Caxias do Sul 27/02/2021

Remi já não tem certeza sobre Caxias

O Alzheimer e a desorganização intransigente da memória, do raciocínio e da pessoalidade
Produzido por Marcos Mantovani, 16/12/2020 às 09:05:12
Remi já não tem certeza sobre Caxias
Foto: MARCOS MANTOVANI

Por MARCOS MANTOVANI

Da sacada do nono andar, Remi aprecia o movimento. Vê bonecos Playmobil se mexendo na calçada. Vê carrinhos de tração nas ruas Garibaldi e Vinte de Setembro. Para ele, o centro de Caxias é uma maquete gigante e ilógica, com sonoplastia de trânsito e às vezes até chuva. Uma maquete cujos caminhos Remi conhecia de cabeça, já que, antes do Alzheimer, era um corretor de imóveis sem preguiça de circular.

Aos 78 anos, as suas noções perceptivas estão numa sintonia de suspense. Tudo gera espanto e desconfiança. Tudo parece meio intangível, como se o dia a dia tivesse incorporado os contornos do surrealismo. Ou do realismo mágico, o que dá quase no mesmo. O fato é que Remi está numa dimensão toda sua. Enxerga o que ninguém vê e dá importância extra ao que todos ignoram – alma de artista, mas sem arte para oferecer.

a mais velha, o caçula

Remi tem Mantovani no sobrenome. E tem uma filha engenheira de segurança. Ela dá segurança ao pai na forma de carinho e tempo, sempre puxando papo sobre o passado dele – conversas de estímulo que substituem os Sudokus e as palavras-cruzadas. Talvez seja por isso que Remi ainda não esqueceu o nome da filha. Renata se distinguindo dos bonecos Playmobil que ele vê da sacada do nono andar.

O caçula de Remi escreve sobre pessoas de Caxias. Mas é como se fosse um ghost writer, pois seu nome já não consta na memória paterna. Virou um rosto. Uma presença que às vezes dá banho no pai e que sabe disfarçar os sentimentos, porque afinal o barco segue e há uma travessia bonita pela frente. Há para o filho um futuro pós-barbárie e um desejo feroz de afetos, cumplicidade e olhos nos olhos. Tudo isso na parte invisível de si, na parte que foge das fotografias.

a esposa, a guria

Remi e Albani rimam. Na sonoridade e no cotidiano. Ela é a pessoa com quem ele divide o apartamento 91. Mas ela é muito mais do que isso. Ex-professora, conhece os atalhos para lidar com as crianças. E não tem receio de verbalizar que o Alzheimer, em certo estágio, acaba transformando o doente num menino birrento e casmurro. Menino que diz não, não, não.

Às vezes Remi diz sim e chama a esposa de guria, “ô guria”, e isso assopra um ar inesperado de leveza. Então a guria reage e tenta prolongar o sorriso, sabedora que essas oportunidades são as bengalas disponíveis, as ilhas de respiro. Só que esse bom-humor nem sempre vem tão fácil para quem está no front. O tocamento da vida, para a guria-esposa, virou um jogo de paciência e alteridade.

italiano, francês

Para estimular Remi linguisticamente, o filho tem a mania de fazer perguntas em italiano gramatical, sem avisar antes, pegando o pai de surpresa. “Papà, capisci bene quello che dico?” Nesses momentos, os três ou quatro soldados cognitivos do pai se olham rápido e se perfilam numa linha de ataque, respondendo no idioma solicitado: “Sì, capisco bene”.

Há mais. Existem para Remi alguns cacos também da língua francesa. Na verdade, apenas um caco do francês. O hino nacional, conhecido como Marselhesa. Remi aprendeu a entoar a Marselhesa na sua época ginasial, em Veranópolis, e nunca mais deixou a letra escapar – nem mesmo após o Alzheimer. Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a cognição.

a identidade, as testemunhas

Nós somos o que está na memória, alguém da psicologia disse uma vez. Então existe aí um problema, porque Remi não se lembra nem da própria idade nem do sabor preferido de sorvete. Tampouco distingue que vive em Caxias há várias décadas. Sua identidade ficou à mercê das narrativas de quem escreve ou fala sobre ele.

Mas isso não é tão ruim, porque as testemunhas são elogiosas. Dizem que houve uma adolescência ao lado de rios, passarinhos e campos de futebol. Dizem que houve uma adultez com valentes aberturas de caminho em cidades do RS e SC. Houve os filhos, os empregos, as amizades que teceram morada em seu peito. E tudo isso ainda é verdadeiro, inatacável – pelo menos para os que estão próximos a Remi e, chegados à ternura, afagam os tortuosos dedos de artrose dele.