Caxias do Sul 30/07/2021

A relação entre o autor e o leitor

Sem leitor, não há autor, e para que haja leitor, o autor precisa usar uma linguagem que o ligue com o leitor
Produzido por José Clemente Pozenato, 15/07/2021 às 09:59:39
Foto: Marcos Fernando Kirst

Antonio Candido (1918-2017) foi, e continua sendo, um mestre insubstituível para quem quer conhecer a fundo a literatura no Brasil. Sua obra fundamental, e insubstituível, é Formação da literatura brasileira – Momentos decisivos, em dois volumes. De uma honestidade também exemplar, diz ele ao leitor, no prefácio do primeiro volume:

“Este livro foi preparado e redigido entre 1945 e 1951. Uma vez pronto, ou quase, e submetido à leitura dos meus amigos (e enumera alguns) foi, apesar de bem recebido por eles, posto de lado alguns anos e retomado em 1955. (...) Não tenho ilusões excessivas quanto à originalidade, em livro de matéria tão ampla e diversa”.

Era assim Antonio Candido, rigoroso e modesto! Modéstia que ele esperava também dos escritores que eram objeto de seu trabalho de pesquisador e professor. A principal afirmação nesse sentido foi a de que uma literatura não existe apenas porque existem escritores. É preciso também haver leitores e, entre os dois, um meio de transmissão, constituído pela linguagem. Aí vai a citação literal, em que o autor explica como se constitui a “literatura como sistema”, com esses três elementos organizados:

“- a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel;

- um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive;

- um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros”.

Isto é, para haver literatura, é preciso haver este trio de elementos: autor-linguagem-leitor. Sem leitor, não há autor, e para que haja leitor, o autor precisa usar uma linguagem que o ligue com o leitor.

Lições do mestre Antonio Candido seguidas à risca (Foto: Divulgação)

Em minha experiência pessoal como escritor, sempre levei ao pé da letra a concepção de Antonio Candido. Ao fazer uma narrativa, escrevo pensando se a linguagem que estou usando vai fazer o leitor imaginar a cena como eu estou imaginando. Se a linguagem não me ligar ao leitor, é uma linguagem ruim.

Para comprovar isso, posso relatar dois episódios. Quando terminei de escrever O Quatrilho, que foi minha primeira entrada no mundo da narrativa longa, resolvi, antes de procurar uma editora, fazer um teste com dois tipos de leitor: um crítico literário, que sempre lê o texto com lupa à procura de alguma falha, e um apreciador de romances do tipo best-seller, aquele gênero de romance que mais agrada ao grande público. Ao crítico literário, pedi que apontasse os defeitos que encontrasse nos originais. E ao leitor representante do grande público, só pedi que me dissesse se havia ou não gostado da leitura.

O resultado foi este: o representante da crítica literária me disse que nas duas ou três primeiras páginas ele tentou olhar criticamente a linguagem, mas dali em diante a narrativa tomou conta dele, e envolvido por ela foi até o final da obra; o representante do grande público respondeu que foi um dos romances mais envolventes que havia lido.

Bem, a partir daí, não tive receio em sair à cata de editor. O resultado, todos já sabem: a história contada foi para o teatro, para o cinema, para a ópera. Além de ter servido de inspiração, ou provocação, para outras narrativas.

Quando terminei de escrever A Babilônia, o terceiro romance da minha trilogia, passei também os originais para apreciação de um professor de literatura e crítico literário. Depois de ler, me ligou para dizer que tinha gostado muito do texto, e acrescentou uma exclamação:

- E que mulher é essa Sílvia!

Depois disso, precisava dizer mais alguma coisa?!

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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