Caxias do Sul 18/08/2022

A Ponte do Raposo

Construção da estrutura decorreu de uma soma de episódios históricos
Produzido por José Clemente Pozenato, 04/08/2022 às 11:17:07
Foto: Marcos Fernando Kirst

Depois de ter insinuado aqui que a história da Ponte do Raposo merece ser lembrada, volto ao tema.

Diversos episódios compuseram a trama que levou à construção dessa ponte. Entre eles os seguintes:

- o fato de ela ter sido construída sobre o rio Caí na Zona do Raposo, nome herdado do bandeirante paulista que exterminou as Missões e arrebanhou índios escravos na região de Santa Lúcia do Piaí, que incluía a atual Vila Oliva em seu território;

- o início do “ciclo da madeira”, patrocinado pelos donos de sesmarias no bioma da Mata das Araucárias, depois de venderem parte de suas terras a imigrantes italianos;

- o plano de Borges de Medeiros, que governou o Rio Grande do Sul por 25 anos, de implantar uma rede de estradas de ferro. Uma delas foi o trecho de Porto Alegre a Taquara do Mundo Novo, que era uma região fornecedora de produtos agrícolas e animais. São Francisco de Paula era também distrito de Taquara.

Estrutura da ponte histórica necessita restauro (Foto: Divulgação Smosp)

O personagem que se tornou protagonista da história da Ponte do Raposo foi o Major José Nicoletti Filho. Na realidade, ele se chamava Giuseppe Nicoletti, filho de uma família imigrantes vindos do Tirol, que na época pertencia ao Império Austríaco. Veio para o Brasil com cinco anos de idade, por volta de 1880. Seu pai, que também se chamava Giuseppe Nicoletti, se estabeleceu com a família na Sétima Légua, no Travessão Dom Pedro II, onde fica hoje o Bairro Nossa Senhora do Rosário.

Desde menino, José Nicoletti Filho, com o nome abrasileirado, teve interesse em seguir a carreira militar. Ingressou na Brigada quando jovem e, quatro ou cinco anos depois, filiou-se ao partido de Borges de Medeiros, interessado em fazer também carreira política.

A decisão teve sucesso. Borges de Medeiros o colocou como chefe de polícia em Taquara, quando estava em construção a estrada de ferro dessa localidade para Porto Alegre. Atendendo aos pedidos dos donos de serrarias, José Nicoletti conseguiu do governo autorização para estender a ponte até Gramado, na Várzea Grande. O transporte da madeira produzida na Serra para a Capital enfrentava problemas, como o da seca periódica, que não permitia escoar a madeira em barcas rio Caí abaixo, até o Guaíba, como era feito também no Rio das Antas.

Concedida a autorização, José Nicoletti, já com o título de Major, foi nomeado para administrar o distrito de Gramado, pertencente ao município de Taquara. Ali, tomou conhecimento da produção de madeira do outro lado do rio, na Zona do Raposo, onde é hoje Vila Oliva. Para facilitar o transporte da madeira até o trem, em Gramado, o Major Nicoletti fez construir uma ponte sobre o Caí, com aço Krupp, vindo da Alemanha.

A ponte foi batizada com seu nome, Ponte Major José Nicoletti. Mas, com o crescimento da oposição que provocou a saída de Borges de Medeiros da Presidência do Estado, o povo passou a denominá-la Ponte do Raposo. E o trecho da estrada de ferro entre Taquara e Gramado ganhou o apelido de “rabicho ferroviário”!

A história é cheia de tramas. Não por acaso, ela se torna tema de narrativas de ficção. O interessante é que tudo isso aconteceu na zona em que hoje se projeta construir o Aeroporto de Vila Oliva...

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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