A criança que você foi coabita no adulto que você é. Sabe aquele menino(a) que tinha medo de falar, que explodia para se proteger das invasões e ficava com raiva, calado quando não suportava mais? Ele continua a te acompanhar.
É assim que seu eu criança e seu eu adulto ficam a se mover nesse mesmo lugar. O adulto tentando se alargar para a criança ter mais espaço ou para o adulto se formar. Os dois interagem e brincam de esconde/aparece e se fazem notar.
Quando o adulto fica inseguro, triste, com medo, a criança dentro dele, que viveu esses momentos, salta e age da mesma maneira que o fazia. Se essa criança não aprendeu a se desenvolver diante das adversidades e dos dissabores da vida, ela terá atitudes parecidas de quando era infantil. Afinal, era assim que reagia o(a) menino(a) indefeso(a) diante de proteger o seu lugar.
Ele agora pode continuar se escondendo daquilo que não sabe como lidar, do que o intimida quando não encontra um lugar seguro para se acomodar.
É esse adulto que deseja crescer e se desenvolver, aquele que, quando criança, não tinha espaço, não sabia como agir, se intimida e, por vezes, encolhido ficava.
É nesse ir e vir que se construiu um homem ou uma mulher, que faz acontecer, que reclama o não acontecido, ou o do desgostoso ocorrido. É ali que se sente pertencido ou não. É ali que busca acolhida, que se refaz das experiências vividas, que tropeça, cuida do machucado e segue, com dor no joelho, caminhando e modificando a sua estrada. É nesse momento que o adulto surge, e assume o controle, a direção e as decisões.
Quando se desenvolvem as birras, as manhas sentidas ficam na gaveta do compreendido e do que um dia foi vivido.
Gosto do termo alteridade – reconhecer o outro distinto de si. Na alteridade do adulto poderia estar incluída a capacidade de reconhecer a criança que foi para não se tornar constantemente ela. Então, não fuja dela, reconhece-a! Ela pode te ajudar a viver melhor a vida e tudo que faz parte dela.
Que a criança densa, tensa, cheia de cicatrizes, que está em você, aprenda a cuidar de si, do que não foi tão bom assim. Que o adulto, que está em você, cuide das dores dessa criança e que os dois possam conviver em harmonia: o seu eu criança representando o passado e seu eu adulto com os pés no hoje.
Aproveite, da criança que foi, para aprender a brincar, a sorrir a se vislumbrar com o Papai Noel. Que essa criança leve e tranquila renasça em ti constantemente!
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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