Caxias do Sul 05/08/2020

Inéditas “Verdades” do poeta colecionador de prêmios

Escritor Valdir dos Santos, maior vencedor da história do Concurso Literário de Caxias do Sul, presenteia aos leitores do site alguns de seus poemas guardados
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 30/07/2020 às 15:53:57
Inéditas “Verdades” do poeta colecionador de prêmios
Foto: ARQUIVO PESSOAL

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Libriano, natural de Júlio de Castilhos, escritor e artista plástico, Valdir dos Santos debruça seu olhar artístico sobre as nuances da vida a partir de Caxias do Sul há mais de meio século. Mudou-se para a “Pérola das Colônias” na década de 1970, ainda criança, acompanhando a trajetória de vida protagonizada pelos pais e irmãos.

Aqui, já adulto, integrou a equipe de Assessoria de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul, desempenhando funções nos setores de criação, planejamento e logística de eventos. Colaborou com vários jornais de Caxias do Sul e de Porto Alegre, ao longo dos anos.

Atento, sensível, culto, informado e perspicaz, logo encontrou seu espaço na cidade e foi emaranhando sua alma e seu talento com as formas de expressão artística nas quais melhor transita: a escrita e as artes plásticas. No primeiro quesito, sustenta a primazia de ser o maior ganhador de prêmios na história do Concurso Anual Literário de Caxias do Sul, promovido pela Biblioteca Pública Municipal ininterruptamente desde o ano de 1967. Entre contos, crônicas e poesias, incluindo menções honrosas, seu nome figura nada menos do que 28 vezes na listagem de todos os ganhadores até 2020. É o recordista incontestável.

No segundo quesito, tem no currículo participação, com obras de sua autoria, em mais de 30 mostras coletivas e individuais. Utiliza diferentes técnicas de pintura, de acordo com a motivação que o tema lhe inspira, demonstrando domínio técnico, talento e marca própria também nessa seara artística.

Apesar dessa performance única no campo da literatura em Caxias do Sul, Valdir segue inédito em publicação de obra solo. Seus textos podem ser lidos somente por quem buscar as antologias reunindo os trabalhos dos vencedores do Concurso Anual Literário, ou, eventualmente, em alguma publicação que faz de surpresa em suas redes sociais. Em 1998, participou com oito poemas da antologia intitulada “Matrícula Dois”, produzida pela Secretaria Municipal da Cultura de Caxias do Sul, reunindo dez nomes expressivos da poesia praticada na cidade naquela época. Essa economia no apresentar não rima, no entanto, com o volume e o ritmo da profusão de sua criação.

Valdir escreve, e muito. Possui, entre seus originais inéditos, material para a publicação de dez livros de poemas temáticos, totalizando cerca de 500 textos. Além disso, represa também 50 contos que, reunidos e publicados, formariam uma edição de leitura saborosa. “Escrevo primordialmente à noite, varando a madrugada, em jorros criativos, especialmente quando produzo poesia, esgotando um tema específico, que vou especulando e interferindo com minha literatura”, explica o poeta.

Com exclusividade para o site, Valdir dos Santos generosamente liberou a publicação, em primeira mão, de alguns poemas inéditos integrantes do volume batizado como “Verdades”, que o leitor pode saborear a seguir.

INCRIMINAÇÃO - 4

Não tenho a fala

nem sou como um lamento tardio

de quem se sabe estrela vazia

no céu de ontem à noite,

mas de quem se sabe noite

nessas noites intermináveis

e abafadas de verão

escreverei cada emoção

e esperarei que, talvez em algum ponto,

desse universo azul em que nos perdemos

um do outro

encontraremos um outro céu

que seja um céu à espera

não apenas de outras palavras

e de outras ternuras e tristezas

inventadas para nos ferir mutuamente

mas de outras marcas na alma

vividas sob um céu azul

de noite esquecida no verão

dessas noites azuis e mudas

sob esse céu povoado de novas estrelas

distantes e frias umas das outras

como tantas outras estrelas.

INCRIMINAÇÃO – 6

Nenhum santo abençoa o amanhecer

ou este dia de sombras e olhares furtivos

em que os calendários perpétuos se confundem

com memórias clandestinas,

anotadas nos missais e nos cadernos

de contas perdidas dos armazéns.

Mesmo inúteis,

o homem dos números,

conta e reconta seus saldos e lucros e perdas

milhares de vezes os mesmos números

sem perceber que, num canto do jornal,

os números se transformam

em sinais e senhas

de cofres sabotados

e de tesouros

que nem todos os potes

no fim do arco-íris

ousam imaginar.

INCRIMINAÇÃO – 18

São de aço e mel as comportas

do vale de lágrimas

e irreais as quimeras e polifonias

rudemente marteladas

nos conservatórios musicais

e nos discos arranhados

das discotecas em memória de alguém

são temperadas com sal

as lâminas das guilhotinas

e as bordas das cartas perfumadas

enviadas pelos voluntários de guerra

às mulheres perdidas

encontradas nas esquinas

e nas salas de encontros virtuais

cartas que sonham amores

que nunca serão.