Caxias do Sul 30/10/2020

“Psicose”, o cinema cinzelado a suspense e paixão

Alfred Hitchcock partiu há quatro décadas e seu clássico “Psycho” completa 60 anos de seu lançamento
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 03/05/2020 às 09:19:41
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Produzido por Eulália Isabel Coelho

Norman Bates é o seu nome. Sob sua aparência vulnerável e insegura, existe um duplo. Seu eu dividido recria a figura da mãe. Ela emerge nele como sombra. É nesse escuro que Norman transita com liberdade.

É no espelhamento que encontra a versão abusiva e torpe que lhe é necessária para matar. Esse taxidermista psicopata mudou para sempre a história do cinema pelas mãos do genial Alfred Hitchcock (1899-1980).

Norman, o taxidermista

Antes de conhecermos Norman (Anthony Perkins), somos conduzidos pela história de Marion Crane (Janet Leigh) que rouba 40 mil dólares, dinheiro que deveria depositar na conta de seu patrão. A ladra assustada foge em seu carro e em dado momento, sob chuva tempestuosa, abriga-se em um motel de beira de estrada. Norman irá atendê-la, será gentil, lhe dará de comer em meio a seus bichos empalhados.

Marion Crane (Janet Leigh) em fuga

Somos levados a acreditar que Marion é a protagonista do filme. E é, pelo menos por cerca de 30 minutos. Ao desaparecer da trama, Norman é alçado ao protagonismo. Somente o virtuosismo de Hitchcock para apresentar um enredo tenso, mudá-lo drasticamente e nos deixar inquietos à espera do desfecho. Não é à toa que o Mestre do Suspense revelou que “Psicose” (1960) foi sua experiência mais apaixonante. Sabe-se que seu prazer era desestabilizar o espectador, manipulá-lo, torná-lo voyeur. Aliás, voyerismo e culpa são objetos dramáticos fundamentais ao diretor.

Marion chega ao Bates Motel

Esse efeito sobre a plateia era cuidadosamente elaborado. Em sua famosa entrevista a François Truffaut (1932-1984), revelou que “é preciso desenhar o seu filme como Shakespeare construía suas peças, para o público”. Rigoroso e perfeccionista, o mestre tinha tudo sob controle nos sets de filmagem. Sabia exatamente o que queria e como com seus famosos storyboards. Leitor confesso de Edgar Allan Poe, Hitch dizia que ambos eram “prisioneiros do gênero suspense”.

Uma de suas afirmações, a de que suspense supõe contrastes, cabe à perfeição em “Psicose”, inspirado no romance de Roberth Bloch, que aludia a Ed Gein, um serial killer do Wisconsin. O cineasta comprou anonimamente os direitos do livro e mandou recolher todas as cópias disponíveis nas livrarias para que ninguém soubesse o final do filme. Hitch transformou o texto literário a seu modo, dando-lhe a sua inconfundível assinatura cinematográfica.

O diretor era também ótimo marqueteiro, sabendo como ninguém divulgar seus filmes. No caso de “Psicose”, trabalhou com dois fatores. Um deles gosto de chamar de anti-spoiler, pois Hitch pedia ao público: “Por favor, não conte o final para ninguém, eu não tenho outro”. Aí também aparece o senso de humor que lhe era característico. A outra estratégia foi colocar um cartaz proporcional à sua estatura, no qual exigia pontualidade do público. Na imagem, ele aparece apontando o dedo para o relógio.

Poster com a assinatura do Mestre do Suspense

Em texto publicado em 1949, intitulado “O prazer do medo”, Hitchcock afirmava que “o suspense é mais divertido que o terror, na verdade porque é uma experiência contínua e vai crescendo até atingir um clímax; já o terror, para ser realmente efetivo, tem que vir todo de uma vez, como um relâmpago e, consequentemente, é mais difícil de saborear”. Na tela o terror é induzido pela surpresa e o suspense, por uma espécie de aviso, uma antecipação.

“Na vida, se soubéssemos as consequências de cada coisa, o entusiasmo perderia a razão de ser”, afirmou em 1959, em texto de sua autoria. “O desconhecido”, dizia, “tem apelo precisamente porque é misterioso”. Por isso, depois do assassinato de Marion no banheiro, ele queria que só ficasse a ameaça. A intenção era que a plateia imaginasse a violência. Quantos crimes foram cometidos? Todos os corpos foram submersos como o de Marion? Segurar o espectador dessa forma era próprio de sua arte. Não é à toa que o filme trouxe frescor e modernidade ao gênero.

