Caxias do Sul 27/02/2021

O QUE LER neste dia dedicado... ao SACI-PERERÊ?

Dicas quentes de gelar a espinha sobre boa literatura de horror para celebrar condignamente a data de 31 de outubro
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 31/10/2020 às 08:23:12
O QUE LER neste dia dedicado... ao SACI-PERERÊ?
Foto: DIVULGAÇÃO

Por MARCOS FERNANDO KIRST

Dia 31 de outubro evoca o quê? Evoca uma data para brincar com a sensação de medo provocada por personagens do folclore, da ficção (especialmente na literatura e no cinema) e da cultura popular. O natural fascínio que a humanidade nutre pela sensação de medo vem sendo o alimento que mantém vivo o interesse pela literatura de horror desde que ela se estabeleceu como gênero no Ocidente, lá por meados do século XVIII.

Considerado um gênero menor por alguns literatos, o horror, na verdade, coleciona um cardápio invejável de grandes nomes da literatura universal que se debruçaram sobre ele, legando à eternidade obras tão intrigantes, duradouras e fascinantes quanto os personagens e situações que seus enredos enfocam.

Desde 2003, em função de uma lei federal, essa data é consagrada a homenagear um personagem típico brasileiro que engloba, personifica e representa esse universo: o Saci-Pererê. Sim, hoje é o Dia Nacional do Saci e, como toda a mídia ocidental está abordando o medo em alusão a uma celebração anglófila, nós, aqui neste site, convidamos o Saci a nos sa-ciceronear por um passeio pelo melhor da literatura de horror produzida no Ocidente, como sugestões de leitura nesse dia. Embarque com todas as pernas no redemoinho do Saci, aceite uma baforada que ele oferece em seu cachimbo, municie-se de coragem e vamos lá!

- O CASTELO DE OTRANTO De Horace Walpole (1717 – 1797) publicado em 1784 e considerado o precursor do chamado “romance gótico”, com direito a castelo sombrio habitado por fantasma impertinente. Fundou o gênero e inspirou seguidores, cujos personagens até hoje arrastam correntes e provocam sustos.

- FAUSTO De Wolfgang Goethe (1749 – 1832), sobre o homem que fez um pacto com o Diabo, a quem vende a alma (e daí se dá mal, muito mal mesmo, naturalmente). Trama com o mesmo personagem também abordada anteriormente na peça teatral de Christopher Marlowe (1564 - 1593), intitulada “A Trágica História do Doutor Fausto”; e posteriormente pelo escritor alemão Thomas Mann (1875 - 1955), sob o título de “Doutor Fausto”, e por Fernando Pessoa (1888 - 1935) em “Fausto, Tragédia Subjectiva”, entre outros escritores.

- A BALADA DO VELHO MARINHEIRO De Samuel Taylor Coleridge (1772 – 1834), longo poema brumoso, espectral e arrepiante, narrado por um marinheiro terrivelmente amaldiçoado por ter assassinado um albatroz por esporte.

- A APARIÇÃO DA SENHORA VEAL De Daniel Defoe (1660 – 1731), conto do mesmo autor de “Robinson Crusoé”, que também apreciava discorrer sobre aparições espectrais tidas como reais pelos seus concidadãos. No volume que reuniu relatos dados como verdadeiros (“Contos de Fantasmas”), vale a pena também arrepiar-se lendo “Uma estranha experiência de dois irmãos”, “O espectro e o salteador” e “O fantasma em todos os cômodos”.

- O VAMPIRO De John William Polidori (1795 - 1821), conto publicado em 1819, criando em seu Lord Ruthven alguns elementos e características que mais tarde Bram Stoker usaria para compor seu sedento personagem dentuço.

- A FAMÍLIA DO VURDALAK Conto arrepiante do russo Alexei Tolstoi (1817 - 1875), escrito em 1847 por esse parente distante do famoso Lev Tolstoi, autor de “Anna Karenina” e “Guerra e Paz”.

- O HORLA De Guy de Maupassant (1850 – 1893), existente em duas versões, uma mais perturbadora do que a outra, envolvendo o surgimento de uma criatura invisível inenarrável que atormenta o protagonista até levá-lo ao cúmulo do desespero.

- O CASO DE CHARLES DEXTER WARD Do mestre do horror, H. P. Lovecraft (1890 - 1937). Ocultismo e sanidade limítrofe são os ingredientes da fórmula utilizada aqui para arrepiar os pelos dos braços do leitor.

- CARMILLA De Sheridan Le Fanu (1814 - 1873), um dos precursores dos contos de vampiro no Ocidente. Aqui, a protagonista é uma vampira lésbica. Bram Stoker admitiu ter sido influenciado por esta leitura ao escrever seu “Drácula”.

- A MORTA APAIXONADA De Théophile Gautier (1811 – 1872). O título entrega o plot da trama, mas a leitura surpreende e arrepia.

