Caxias do Sul 18/08/2022

Quase meio século atrás, John Lennon iniciava carreira solo com obra primorosa

Fundador dos Beatles foi o último do quarteto a lançar disco após o fim da banda, em dezembro de 1970
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 03/05/2020 às 11:05:22
Quase meio século atrás, John Lennon iniciava carreira solo com obra primorosa
John Lennon emplacou oito discos em sua curta carreira pós-Beatles
Foto: DIVULGAÇÃO

Por Marcos Fernando Kirst

Ele era o cara. No início, ele achava que ele era o cara e os outros caras também achavam. Com o passar do tempo, os outros três caras começaram a achar que cada um deles também era um pouquinho o cara, e ele, que até então era o cara sozinho, foi tendo de dividir sua cara com os outros caras, porém, não de forma equânime. Um dos caras acabou sendo tão o cara quanto ele, e isso passou a incomodá-lo, porque, no fundo, apesar de não admitir isso em público, ele sabia que aquele cara, pô, também era o cara.

Um dos outros caras estava começando a mostrar que também tinha talento para ser um cara como ele, o cara, era, mas era preferível abafá-lo e desdenhar suas iniciativas rumo ao “carismo” no qual ele reinara sozinho durante tanto tempo. O terceiro cara, bom, aquele era um cara legal, tranquilo, na dele, inofensivo. Veio a ser o cara agora, mas ele, que era o cara primordial, não chegou a viver para ver.

O cara em questão era John Lennon. Era o cara porque fundou os Beatles, inserindo, um de cada vez, em sua primeira banda esquisita tocadora de skiffle (um ritmo que morreu com a ascensão do rock and roll, que certas bandas britânicas surgidas nos anos 1960 ajudaram a consolidar), os caras que viriam a ser também os caras: Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Uma junção inexplicável de quatro potentes talentos carismáticos que revolucionariam a música, os costumes e o mundo.

John, o cara, acabou voltando seus interesses para Yoko Ono, sua fulminante paixão, lá por volta de 1968, abrindo espaço para que Paul McCartney assumisse o papel de cara frente aos rumos dos Beatles. Cansados de bater de cara devido ao agravamento de suas diferenças musicais, empresariais, pessoais e coisas e tais, perceberam, no início de 1970, que havia chegado a hora de colocar um fim nos Beatles e seguir, cada cara, sua própria história. Dar a cara a bater, quebrar a cara, o que fosse.

John, que havia fundado a banda em 1957, ainda sob o nome de The Quarrymen (os tocadores de skiffle, lembram?), achava que cabia a ele anunciar o fim do grupo. Mas Paul, que também havia se tornado um cara, se adiantou, chutou o pé da barraca, disse pro mundo que estava saindo, em maio de 1970, e lançou seu primeiro disco solo. Ringo já havia lançado um álbum em março e lançou outro em setembro. George lançou seu impactante álbum triplo em novembro e todo mundo ficou perguntando: “tá, mas, e o cara”?

Então, o cara veio em 11 de dezembro de 1970 com seu primeiro disco solo após o fim dos Beatles, quase meio século atrás: “John Lennon/Plastic Ono Band”. E veio mostrando que, sim, seguia sendo o cara. Diferentemente do disco de estreia ansioso e afobado de Paul e dos dois discos cover de pífia repercussão de Ringo, Lennon iniciou sua carreira solo na mesma vibe de George Harrison: oferecendo um material coeso e de primeira linha.

Primeiro disco de John pós-Beatles, em 1970

Nesse primeiro disco de sua curta discografia solo pós-banda (apenas oito discos), encerrada com seu assassinato inaceitável em 1980, John enfileirava excelentes canções que entrariam de imediato para o seu cancioneiro clássico. Entre elas, a pungente “Mother”, a rascante “I Found Out”, “Isolation”, “Love”, “Well Well Well”, “Look at Me”, o hino “Power to the People” e “God”, uma espécie de exposição de motivos pessoal, na qual John exorcizava suas influências (“eu não acredito em Beatles, eu não acredito em Kennedy, eu não acredito em Jesus... eu só acredito em mim”) e gravava na cultura pop mantras poderosos como “Deus é um conceito por meio do qual medimos nossa dor” e “o sonho acabou”.

Neste álbum, John contou com a participação de Ringo Starr na bateria e Billy Preston nos teclados, entre outros amigos.

Depois disso, viriam mais sete álbuns, repletos de música de primeira linha, inspirada nos seus processos mentais pessoais, que encontram eco até hoje nos corações das pessoas de todas as partes do planeta. O hino “Give Peace a Chance”, no entanto, foi gravado e lançado em 1969, ainda na era Beatle, porém, como obra solo, e não figura em nenhum de seus discos de estúdio, exceto em coletâneas.

O último disco que Lennon lançou em vida foi “Double Fantasy”. Ele encerrou as gravações e lançou o material em novembro de 1980, poucos dias antes de ser assassinado. As sobras de estúdio, com várias músicas inéditas, foram reunidas pela viúva Yoko Ono para compor o álbum póstumo “Milk and Honey”, lançado em 1984.

Último disco de John em vida, de 1980

Sente o som de MOTHER

Sente o som de GOD

Sente o som de WELL WELL WELL

Sente o som GIVE PEACE A CHANCE