O entrelaçamento entre suspense e terror surge em “Psicose” na icônica sequência do chuveiro, filmada em 78 tomadas durante uma semana, da qual foram utilizados somente cerca de três minutos. O cineasta não queria inserção sonora naquele ato fundamental em que há a bipartição da narrativa. Contudo, aceitou ouvir a composição de Bernard Herrmann, seu colaborador em inúmeros projetos e que compunha a trilha do filme. Assim, os “Violinos Gritantes” entraram para a história na sequência-chave mais estudada do cinema.

O documentário 78/52 (2017), de Alexandre O. Philippe, trata desse momento único de construção imagética. Nele são esmiuçados os 78 takes e 58 fragmentos de celuloide que o originaram. Rodado em preto e branco, como o filme, o doc revela alguns segredos e confirma outros, como o uso de calda de chocolate para fazer as vezes de sangue e a escolha de melões sendo golpeados para criar o som das estocadas de faca em Marion.

Phillipe, que é especialista em filmes sobre cinema, levou três anos para completar seu doc. Fascinado pela técnica hitchcockiana, ele explica que a famosa sequência está repleta de singularidades, o que a transforma em “uma espécie de boneca russa, com detalhes que escondem outros detalhes”. Foi a paixão de Hitch pelo cinema que lhe era tão caro quanto a vida, que transformou seu filme de baixo orçamento na obra de um prestidigitador, cujo ilusionismo nos enfeitiça até hoje.

A genialidade de Hitchcock, sua técnica e expressão estilística inovadora, com criações visuais e sonoras alçadas à excelência, renderam-lhe o respeito dos jovens críticos franceses da emblemática revista Cahiers du Cinéma. Entre eles, os futuros cineastas François Truffaut e Jean-Luc Godard que, percebendo a relevância de sua arte, conceituaram-no como “auteur”. No “cinema de autor”, o diretor é a força motriz na realização de seus filmes por ter uma ampla visão que abarca todos os processos fílmicos. Apesar de ser “auteur”, Hitch valorizava sobremaneira o trabalho em equipe, embora fosse ele a conduzir todo o processo.

Nos EUA, sua obra era tida como menor. Quando lançou “Psicose”, impediu pré-estreias para os críticos e recebeu como resposta uma enxurrada de matérias que diminuíam seu filme. Acontece que o Mestre do Suspense colocava o estilo cinematográfico antes do conteúdo. Por essa razão, alguns diziam que seus filmes eram superficiais. O reconhecimento da turma do “Cahiers” notabilizou o diretor que passou a ser estudado, respeitado e, por fim, compreendido.

Cineastas conceituados, como Martin Scorsese, David Fincher, Wes Anderson, Brian De Palma e tantos outros, admitem que o legado de Hitchcock influenciou suas carreiras. Guillermo del Toro (“A forma da água”, 2017), vai mais longe, para ele “Hitchcock é cinema”. Sinônimo de expressão artística, a carpintaria imagética do cineasta é referência absoluta. Seja para quem quer se iniciar na esfera do audiovisual, seja para quem traz o cinema no coração.

CURIOSIDADES

Hitchcock faz sua tradicional aparição (cameo appearance) em “Psycho” parado à porta da imobiliária onde Marion trabalha. Você pode vê-lo no momento em que ela entra.

A opção pela filmagem em preto e branco, segundo o próprio Hitch, foi para atenuar a sanguinolência.

“Psicose” foi o primeiro filme a mostrar um vaso sanitário, o que foi altamente ofensivo para a época, ainda mais que a personagem dava a descarga.

Anthony Perkins estrelou três filmes da Franquia Psicose, rodados em 1983, 1986 e 1990.

Gus Van Sant fez um remake bem colorido da obra em 1998, com Anne Heche no papel de Marion e Vince Vaughn no de Norman.

“Hitchcock – O homem por trás do ídolo” (2019), de Laurent Herbiet, mostra o diretor a partir do olhar de Alma Reville, sua esposa, roteirista e editora cinematográfica.

“Hitchcock/Truffaut” (2015), de Kent Jones, traz a histórica entrevista entre os dois diretores realizada nos anos 1960 e que resultou em livro fundamental para os estudiosos de cinema.

“Hitchcock” (2012), de Sacha Gervasi se baseia em “Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose”, de Stephen Rebello. A obra é ficcional e traz Anthony Hopkins no papel-título.

A série “Bates Motel” (2013-2017) é considerada um prólogo da vida de Norman e sua mãe, Norma, antes de “Psicose”.

Assista aqui ao trailer oficial de PSICOSE

Eulália Isabel Coelho (Biba) é jornalista, professora e escritora

e-mail:bibacoelho10@gmail.com

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