- NOITE NA TAVERNA De Álvares de Azevedo (1831 - 1852) reúne cinco contos de horror gótico escritos pelo brasileiro e publicados postumamente, três anos após sua morte.

- EU SOU A LENDA De Richard Matheson (1926 – 2013), reúne vampirismo e ficção-científica, obra que alcançou multidões na adaptação para o cinema.

- DRÁCULA De Bram Stoker (1847 - 1912). Clássico, horripilante, envolvente, extenso e prazeroso. Obra epistolar, ou seja, narrada a partir dos diários mantidos pelos personagens principais, exceto o conde vampiro, lógico, que tinha bem mais o que fazer na sua longa e atribulada mortevida do que ficar escrevendo diariozinho.

- FRANKENSTEIN De Mary Shelley (1797 - 1851). Clássico também, hipnotizante e macabro. De tirar o fôlego. Todos conhecem a trama e o monstro do doutor Victor, devido às adaptações nos quadrinhos e no cinema, mas ler o original é de gelar a espinha. Medo incomparável.

- A OUTRA VOLTA DO PARAFUSO De Henry James (1843 - 1916). Clássica novela de horror psicológico e de atmosfera, envolvendo crianças e aparições. Aconselhável ler de dia, com as portas e janelas abertas, as costas apoiadas contra a segurança de uma parede.

- O REI DE AMARELO De Robert W. Chambers (1865 - 1933) Conto a respeito de um livro maldito intitulado (ora, vejam só) “O Rei de Amarelo”, que causaria desgraças inenarráveis a quem o lesse. Leia-o, se fores corajoso. Depois não diga que não avisei. Se eu li? Responder causa desgraça ainda maior...

- A PATA DE MACACO Conto perturbador de W. W. Jacobs (1863 – 1943), um dos preferidos da dupla de escritores argentinos Adolfo Bioy Casares e Jorge Luís Borges, apreciadores confessos do gênero fantástico.

- CASA TOMADA De Julio Cortázar (1914 - 1984). Se a intenção do autor era gerar a sensação de desconforto após a leitura deste conto, bem... ele conseguiu!

- A INVENÇÃO DE MOREL De Adolfo Bioy Casares (1914 - 1999) Escritor afeito à produção de literatura fantástica em seus contos, este é um dos seus mais significativos. A sensação de estranhamento permeia todas as páginas da original trama de horror-científico.

- O CORVO De Edgar Alan Poe (1809 - 1849), um de seus poemas mais densos e sinistros. Mas, do autor, deve-se ler toda a obra, qualquer conto, qualquer poema, pois trata-se do mestre da literatura de horror. Citá-lo pode parecer chover no molhado, mas é uma chuva ácida que vale sempre a pena ler e reler. Enfrente também os poemas “Annabel Lee” e “Ulalume” (curtinhos e malvadinhos). Nos contos, bom, aí são vários, mas encare à meia-noite “O Gato Preto”, “O Barril de Amontilhado”, “Ligeia”, “A Queda da Casa de Usher”, “O Poço e o Pêndulo”, “O Coração Denunciador”, “Berenice”, “William Wilson”, “Morela”, “O Retrato Oval”, “O Caso do Senhor Valdemar”.

- A CAUSA SECRETA De Machado de Assis (1839 - 1908). Sim, até nosso escritor maior dedicou-se a produzir alguns contos de atmosfera tipicamente “allanpoeseana” (?), na língua pátria. Aliás, Machado era confesso admirador da obra de Edgar Allan Poe (chegou a traduzir “O Corvo”, projeto a que também se dedicou o lusitano Fernando Pessoa). Tanto é que, neste conto macabro e assombroso, o nome de um dos personagens, “Fortunato”, faz alusão direta a um dos contos mais terríveis de Poe, “O Barril de Amontilhado”.

- A CASA DAS SETE TORRES De Nathaniel Hawthorne (1804 - 1864), em que uma maldição ancestral atazana os moradores de uma sombria e portentosa residência composta por... bem... sete torres, né. Terror psicológico e de atmosfera de primeira.

- O ESTRANHO MISTERIOSO Novela fantástica e perturbadora, surpreendente por vir da lavra de Mark Twain (1835 - 1910), consagrado por seus contos leves, espirituosos e bem-humorados. Um dos últimos trabalhos do autor, em que um estranho chega de repente a uma pacata aldeia, transformando os destinos de seus habitantes de maneira sombria.

- A HISTÓRIA MARAVILHOSA DE PETER SCHLEMIHL De Adelbert von Chamisso (1781 - 1838). Novela fantástica e singular escrita pelo autor alemão, em que o protagonista se vê em maus lençóis após vender sua sombra ao diabo. Menos mal lê-la em português, pois em alemão deve soar ainda mais perturbadora.

- O MÉDICO E O MONSTRO No original, “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mister Hyde”, de Robert Louis Stevenson (1850 - 1894). A inspiração da novela provém de um pesadelo do autor, em que vislumbrou uma das cenas mais perturbadoras do conto, que eu não conto, para evitar spoiler. Leia e... bons sonhos, se for capaz!

