Caxias do Sul 18/08/2022

Nos acordes das guitarras, homenagens triplas a uma mesma musa

Qual o mistério da mulher que inspirou dois gênios do rock a compor três apaixonantes canções apaixonadas?
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 06/05/2020 às 10:38:11
Nos acordes das guitarras, homenagens triplas a uma mesma musa
Foto: DIVULGAÇÃO

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Onde, ou em quê, residia o mistério inexplicável de seu encanto, ainda está por se descobrir. Dois dos maiores guitarristas da história do rock se apaixonaram por ela e tentaram decifrar o esfíngico mistério que envolve sua persona e enfeitiça os que com ela se relacionam, revestindo-a de uma aura de musa a disputar posição com estrelas consagradas da categoria no universo das inspirações artísticas, como a Beatriz de Dante; a Laura de Petrarca; a Fiammetta de Boccaccio; a Dulcineia do Quixote (musas de papel também valem); a Dama Negra de Shakespeare; a Garota de Ipanema de Tom e Vinícius; a Cecília de Simon & Garfunkel; a Michelle dos Beatles; a Angie dos Stones; a Margarida do Donald; a Mary Jane do Peter Parker; a Mina Harker do Conde da Transilvânia; a Ophélia de Pessoa; e Calíope, Rainha das Musas, inspiradora de tantos outros.

O Beatle George Harrison (1943 – 2001) foi o primeiro a tentar desvendar as searas pelas quais era preciso transitar a fim de descobrir as fontes do encantamento que a modelo Pattie Boyd exercia por onde transitava. Talvez fosse algo em seu jeito de se mover; talvez fosse algo em seu modo de sorrir; ou alguma coisa no jeito de ela saber das coisas... Foi por essas hipóteses que ele tentou perscrutar o indecifrável em sua canção “Something”, inspirada nela e dedicada a ela, com quem se casou em 1964, depois de se conhecerem no set das filmagens de “A Hard Day´s Night”, filme Beatle com trilha sonora original, ambos lançados naquele ano.

Pattie e George Harrison

Mas George era amigo de Eric Clapton, que frequentava a sua casa e não demorou a desmoronar de paixão pela esposa do amigo, cometendo pecado mortal ao implodir a muralha sobre a qual se sustentam as amizades masculinas, na qual está pichado que “mulher de amigo meu é homem”. Nem de longe Pattie Boyd parecia homem aos olhos e ao coração de Clapton, meus amigos, o que ele deixou absolutamente claro ao compor, pensando nela, a canção “Layla”, por quem “caía aos pés”, por quem “implorava, por favor”, por quem revelava ter se apaixonado e “virado a cabeça”, a quem “consolava quando seu velho homem a havia deixado”.

Pois é, o casamento entre Pattie e George fazia água já por volta de 1970, ela estava infeliz e o amigão Clapton aparecia por lá para consolar a moça. Acabou se apaixonando por ela e implorando para que ela deixasse o amigo (seu amigo, marido dela) e fosse viver com ele. Afinal, compusera “Layla” para ela. Pattie hesitou o que pôde, afinal, George compusera “Something” para ela, mas, ao fim e ao cabo, não houve melodia que sustentasse a convivência (George, então viciado em heroína, havia se tornado uma pessoa de difícil trato, conforme ela mesma explicita em sua autobiografia “Um Maravilhoso Presente”) e Pattie deixou George para se casar com Clapton, em 1979.

Pattie e Eric Clapton

A união durou dez anos, até o divórcio, em 1989, pois Clapton, por sua vez, se tornara ele também uma pessoa de difícil convivência, igual ao ex-ex-amigo (George perdoou Clapton por sua derrubada de muro da amizade, que permitira a pulada de muro de Pattie, e tudo terminou bem, ao menos, para os dois amigos), devido a seu vício em álcool, conforme tanto Pattie revela em sua autobiografia quanto o próprio Clapton, hoje ex-alcoólatra, em seu livro biográfico “Eric Clapton, a Autobiografia”. Porém, o casamento rendeu outra pérola da música pop, quando Clapton, sentado no sofá da sala de casa, observa pacientemente a esposa em seu ritual de enfeitar-se para ir a uma festa à noite e ir ficando maravilhosa, na encantadora canção “Wonderful Tonight”.

Algo havia em Pattie Boyd (Patrícia Anne Boyd, nascida em 17 de março de 1944, em Taunton, na Inglaterra), que inspirou três clássicos românticos da música pop do século XX. Talvez se consiga descobrir alguma pista do que é esse algo especial escutando esse trio de músicas e transformando-as em trilha sonora para a descoberta desses mesmos atributos especiais na pessoa que está a seu lado. Quer tentar? Sente o som das canções aqui:

SOMETHING

LAYLA

WONDERFUL TONIGHT

E se você fosse a musa, qual das três canções você escolheria como sua trilha pessoal?

Curiosidade: no clipe da música "Something", produzido em 1969 para o álbum "Abbey Road", dos Beatles, cada músico aparece com sua musa da época: George Harrison com Pattie Boyd, John Lennon com Yoko Ono, Paul McCartney com Linda Eastman e Ringo Starr com Maureen Cox.