Caxias do Sul 20/01/2021

O que leva uma vinícola da Serra a surpreender e crescer mesmo diante da pandemia

Executivo de cooperativa avalia estratégias e define 2020 em uma palavra: “aprendizado”
Produzido por Silvana Toazza, 30/12/2020 às 10:34:13
O que leva uma vinícola da Serra a surpreender e crescer mesmo diante da pandemia
Alexandre Angonezi é diretor administrativo da Cooperativa Vinícola Garibaldi
Foto: Bárbara Salvatti

POR SILVANA TOAZZA

Se as vendas de espumantes brasileiros amargaram baixa por conta do cancelamento de eventos na pandemia, esse cenário não espelha a realidade de todas as empresas.

Em taça mais cheia do que a maioria do mercado, a Cooperativa Vinícola Garibaldi comemora a fase de ascensão mesmo diante de um cenário marcado por incertezas.

A companhia orgulha-se ao informar que o faturamento ultrapassou os R$ 186 milhões neste ano, 7% a mais do que o alcançado em 2019. As vendas de espumantes, vedetes da marca, registraram efervescência, em volume, de 13% em relação ao ano passado. Mas não foi só: a comercialização de vinhos finos avançou 30%, impulsionada pelas mudanças de hábitos ocasionadas pela pandemia, já que as pessoas ficaram mais em casa.

Obviamente, o cálice foi mais acanhado nas receitas advindas do enoturismo. Enquanto no ano passado 145 mil pessoas visitaram a vinícola, este ano, esse número deve fechar em 52 mil visitantes.

Espumantes são a vedete da casa (Crédito: Augusto Tomasi)

Prestes a completar 90 anos, em janeiro de 2021, a Cooperativa Vinícola Garibaldi agrega, atualmente, 420 famílias associadas. Em 2020, foi eleita pela sexta vez seguida a melhor fornecedora de espumantes no Carrinho Agas, premiação promovida pela Associação Gaúcha de Supermercados (Agas).

Na entrevista exclusiva concedida à seção “Conversa Afiada”, Alexandre Angonezi, 53 anos, diretor administrativo da Cooperativa Vinícola Garibaldi, faz um balanço sobre o momento vivido pela empresa. Inspire-se no conhecimento compartilhado pelo engenheiro agrônomo com mestrado em Administração:

Em ano atípico, a Cooperativa Vinícola Garibaldi recebeu, pelo sexto ano consecutivo, o título de melhor fornecedora de espumantes na premiação do Carrinho Agas. O que representa essa distinção?
Conquistar o reconhecimento do varejo gaúcho, expresso pelo recebimento do Carrinho Agas 2020, pelo sexto ano consecutivo, é motivo de extremo orgulho para a Cooperativa Vinícola Garibaldi. Em um ano desafiador como tem sido o de 2020, esse reconhecimento tem um significado ainda mais especial para cada uma das 420 famílias associadas e colaboradores: mostra que estamos unidos por um propósito maior, que é o compromisso com a excelência em cada etapa do trabalho, entregando muito mais do que simplesmente bons produtos. Cada garrafa com o rótulo da Cooperativa Vinícola Garibaldi leva um pouco da nossa paixão, do amor que temos por aquilo que fazemos. Tudo isso aparece na qualidade dos produtos que elaboramos e do atendimento que prestamos aos parceiros – e que nos renderam, mais uma vez, a conquista do Carrinho Agas. Esse reconhecimento nos motiva e nos dá forças para continuarmos em busca do desafio maior, que é o de consolidar a Cooperativa Vinícola Garibaldi como referência nacional em espumantes.

De que forma a pandemia impactou nos negócios da empresa?
No período entre março e agosto, a Cooperativa Vinícola Garibaldi viu a comercialização de espumantes cair notórios 25%, no comparativo com o mesmo período do ano passado. O espumante é festivo, ligado a celebrações, tendo suas vendas centralizadas em canais como o varejo tradicional, casas especializadas e pelo setor de eventos. Com o cancelamento dessa programação e a "falta" de motivos para brindar, a bebida sofreu muito durante a primeira fase da pandemia. Mas o cenário começou a mudar – para melhor, e de forma surpreendente: em setembro, a Cooperativa Vinícola Garibaldi teve vendas 55% maiores de espumantes no comparativo com setembro de 2019. Esse desempenho, somado ao retrospecto do setor nas vendas de vinhos no primeiro semestre, que cresceram na casa dos 32%, puxou a onda de otimismo que impera na vinícola para a comercialização da bebida no último quadrimestre do ano – período que concentra 60% dos negócios envolvendo essa variedade. No caso da Garibaldi, a projeção de crescimento é de 30% no volume de vendas de espumantes para o último quadrimestre do ano, em comparação ao mesmo período de 2019.