- O MORRO DOS VENTOS UIVANTES De Emily Brontë. Permita-se ser apresentado ao sinistro e malvadíssimo Heatchcliff e depois procure na literatura outro ser mais assustador. Bom, tem alguns que fazem frente, mas... Admitamos, esse aí é jogo duro!

- O PROCESSO De Franz Kafka (1883 - 1924) Toda a obra de Kafka gera a sensação angustiante de aprisionamento psíquico dentro de um pesadelo sem fim. Sob essa perspectiva, sente-se na poltrona e cerque-se também de títulos como “O Castelo”, “A Metamorfose”, “O Veredicto”, “Na Colônia Penal”.

- O SENHOR DAS MOSCAS De William Golding (1911 - 1993). Em cena, a natureza má do ser humano, manifesta entre um grupo de crianças perdidas em uma ilha deserta após a queda de um avião. Claustrofobia ante o mal que vai se instalando e tomando conta. De arrepiar.

- O RETRATO DE DORIAN GRAY De Oscar Wilde (1854 - 1900), em que o fantástico assombroso se une ao horror psicológico para gestar uma novela perturbadora e inesquecível. Passa-se algum tempo depois evitando olhar-se no espelho, né?

- O BEBÊ DE ROSEMARY De Ira Levin (1929 - 2007). Satanismo em seu ápice, nas temerosas páginas lançadas em 1967 e que inspiraram o diretor de cinema Roman Polansky a imortalizar a trama no filme protagonizado por Mia Farrow, já no ano seguinte. Difícil o leitor segurar o livro nas mãos que tremem durante a leitura.

- O HOMEM INVISÍVEL De H. G. Wells (1866 - 1946), outro mestre da literatura fantástica por excelência. Nesta obra peculiar, toda a dimensão e profundidade do mal possível de ser encerrado em uma personalidade humana vem à tona na figura do terrível (e invisível) senhor Griffin.

- O ILUMINADO De Stephen King. Indubitavelmente, o mestre contemporâneo da literatura de horror. OK, toda a caudalosa obra dele arrepia, mas confira seus clássicos de início de carreira, nos quais residem todo o vigor de sua criatividade sombria. Além deste, enfrente também “Carrie”, “A Hora do Vampiro”, “A Incendiária”, “Cujo” e “Christine”.

- ANGÚSTIA De Graciliano Ramos (1892 - 1953). Nada de vampiros, nada de lobisomens, nada de castelos lúgubres e nem sombra de fantasmas. Mesmo assim, a leitura da trama é angustiante do início ao fim. Enfrente! A seguir, puxe, do mesmo autor, o volume de contos “Insônia” e perca o sono lendo a novelinha intitulada “Paulo”, que aborda sob um aspecto bem mais macabro aquilo que Machado de Assis propõe em seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Depois, conversamos.

- LENDAS DO SUL De Simões Lopes Neto (1865 - 1916), três contos ambientados no Pampa gaúcho, evocando as lendas fantásticas (e algumas de tirar o fôlego) do folclore regional: “A Mboitatá”, “A Salamanca do Jarau” e “O Negrinho do Pastoreio”.

- ENQUANTO A NOITE NÃO CHEGA Novela de Josué Guimarães (1921 - 1986), pautada pelo clima de tristeza profunda, solidão e iminência da morte. Mesma atmosfera que permeia a novela “Depois do último trem”, ambas com clima kafkiano de sonho/pesadelo.

- APOCALIPSE De João, no Novo Testamento. Trovões, relâmpagos, terremotos, fogo sobre a terra, devastação, morticínio, gritos, choro, ranger de dentes, hecatombes, desastres naturais e antinaturais, monstruosos gafanhotos letais, anjos exterminadores, enxofre, flagelos, trombetas aziagas, selos terríveis, dragão vermelho com sete cabeças e dez chifres, besta emergindo do mar com aparência de leopardo e pés de urso e boca de leão, besta com aspecto de cordeiro mas que fala como dragão, sinais nos céus, vozes tonitruantes vindas do alto, úlceras malignas e perniciosas, falsos profetas, anticristo bestial com número 666. São os capítulos mais aterradores já escritos em toda a história da literatura ocidental. Felizmente, depois de tudo isso, o final é feliz, para alívio (e redenção) do leitor.

- O LIVRO DE JÓ, inserido na mesma coletânea do texto acima, porém, na primeira parte (Antigo Testamento), também tem o poder de arrepiar os cabelos frente à explicitação dos mais extremos graus de tortura impiedosa (e sadismo onipotente) a que um ser humano pode ser submetido, mas, igualmente nesse caso, o final é redentoramente feliz.

Agora podemos desembarcar do redemoinho do Saci e, mesmo com as pernas tremendo (o Saci leva vantagem nisso, pois só tem uma), celebrarmos condignamente a data, arrepiando-nos de boa literatura.