Caxias do Sul 27/02/2021

Fotos revelam escultor italiano criando as portas da Igreja de São Pelegrino

Imagens eternizam artista em ação em seu atelier na Itália, produzindo a arte que viria a Caxias do Sul em outubro de 1983, há 37 anos
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 24/10/2020 às 21:31:46
Fotos revelam escultor italiano criando as portas da Igreja de São Pelegrino
Escultor Augusto Murer em seu atelier na Itália, trabalhando os moldes em argila das portas da Igreja de São Pelegrino, em 1976
Foto: ARQUIVO PESSOAL

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Aniversariantes especiais deste mês de outubro são as portas de bronze que ornamentam a entrada da Igreja de São Pelegrino, em Caxias do Sul. Inauguradas em 29 de outubro de 1983, completam, neste 2020, 37 anos encantando fieis e turistas que se aproximam do significativo templo católico que se confunde com os primórdios da cidade e do processo de colonização da região serrana.

Imagem provavelmente pouco vista e desconhecida de ampla parcela dos caxienses é a fotografia que encabeça esta matéria, mostrando um raro flagrante do escultor italiano Augusto Murer (1922 – 1985) trabalhando em seu atelier na Itália, em 1976, dedicado a produzir os moldes em argila das portas, que seriam enviados a Caxias do Sul para orientar a posterior fundição em bronze dos monumentos que hoje adornam a igreja.

Esta imagem, junto com as outras oito dispostas ao longo da matéria, foram todas produzidas em 1976 no atelier do artista, mostrando os detalhes dos moldes criados a partir dos desenhos (croquis) originais concebidos por Murer. Material gentilmente cedido ao site pelo artista plástico e poeta caxiense Valdir dos Santos.

O conjunto dos desenhos preparatórios das situações retratadas nas portas (os croquis deram origem aos moldes em gesso, que resultaram nas portas de bronze) foram objeto de uma exposição realizada na Comuna de Feltre, na Galleria d´Arte Moderna Carlo Rizzarda, na Itália, entre 23 de setembro e 24 de outubro de 1993. Intitulada “Augusto Murer: Le Porte Della Chiesa di Caxias do Sul”, encantou os visitantes, que recebiam um livreto ilustrado narrando toda a saga da construção das portas na igreja brasileira. Foram expostos 27 croquis e cinco réplicas em miniatura em bronze, de cenas integrantes do trabalho.

Churrasco, feijoada e uma grande ideia

Dotar a Igreja de São Pelegrino com portas artísticas de bronze era um sonho do padre Eugênio Ângelo Giordani (1910 – 1985), primeiro pároco daquela paróquia, criada anteriormente por Dom José Baréa (1893 – 1951), primeiro bispo da Diocese de Caxias do Sul. A concepção do sonho começou a ser moldada em 1969 e começou a tomar forma dois anos depois quando, em outubro de 1971, o empresário caxiense Octávio Luiz Biazus (1929 – 2015), descendente de imigrantes, viaja à Itália em busca de suas raízes familiares.

Recebido em Feltre pelo então prefeito da Comuna, o signore Sisto Belli, com quem trava animadas conversações em dialeto feltrino, o caxiense faz ao mandatário italiano um convite para que vá a Caxias do Sul dali a alguns anos, em 1975, participar da edição daquele ano da Festa da Uva, que seria muito significativa, inserida dentro das comemorações do primeiro centenário da imigração italiana ao Brasil.

Entusiasmado com tudo o que ouviu Biazus contar a respeito da região da Serra Gaúcha e os reflexos nela da cultura italiana, Belli não esperou tanto para empreender sua própria jornada particular à Mérica e, já no ano seguinte, 1972, protagonizou uma visita de oito dias a Caxias do Sul e região, acompanhado da esposa, do padre Giulio Perotto e do fotógrafo Giovanni Frescura. Giulio Perotto é quem assina o longo relato sobre essa jornada, impresso no livreto alusivo à mostra dos croquis de Murer, de 1993.

Um dos diversos jantares com que a comitiva foi recepcionada (regado, conforme relatado no livreto da exposição, a churrasco – “mezzo chilo di carne pro capite!” – com “outro tanto da tradicional feijoada”, grafada “faeseolada” no relato) contou com a presença do padre Giordani, que compartilhou com os visitantes sua intenção de dotar a Igreja de São Pelegrino com três portas de bronze, como forma de homenagear a imigração italiana. Ali surgiu a ideia de arregimentar ao projeto algum artista italiano.

O sacerdote da comitiva, padre Perotto, recordou conhecer um escultor originário de uma das regiões de onde partiram alguns imigrantes ao Brasil, justamente, Augusto Murer, nascido na comuna de Falcade, no Vêneto. Feitos os contatos e tratativas, Murer colocou mãos à obra a partir de acordo firmado em 1973, vindo a assinar as portas cujas figuras representam, nas portas laterais, a Justiça e a Paz e, na central, o Amor, todas elas narrando a história dos pioneiros.

A fundição em bronze foi realizada em Caxias do Sul, sob a orientação do mestre uruguaio Miguel Angel Laborde, na Siderúrgica Tomé Ltda. (atual Tomé S.A Indústria de Autopeças). A pátina foi aplicada na Metalúrgica Abramo Eberle S.A. e o sistema eletrônico de abertura e fechamento foi idealizado e construído por Remo Gianella.

A inauguração oficial das portas, em 29 de outubro de 1983, contou com a presença do núncio apostólico Dom Carlo Furno, então representante do papa no Brasil, que fez a consagração das estruturas. Entre as autoridades presentes, o governador do Estado Jair Soares, o bispo dom Paulo Moretto.

Destaque para a presença do próprio escultor Augusto Murer, que veio da Itália capitaneando uma comitiva de 21 pessoas, entre elas o presidente da região do Vêneto e reitores das universidades de Pádua e de Veneza. A solenidade contou com a apresentação de vários corais regidos pelo maestro Alcides Verza. Especialmente para a ocasião, o poeta serrano Oscar Bertholdo (1935 – 1991) compôs um longo poema, “Memorial para três portas”, composto por três partes distintas.

O guerrilheiro escultor

Augusto Murer nasceu em Falcade, região italiana do Vêneto, em 21 maio de 1922, mesmo ano em que o líder fascista Benito Mussolini (1883 - 1945) subiu ao poder no país, tornando-se primeiro-ministro. O pendor para as artes plásticas manifestou-se cedo e cursou a escola de arte em Ortisei, na região do Trentino-Alto Ádige.

Participou ativamente da Resistência contra os fascistas e os nazistas na Itália nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), pegando em armas e entrando em combate nas montanhas de Belluno, integrante ativo da Brigada Fratelli Fenti. No período do pós-guerra, teve participação ativa no processo de renovação artística, cultural e civil do país, caracterizando-se como um artista expressionista.

Morreu em Pádua, em 11 de junho de 1985, aos 63 anos.

Portas de bronze celebram 37 anos em outubro de 2020 (Fotos: Silvana Toazza)