão) e estamos na plenitude de tudo, com força concentrada, pensamento reto e harmonia física e intelectual.
Tudo vibra, vivenciamos tenacidade e mudanças visíveis e envolventes, rodopiando como ventos e brisas nem tão quentes, nem tão suaves, nem tão intensas. Vibramos como cordas tensionadas dos violoncelos exacerbados que Vivaldi harmonizou.
É o que atravessamos agora: observe a cartela de cores nas poucas árvores das nossas ruas secas. Há economia de imagens, de respeito ao tempo, tudo é fugaz, perene, só a nossa vontade tímida de viver momentos únicos, talvez flash de luzes e cores fugazes.
Depois, o inverno da velhice, de sobras de tempo, vontade indeterminada de ajustes, revisões e balancetes nunca definitivos, mas sempre urgentes.
Vivaldi não escreveu apenas uma sinfonia mas simplificou, em forma de acordes e contrapontos, as nossas vidas anônimas. Nunca, em tempo algum, outra criatura nos traduziu com tantas nuances, tantas variações e certezas, num legado musical que desperta, acorda e disseca nossas verdades, talvez alertando que, se a vida não for intensa, não é uma sinfonia única, completa e verdadeira.
Valdir dos Santos é artista plástico e poeta caxiense.