Caxias do Sul 29/06/2022

Quem eram os birivas

Personagem típico dos Campos de Cima da Serra representa um modo de ser humano e cultural
Produzido por José Clemente Pozenato, 23/06/2022 às 08:46:28
Foto: Marcos Fernando Kirst

Nascido nos Campos de Cima da Serra, desde menino conheci os birivas, e até certo ponto convivi com eles. Mas só me dei conta de como o jeito deles era diferente quando vim estudar em Caxias do Sul.

Nesta cidade, por um fator cultural que demonstrei na obra O Regional e o Universal na Literatura Gaúcha, o cultivo das tradições gaúchas seguiu o modelo de “tradição inventada”, criada por Paixão Cortes. O estereótipo dessa tradição foi veiculado pelos CTGs, adotados em todas as regiões de imigração, dentro de um processo antropológico de integração cultural.

Minha maior surpresa de menino ficou registrada no plano visual. Nenhum biriva de São Chico usava bombacha larga e bota de cano curto. Seu traje típico era uma calça estreita com botas de cano comprido, no mínimo até o joelho. Usava na cintura a guaiaca, um cinto largo cheio de bolsas e fivelas e tinha nas botas esporas pontiagudas, que cantavam quando ele andava num piso de madeira.

A origem do nome biriva é bem controversa. Raul Pont, em seu livro Campos Realengos (1983, 2ª ed.), afirma que birivas eram tropeiros identificados pelo nome do beribá, uma árvore dos matos de Cima da Serra. Outra hipótese é de que o nome veio de Sorocaba, em São Paulo, para onde os tropeiros levavam mulas e gado.

O fato é que na região de Cima da Serra biriva é um adjetivo gentílico, de sentido equivalente a serrano. Mais que isso, é uma nominação que designa todo um modo de ser, com atitudes que fazem dele um gaúcho diferente: é um sujeito quieto, observador, que não conta bravatas.

Outro sentido oculto é que essa palavra serve para designar um sujeito desconfiado, cheio de melindres e cuidados. Essa qualificação deve talvez ser creditada ao fato de que o biriva, além de condutor de tropas, era um homem que carregava a guaiaca cheia de dinheiro, resultado dos negócios da venda de quinhentas mulas ou oitocentos bois, como narra um tropeiro de 82 anos, entrevistado em Esmeralda, nos campos de Vacaria, em 1999:

Levei boi daqui a Curitiba. Era um tempo bom. Uma vez trouxe o dinheiro de oitocentos bois, nos peçuelos, um pacote assim de dinheiro! Não tinha ladrão. Mas aí pousei em Vacaria, com a dinheirama de oitocentos bois e fui na casa do prefeito. Ele tinha um cofre grande lá:

- Seu João, o senhor guarda para mim uns remédios no cofre?

Quando ele viu o pacote, falou:

- Uma dinheirada dessas? Não, eles vão me matar!

[...] Eu fui de uma época boa. Naquele tempo era só dinheiro vivo, nota de quinhentos, daquelas grandes. Mas tinha que se cuidar.

Por isso é que, como relata Raul Pont em seu livro, “o biriva usava um tipo de guaiaca, só usada por ele, aliás, criada por ele, com vários forros, quase uma maleta, com fechos nas pontas junto às fivelas, onde se podia transportar com segurança muito dinheiro”.

Há inúmeros documentos escritos sobre os birivas, muitos deles europeus que percorreram o Sul do Brasil. Isso mostra como eles foram importantes para a economia e a sociedade da época e porque deixaram traços culturais tão marcantes na Serra Gaúcha, antigo caminho das tropas.

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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