Caxias do Sul 18/08/2022

Oportunidade desperdiçada

Mesmo fundamental para não disseminar a Covid-19, o transporte coletivo é transformado em vilão no dia a dia do brasileiro
Produzido por José Carlos Secco, 19/05/2020 às 08:31:53
Foto: ARQUIVO PESSOAL

Rodízio de carros ampliado na cidade de São Paulo e o resultado, como não poderia deixar de ser, são ônibus, trens e metrô lotados. Essa é a realidade para quem precisa utilizar o transporte coletivo urbano nos horários de pico.

Um verdadeiro contrassenso e descompasso com todo o esforço que os próprios governos estadual e municipal vêm anunciando para a ampliação de leitos e do atendimento aos pacientes do novo coronavírus. Mais uma vez, erram nas medidas e transformam o transporte coletivo em vilão de um contexto previsível e forçado.

Por que reduzir a frota de ônibus, trens e metrô em circulação se a primeira mensagem mais importante dessa quarentena, depois de “fique em casa”, é “mantenha distância mínima de um metro e meio”?

A frota de veículos em operação deveria, desde o início da quarentena, ser a maior possível, justamente para que quem precisa utilizar o serviço neste período corra o menor risco possível e possa manter o afastamento recomendado dos outros usuários.

Por motivos de custo ou, como disse o secretário municipal de Transportes, “colocar a frota toda seria incentivar as pessoas a saírem de casa”, o próprio governo municipal está colaborando para a possível disseminação da Covid-19. Em entrevista recente, o secretário disse que manter a frota total implicaria em 90 milhões de reais de custo a mais por dia. Na verdade, não é um custo a mais, pois, sem a pandemia, a frota circulante seria a total. Então, estão fazendo economia com custo jogado para a saúde dos usuários.

Será que não ficaria barato para evitar o aumento incontrolável de novos casos?

Como alguém pode achar que quem utiliza o transporte coletivo no horário de pico o faz porque está passeando e poderia ficar em casa?

Sejamos francos, quantos acham divertido ou um programa interessante andar de ônibus ou trem quando lotados?

Nos meus últimos artigos e podcast, comentei que o transporte coletivo deveria ter sido incluído entre os setores a receberem recursos extraordinários para combate ao novo coronavírus. Em recente live sobre “Qual o futuro da mobilidade na pandemia”, transmitida esta semana, ouvi que o novo coronavírus veio demonstrar que o transporte coletivo é essencial e que requer urgentemente investimentos e financiamento público.

Ora, os governadores e prefeitos reclamam da falta de foco e planejamento do governo federal nesta pandemia, mas por que o transporte coletivo não foi incluído por eles desde o princípio como foco para a alocação de recursos e ferramenta de combate à proliferação da Covid-19?

Dizer agora que a pandemia está mostrando isso é, no mínimo, engraçado, para não dizer ridículo.

De que adianta a indústria investir e, em tempo recorde, desenvolver tecnologias de biossegurança para tornar o transporte coletivo mais seguro com relação a vírus, bactérias e à transmissão de doenças se os governantes não enxergam essas soluções como importantes para conter a disseminação do vírus?

De que adianta a indústria realizar estudos para dar segurança e tranquilidade aos passageiros, mostrando que, utilizado corretamente, o risco de disseminação do vírus em ônibus é menor do que o de vários estabelecimentos, como supermercados e agências bancárias – dois dos locais mais procurados pelas pessoas durante a quarentena – se os veículos acabam sendo utilizados além da capacidade máxima indicada e com grande excesso de pessoas e aglomeração?

Como defensor do importante papel do transporte coletivo na mobilidade e no bem-estar e saúde da sociedade, só posso lamentar.

Ouça o podcast aqui: MAIS UMA VEZ, TRANSPORTE COLETIVO É PREJUDICADO E SACRIFICA QUEM USA

José Carlos Secco é jornalista especializado na indústria automotiva e de transportes, diretor da Secco Consultoria de Comunicação, de São Paulo, com atuação inclusive na Serra Gaúcha.

E-mail: jcsecco@secco.com.br

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