Caxias do Sul 05/12/2021

A pirataria identitária de Jeferson

Artista caxiense de rua vive dentro de um personagem que já se incorporou às paisagens centrais da cidade
Produzido por Marcos Mantovani, 14/03/2021 às 08:45:46
A pirataria identitária de Jeferson
Foto: MARCOS MANTOVANI

Na ideologia dos piratas, não existe negacionismo. O pirata Jeferson poderia inclusive dar uma aula de geografia para quem acha que a Terra é plana.

Autoridade para isso ele tem, já que seus antepassados de piratagem começaram a singrar os oceanos do globo há milhares de anos. Segundo eles, jamais se ouviu que algum barco pirata tenha despencado de uma suposta borda limite no mar, um precipício cujo fundo seria o espaço sideral. Piratas acreditam na ciência.

Aos 43 anos, Jeferson Correa Silva é o único pirata que aparecerá no Censo 2021 de Caxias do Sul. Seu personagem virou sua identidade – fato saboroso para a psicanálise. Mas, ao que parece, Jeferson não precisa nem de Freud nem de Lacan. Ele está adiantado no seu processo de autodesvendamento. Olha-se no espelho e se identifica com a barba, a tatuagem, o chapéu, o olhar incisivo de quem navega em barcos pirateiros cheios de bandeiras acaveiradas.

indício 1, indício 2

O primeiro indício de que Jeferson seria um pirata apareceu cedo, antes dos dez anos. Quando a família dele (os pais com três meninos e três meninas) trocou Caxias por Cazuza Ferreira, algo nasceu com força. Lá, nos espaços dilatados do campo, Jeferson era a única criança que insistia em subir nas árvores. Subia nelas e vigiava o horizonte durante horas, brincando de pirata aspirante no topo de um mastro em alto-mar.

O indício dois é menos romântico. É até um pouco cruel. Por isso, Jeferson sorri embaraçado e se desculpa em antecipação. “Eu era só uma criança.” Ele declara que, depois de procuras solitárias que podiam durar semanas, o pequeno pirata encontrava os ninhos de papagaio, com o objetivo de sequestrar os filhotes e vendê-los no mercado pirateiro. Época em que, sem perceber, ele ajudou a dar corpo à expressão “papagaio de pirata”.

as andanças, a comédia stand-up

Jeferson já morou em Antônio Prado, Torres, Camboriú (ali, de modo amistoso, dividia apartamento com um punk e uma prostituta). Em Caxias, devido às vicissitudes do destino, ele hoje não possui endereço fixo – fato que, em parte, lembra o filme “Nomadland” (2020), que retrata pessoas vivendo de improviso em trailers e rodando os EUA em busca de empregos temporários. A seu modo, Jeferson é um pirata itinerante à procura de oportunidades – e que nutre o sonho de um dia morar numa Kombi.

Jack Sparrow, de “Piratas do Caribe”, é a referência mestre. É nesse personagem que Jeferson se baseia para desenvolver sua comédia stand-up nos semáforos de São Pelegrino e do Centro caxiense. Durante os intervalos, o pirata mantém uma ocupação paralela – Jeferson também é um “severino”, como dizem, ou faz-tudo, espécie de office-boy informal para alguns camelôs e barraquinhas de hot dog.

o cinema, a variedade musical

Jeferson é fanático por filmes. De Stanley Kubrick, ele exalta “O iluminado” e “Laranja mecânica” – essa laranja mecanizada mexe com a sensibilidade dele por causa de certa atmosfera punk-anarquista que há no enredo (Jeferson se reconhece anarquista). De Ridley Scott, cita “Alien” e, sobretudo, “Thelma e Louise” – ele não esquece a cena final em que as amigas feministas ultrapassam a margem ao mesmo tempo literal e figurada da existência.

A existência de Jeferson, além de cinema, também está abastecida de muita música. É heterogêneo o gosto dele. Vai de Martinho da Vila a Ramones, vai de Ludwig van Beethoven a James Brown. “O funk raiz vem do James, o resto é carioquês”, diz. Ele conta ainda que no momento está redescobrindo o disco “The real thing”, do Faith no more, com um carinho específico pela faixa dois, “Epic”.

o filho, a sabedoria das caveiras

O filho de Jeferson tem doze anos e se chama Away Michelangelo. Embora não vivam juntos, o pirata às vezes se encontra com Away. E reforça para o filho a importância do hábito da leitura, das letras. Jeferson é leitor principalmente de revistas.

Mas às vezes lê literatura e filosofia: Mark Twain, Oscar Wilde, Nietzsche. “O velho Nietzsche disse que deus está morto e eu concordo com ele, é só olhar em volta.”

Além de olhar em volta, se você olhar também para as mãos do pirata, verá dois anéis com caveiras. Jeferson os justifica usando uma explicação nietzschiana. Diz ele que há sabedoria num adereço com crânios expostos, já que as caveiras nos recordam de que o fator humano está em todas as classes sociais, etnias, sexos, gêneros, idiomas. O fator humano está numa roupa alegre de pirata, fazendo comédia stand-up ali na Marechal com a Júlio.