O comportamento do consumidor mexeu com o formato de vendas da Garibaldi?
Por conta da pandemia, o varejo no Complexo Enoturístico esteve de portas fechadas por diversos períodos. Trabalhamos, então, com a modalidade de tele-entrega para as compras feitas em cidades da região. O mesmo ocorreu com as experiências oferecidas no Complexo Enoturístico, que ganharam versão para ser realizada em casa, a exemplo do Taça & Trufa.

Que produtos se destacaram em 2020?
O grande case da Cooperativa Vinícola Garibaldi deste ano é o vinho frisante Relax. O segundo lote da linha chegou ao mercado em novembro, com 16 mil caixas entregues ao varejo. O produto estava esgotado desde setembro – quando o sucesso nas vendas fez desaparecer, em cerca de um mês, todo o estoque da bebida. A produção – e os negócios – com a linha Relax foram 130% maiores em 2020 no comparativo com o desempenho em 2019. E os resultados poderiam ser ainda melhores – há demanda, mas novos envases neste ano foram descartados pela falta de garrafas. Ficamos realmente impressionados com o desempenho do produto nas gôndolas, resultado do trabalho de reposicionamento do produto, contemplando a revitalização do rótulo e da proposta de comunicação, que conversa com a inspiração do mundo fashion para atrair a atenção dos jovens consumidores e, também, identificar a bebida como opção de consumo descomplicada, ideal para o happy hour, preparação para a balada, beira da piscina e quaisquer outras situações casuais. Soma-se ao acerto da estratégica comercial a qualidade do produto como fator decisivo para a bebida estar conquistando tantos adeptos. O Relax da Cooperativa Vinícola Garibaldi foi eleito o melhor rosé do Brasil, na avaliação da 9ª edição da Grande Prova Vinhos do Brasil. O vinho do tipo frisante foi o vencedor na categoria Rosé, conquistando a medalha duplo ouro. Para 2021, o planejamento da Cooperativa Vinícola Garibaldi prevê novo incremento no volume de produção para o Relax e, ainda, adição de um novo rótulo à família dos vinhos frisantes.

As exportações surpreenderam? A que atribui?
A despeito da pandemia, a Cooperativa Vinícola Garibaldi ampliou sua presença no Exterior, inaugurando relações comerciais com países como Japão e Taiwan. Antes mesmo de maio se encerrar, as exportações da vinícola já haviam superado em 270% todas as vendas realizadas para o Exterior em 2019.

Qual a estrutura atual da Vinícola Garibaldi em termos de produção?
A cooperativa pode envazar em média 150 mil litros/dia (entre sucos, vinhos e espumantes).

Os espumantes nacionais estão ganhando cada vez mais espaço no cálice do consumidor. E não apenas nas festas de final de ano... Isso é uma tendência?
Os rótulos brasileiros têm uma qualidade indiscutível: são espumantes com identidade e personalidade próprias, resultado de anos de investimentos da indústria vinícola em conhecimento, tecnologia e aperfeiçoamento de processos, bonificados, ainda, por um terroir favorável para a produção de uvas destinadas à elaboração desse tipo de bebida, especialmente no caso da Serra Gaúcha. Prova disso é que os produtos nacionais têm, via de regra, sido consagrados e aclamados em concursos ao redor do mundo. A Cooperativa Vinícola Garibaldi, por exemplo, conquistou o título de ‘Melhor Espumante do Cone Sul’ com seu Espumante Moscatel. Além disso, foi a brasileira mais premiada em concursos nacionais e internacionais por dois anos consecutivos: 2018 e 2019. Em 2020, seus rótulos já arremataram mais de 60 condecorações. O melhor de tudo é que temos um mercado em franca expansão. A média mundial de consumo obedece à seguinte proporção: 96% para os vinhos tranquilos e 4% para os espumantes. No Brasil, o índice dos espumantes é de 7%, o que comprova maior afinidade do brasileiro com as borbulhas. No entanto, o consumo per capita de espumantes no Brasil foi de apenas 150 ml por ano, em 2019. Em 2010, esse número era bem menor: cerca de 80 ml. Em uma década, o consumo cresceu cerca de 85% - e, mesmo assim, ainda é muito baixo. Nossos esforços, enquanto setor, estão voltados para popularizar o consumo de espumantes, desmistificando a ideia de que a bebida é apenas indicada para situações de celebração, e mostrando como ela pode ser facilmente inserida na rotina. Com isso, fortaleceremos uma cadeia produtiva responsável por grande geração de renda e empregos no país.

Defina 2020 em apenas uma palavra?
Aprendizado.

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