Caxias do Sul 27/10/2020

‘WHISKY’ é obra sobre solidão e condição humana

Premiadíssimo, filme clássico do cinema uruguaio está agora disponível no catálogo da Netflix
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 02/08/2020 às 09:24:20
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

Sorrir é mais ou menos como entregar a alma. Principalmente para os que dificilmente o fazem. Esses precisam de estímulo, “xis” ou “whisky”, para abrir um mínimo sorriso, pelo menos na fotografia. E ela, ainda que seja uma farsa, estará solene no porta-retrato, na sala de jantar.

Junto a ela, tantas outras, as que reivindicam para si recordações do real, do vivido. São memórias incontestáveis. Quando não existem as lembranças, a foto é somente o registro do que jamais existiu. Para Jacobo (Andrés Pazos) e Marta (Mirella Pascual) é assim. E, se a fotografia não é fala audível, pois mentirosa, o diálogo o é menos ainda.

Alguns de nós adentramos por caminhos estranhos em que falar parece algo não-natural. Expressar-se pode de algum modo doer? Ou é só a falta de traquejo? Ou é porque um endurecimento de espírito moldou uma pedra no lugar do coração? Ou simplesmente esse coração deixou de sentir até seus próprios batimentos que indicam vida?

E se for apenas uma impiedosa necessidade de não ser ou, quem sabe, ser na invisibilidade? Recapitulando dia após dia uma rotina infindável, sem graça, sem tempero, sem açúcar e sem afeto?

Quando assisti Whisky (Uruguai, 2004), encontrei ali inúmeras semelhanças com a vida aqui fora. Filmes que enfocam a essência humana de um modo delicado e despretensioso me ganham.

A monotonia da vida para além das horas de trabalho em uma decadente fábrica de meias em Montevidéu me fez repensar o sentido da rotina. Ela, impositiva que é, nos conduz e reconduz ao óbvio, nos impele à repetição da repetição da repetição, até não sabermos mais sentir. O dono da minúscula fábrica é assim, já não consegue sentir porque está impregnado pelo ganho de suas meias baratas.

Jacobo e Marta, retrato da farsa

Jacobo, esse homem metódico e calado, precisa de uma mulher para fingir que é sua. A farsa será por três dias, tempo da visita de seu irmão Herman (Jorge Bolani), que vive no Brasil. Também ele segue a tradição da família no ramo de meias. Mas as suas são divertidas, com listras coloridas. As de Jacobo, beges, sem graça, de qualidade duvidosa, simbolizam sua própria vida.

Quando calçamos meias, aquecemos os pés, impedimos que os sapatos machuquem, buscamos conforto. E é aí que temos a contradição em Jacobo, o conforto para ele está na repetição, não no aconchego. Está em não ter de lidar com o incerto. Se as meias são destituídas de criatividade, é porque assim é a vida desse homem.

Marta, funcionária da fábrica, aceita o papel de falsa esposa e, com sua ternura disfarçada, ajeita a casa de Jacobo, aproximando-a de um lar. Essa mulher de sensibilidade ímpar nutre-se de pequenos prazeres: fumar em intervalos do trabalho, ir ao cinema sozinha, andar no ônibus ouvindo música em seus fones de ouvido. Marta aceita passar-se por alguém que não existe, para pertencer ao mundo de alguém com quem possa, quem sabe, sair do torpor que certas solidões impõem. Mas a incomunicabilidade é extrema.

Marta e Herman, alguma afinidade

O filme, que poderia cair no lugar-comum, tem um gosto amargo. Elegância e romantismo não são credenciais para nada. Não nesse faz de conta que chega a doer na gente. Uma mulher e um homem maduros que nada têm em comum, exceto a solidão, não são aqui um par plausível.

Esse é um dos trunfos de Whisky. Sorrir para a câmera e fingir felicidade não são requisitos para um encontro de almas. Marta busca a afeição de Jacobo, embora não o demonstre claramente. Ela, que fala uma língua ao contrário quando quer, se revela especialmente amável e disposta a se aproximar.

Whisky é um filme longe de qualquer dramalhão. Não sei mesmo como designá-lo e penso que isso pouco importa. Há uma história aparentemente banal, com personagens incrivelmente humanos que tentam, cada um a seu modo, ir adiante.

Muito embora, Jacobo continue onde está, atolado em seu cotidiano insípido, essa quase-vida para ele basta. Para que novidades ou um amor possível, bem diante de seu nariz? Melhor não enxergar. Para que, se ele não se sente pleno e capaz para dividir a vida com alguém? Porque a verdade é que, para dividir, antes seria necessário somar. Essa conta ele não sabe fazer.

Mas o que mais me cativou em Whisky é, sem dúvida, a personagem de Mirella Pascual. De dentro de sua própria solidão, ela encontra um lugar só dela, descoberto aos poucos pela atenção de Herman, o irmão sociável de Jacobo.

Vemos Marta sofrer mesmo que o casamento seja de mentira. E fiquei imaginando quantas mulheres (sobre)vivem em relacionamentos vazios. Sem o básico do básico, que é a comunicação entre parceiros. O olhar, o toque, a ternura, as diferenças sim, mas também as conjugações que aproximam.

Sem idealismo algum, Whisky é meio que um tapa na cara. Um tapa que nos faz arregalar os olhos para o inacessível que existe em cada um de nós.

Assista ao trailer (com legendas em inglês) AQUI

Mirella Pascual, atuação sensível

DE OLHO NO SET

Whisky foi dirigido por Juan Pablo Rebella (1974-2006) e Pablo Stoll e financiado por um pool de produtores, incluindo o Instituto Sundance e a TV japonesa, NHK.

Em 2013, o filme foi eleito o melhor em duas décadas pelo Festival de Valdívia, no Chile.

À época do lançamento, Juan Pablo contou que a ideia do filme surgiu depois de uma visita a uma decrépita fábrica de meias. “Imaginamos como seria viver nesse contexto e inventamos uma história passada ali”.

Whisky foi vencedor do 17º Festival Internacional de Cinema de Tóquio, em 2004, e Mirella Pacual recebeu o Prêmio de Melhor Atriz.

A obra venceu a mostra paralela do Festival de Cannes, e ganhou na categoria de Melhor Filme Estrangeiro em Língua Castelhana do Prêmio Goya.

No 32º Festival de Cinema de Gramado, recebeu o principal prêmio o Kikito de Melhor Filme Latino, o Prêmio do Júri Popular e o de Melhor Atriz para Mirella Pascual.

Rebella e Stoll dirigiram juntos Victor y los Elegidos (1996) e 25 Watts (2001).

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com