Caxias do Sul 20/04/2021

A ressurreição permanente de um convite vital

Data pascal se reveste de significado especial e imperativo neste momento histórico de pandemia
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 02/04/2021 às 08:35:04
Foto: Liliane Giordano

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Muito mais do que ovos de chocolate sendo ansiosamente disputados pelos consumidores nas gôndolas dos supermercados, a Páscoa cristã segue insistindo no convite a uma reflexão interna ainda mais relevante neste histórico momento de pandemia que se impõe no cotidiano das gentes do mundo há mais de um ano, sejam elas crentes ou não crentes, cristãs ou não-cristãs, pobres ou ricas, com ou sem plano de saúde, políticas ou apolíticas, negras ou brancas ou pardas ou amarelas, homens ou mulheres ou transgêneros, heterossexuais ou homossexuais ou bissexuais, empresários ou empregados ou empreendedores ou estudantes, pais ou filhos, gremistas ou colorados.

O convite explícito a toda a humanidade nesta Páscoa de 2021, ano II da pandemia do coronavírus, parece se configurar em uma necessidade urgente de resgate dos melhores valores que compõem nossa condição de sermos humanos, visando à preservação da nossa espécie e também à preservação desses valores. A Sexta-Feira Santa, ou Sexta-Feira da Paixão, evoca o drama bíblico da entrega de Jesus Cristo ao rito do sacrifício de seu corpo, que será pregado e morto na cruz ao findar deste dia, como uma forma de promover o resgate das almas humanas, sempre que esse seu esforço sobre-humano for lembrado.

A Páscoa, no domingo, traz a metáfora da ressurreição, a vitória sobre a morte, ou seja, a dica de que podemos, sim, vencer os males que nos afligem e ressurgirmos com todo o nosso esplendor em nome da vida, ressignificando positivamente nossas existências, e que a ferramenta para isso é exatamente a preservação, o resgate e a defesa dos nossos melhores valores humanos, em detrimento dos aspectos maléficos que também são, infelizmente, compositivos da essência humana.

A grande revolução filosófica proposta pelo personagem representado pela figura de Jesus Cristo, concebida mais de dois mil anos atrás, está expressa em uma frase a ele atribuída no livro de João no Novo Testamento, capítulo 15, versículo 12: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei”. O poderoso (e, às vezes, assustador) verbo “amar”, aqui empregado, pode ser traduzido, neste nosso século XXI, como o exercício consciente e proativo da compaixão, do desarme do espírito, da leveza na conduta diária frente às atribulações inerentes à vida, da compreensão (ou, pelo menos, da tentativa) das singularidades do próximo, da escuta acolhedora do outro, da amistosidade como ponto de partida nas relações, da temperança, do senso de justiça, do acolhimento, da opção pela postura cooperativa, da tolerância às diferenças, do desapego ao desimportante, da ponderação no uso das palavras, da empatia, da atuação criativa e construtiva em todos os âmbitos e em todas as esferas de ação, da escolha pela valorização da vida de modo geral, amplo, irrestrito, universal.

O renomado artista plástico italiano radicado no Brasil, Aldo Locatelli (1915 - 1962), eleito em pesquisa desenvolvida por alunos da Universidade de Caxias do Sul como uma das 30 Personalidades Destaques do Século XX na cidade, deixou como legado artístico a sua singular visão da Paixão de Cristo em 14 telas pintadas a óleo, hoje dispostas no interior da Igreja de São Pelegrino, representando a Via-Sacra. Muito além de evocarem visualmente uma versão artística da Paixão, as telas servem de convite a lembrarmos da convicção que o personagem nelas retratado nutria, de que valia a pena seu sacrifício em nome do resgate dos aspectos positivos latentes na alma dos seres humanos. A questão que se impõe é: qual o grau de dificuldade que temos, cada um de nós, de fazermos com que ele tivesse razão? Fica a sugestão para a reflexão. Boa Páscoa!

Pintor Aldo Locatelli descerra uma das telas na inauguração de sua Via-Sacra, em 22 de maio de 1960, na Igreja de São Pelegrino (Foto: acervo Casa de Memória São Pelegrino, divulgação)