A distância entre eles foi aumentando. O casal entrou num abismo. Ficaram surdos um para o outro. Não conversavam mais. Não sorriam mais juntos. O afastamento se sobrepôs. As contradições tomaram conta.
O tempo passou. Cada um seguiu sua jornada individual. Esqueceram do nós, do amor que um dia sentiram um pelo outro. Esqueceram inclusive de alimentar a união com cuidados, com coisas simples que demarcam presença, com zelo que embala o cuidado.
A relação ficou frágil, perdida, desamparada, não compartilhada.
O dia a dia se sobrepôs. O acúmulo de tarefas e funções tomou conta. O ser só enxergou a si e passou a viver no automático.
Eles perceberam a distância aumentar e diziam não ter tempo; tempo de se olhar, de investir no outro, de resgatar algo que um dia construíram. Passaram a compartilhar os defeitos um do outro. Se recriminar mutuamente, se ferir. A distância que já existia virou tensão, mágoa, ressentimento. A sombra era cada vez mais evidente.
Será que ainda existia amor?
Foi esse amor que se perdeu. Foram esses dois seres que passaram a viver mundos distantes e diferentes. Foi esse amor que perdeu o encanto, a voz e a direção. Passaram a viver encontros preenchidos de vazio, distantes de certezas, produzidos de incerteza...
Quando acreditamos que sabemos tudo de relacionamentos, estamos no limiar de não saber nada, de nos equivocar, de sermos estranhos em nós mesmos. É ali que nos perdemos de nós e do outro que, ao nosso lado, seguia, e é nesse jeito de andar com o outro que a distância se efetiva mais ainda.
Como religar a relação? Como cuidar do que foi deixado de lado, do que foi abandonado?
A verdade é que são necessários dois para cuidar de um relacionamento. Um sozinho não constrói a união.
Depois de se enxergar nessa situação, é preciso tomar a decisão de sair desse lamaçal juntos, unidos e de mão dadas. Um dos dois sozinho não consegue religar uma relação que necessita de dois.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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