A vida não é feita de perdões ou de paredões: ela é feita de compreensões.
Os perdões não efetivados se embrenham num longo e difícil caminho a percorrer. Se perdem numa mistura de se doar e se recriminar por não conseguir alcançar o sentimento desejado.
Percebe-se pessoas que se mortificam por não conseguirem de maneira mágica enxergar diferente. Outros, rígidos, seguem censurando/culpabilizando quem supõem não terem sido bons com eles.
Quando não construídos, os perdões e seus caminhos emperram os passos. Afinal, fica-se em dúvida sobre a quem devemos perdoar, se é ao outro e sua insensatez ou a nós mesmos e à nossa fragilidade por termos permanecido tanto tempo atrapalhados, à mercê de algo que foi construído com as verdades do outro, e eles não refletem sobre o que penso ou sinto. E esse é um caminho longo para discernir e filtrar como enxergo os percalços com as pessoas. Cada um do seu jeito vai descobrindo seu lugar e sua proximidade com o outro.
Sucumbimos em lugares difíceis, longe de discernir que somos corresponsáveis pelo que o outro nos fez. Ou ele não fez, e eu que entendi assim.
Compreender é saber que não existe quem saiba mais ou menos. Cada um compreende uma parte. Compreender é entender que cada um age da melhor maneira que consegue com o que aprendeu até ali. Compreender é saber que todos somos partes diferentes da mesma unidade. É saber, inclusive, que as atrapalhações do outro, ou as minhas, podem ser uma tentativa de acertar.
Compreender também é encontrar sentido no que está sendo vivido ou, ao menos, acolher de maneira coerente o que não se pode modificar. O abismo a que sucumbimos, por não encontrar saídas viáveis, entorta mais ainda o acesso do caminho que desejamos.
A consciência brota de mansinho. A direção surge no horizonte, às vezes incógnita ou anônima, desvenda-se no dia a dia.
Se levamos dentro de nós a máxima de “Faça ao outro o que deseja que ele te faça”, conseguindo ser justos e, acima de tudo, para não entrar no esquema de sermos bonzinhos demais que, muitas vezes, alimenta o errado. Não devemos também sermos rudes, pois isso deixa um rastro de desamparo.
Sabemos, no entanto, que a vida pulsa nas veias daquele ser que busca constantemente a restituição. É o mesmo pulsar do universo clamando pela evolução e por se sentir único, pleno em dar e em receber da melhor maneira que compreendeu.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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