Caxias do Sul 05/03/2024

Paglioli e os falantes de 'hunsrückish''

Uma história dantesca vivenciada entre colonos de imigração alemã
Produzido por José Clemente Pozenato, 14/04/2022 às 08:31:37
Foto: Marcos Fernando Kirst

Nas colônias de imigração alemã, em todo o sul do Brasil, e também no Espírito Santo, era falado um dialeto alemão com forte influência do português, fenômeno linguístico semelhante ao que deu origem ao Talian nas colônias italianas. Como o Talian, também a língua das colônias alemãs foi reconhecida pelo Iphan como patrimônio das línguas de imigração, com o nome de Hunsrückish.

Esse nome deriva da região de Hunsrück, do oeste da Alemanha, donde proveio a maior parte da imigração alemã para o Brasil. Algo semelhante, também, com a predominância da região do Vêneto, na imigração italiana.

Como ocorreu com o Talian, também o Hunsrückish incorporou palavras da língua portuguesa: feschon (de feijão), schuraske (de churrasco), schikót (de chicote), karose (de carroça), e por aí afora.

Francisco Paglioli, em seu caderno de memórias, registrou com detalhes um “acontecimento” ocorrido numa passagem dele por uma colônia alemã, vizinha à Colônia Caxias, onde encontrou dificuldade para se comunicar.

O leitor deve estar lembrado que o jovem Paglioli começou sua carreira de músico na banda de Agostinho Curtolo, pedreiro de profissão, com quem também trabalhou em construções. Assim começa esta sua narrativa:

Meu mestre de música era pedreiro, e não havia trabalho em Caxias; contratou-se para trabalhar em um edifício em construção na Linha Nova, no município de São Leopoldo e limítrofe ao de Caxias.

Agora um parêntese, para situar o local referido: Linha Nova manteve a denominação e é hoje um pequeno município, desmembrado do município de Feliz, que se desmembrou de São Sebastião do Caí que, por sua vez, ainda em 1875, quando começou a imigração italiana, desmembrou-se de São Leopoldo.

Agostinho Curtolo deixou em casa a esposa, que estava grávida (parturiente, escreveu Paglioli). Nesse meio tempo, a mulher “deu à luz uma criança morta, e ela muito mal”. Os parentes em Caxias, muito preocupados, queriam mandar alguém à Linha Nova para trazer o marido de volta. Francisco Paglioli se prontificou:

Eu me ofereci, montei a cavalo e lá me fui. Chegado à margem do rio Caí achei uma casa de negócio, entrei, e contando ao dono da casa qual era o motivo da minha viagem, pedi que me guiasse. Este escreveu uma carta e entregando-ma disse: “Passe do outro lado do rio, siga a única estrada até um paredão onde parece que termina a estrada e encontrará uma casa. Chegue e entregue esta carta, e eles lhe guiarão mais adiante”.

Era assim naqueles tempos, em que não havia telefone, muito menos o celular...

Paglioli entregou a carta para uma senhora que não sabia ler (obs.: pelo menos não em português...). Ela chamou uma moça que leu a carta e convidou Paglioli para acompanhá-la.

Atravessamos dois potreiros e depois, apontando uma estradinha no mato, retirou-se. Eu e o meu rocinante estávamos cansados, e eu estava resolvido a dormir naquele bosque; eu poderia ter cantado com Dante: Lasciate ogni speranza o voi che entrate. Mas, oh que milagre! Perto de mim estava Vergílio de Dante para alegrar-me!

O homem que apareceu a seu lado deu então o rumo. Devia subir o morro, passar por uma roça de milho e perto da roça ia avistar uma casa de moradia. E perguntasse lá onde estava o pedreiro que procurava.

Voltou o ânimo perdido e lá me fui. Encontrei uma senhora ordenhando uma vaca, mas a pobre mulher não falava o português.

Mas não demorou muito e chegou, vindo da roça, o marido dela com dois filhos. Paglioli os cumprimentou e pediu agasalho: – “Nichts”. Contou da via crucis pela qual estava passando: - “Nichts”.

Quando viu que o homem teimava na recusa, amarrou o cavalo num palanque, sentou na soleira da porta da casa e disse:

- Eu daqui não saio até clarear o dia de amanhã.

E eis como termina a história:

O homem mudou de atitude. Falando o português bem compreensível, convidou-me em casa, à mesa com a família, e fiz a minha refeição. De repente falou a um filho, este saiu, e quando voltou o chefe convidou-me para sair; mas qual não foi a minha surpresa: meu cavalo tinha desaparecido, e estavam dois outros encilhados. “Monte neste cavalo”, me disse e, ambos montando, me disse: “Siga-me!” E a trote largo e na escuridão daquela estrada me acompanhou à casa do meu destino. Chegados, me disse: “Eu volto, e o senhor amanhã, quando voltar, deixará o meu cavalo e receberá o seu. No dia seguinte, o meu maestro e eu, fazendo boa viagem, chegamos a Caxias.

Uma história dantesca, na opinião do seu autor, e com final feliz!

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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