Caxias do Sul 18/05/2021

O oscarizado Nomadland é road movie imersivo

Filme acompanha a vida dos nomads americanos com relatos reais que o aproximam de um registro documental
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 01/05/2021 às 10:05:47
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Eulália Isabel Coelho

Aplaudido de pé em Veneza em setembro do ano passado, Nomadland levou o Leão de Ouro, entre outros prêmios nos festivais dos quais participou. Vencedor do Oscar 2021 nas categorias Melhor Filme, Atriz e Diretor(a), a obra é inspirada no livro de não ficção “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century”, de Jessica Bruder, que acompanha os nomads, viajantes americanos em busca de trabalhos temporários.

O filme produzido e protagonizado por Frances McDormand, que comprou os direitos de adaptação, é um convite a se conhecer um dos lados mais obscuros da América. Dirigido, roteirizado e editado por Chloé Zhao, jovem cineasta chinesa radicada nos EUA, a obra trata de privações, escolhas, solidão e subsistência. É neste contexto que conhecemos Fern (McDormand), viúva cujas perdas pessoais e materiais levam-na ao nomadismo.

O filme tem várias camadas e leituras possíveis que o tornam ímpar. Os elementos casa e lar fundamentam os caminhos percorridos por Fern em sua van transformada em acomodação para sobrevivência a que ela nominou de Vanguard.

Em psicanálise, diz-se que o espaço doméstico é sempre correlato físico do espaço psíquico do sujeito. Esse lugar em que montamos e desmontamos as peças do nosso próprio quebra-cabeças. Um lugar que é a dimensão tempo-espaço afetiva no reconhecível mundo humano, a que chamamos lar.

Chloé Zhao ao receber seu Oscar em 25 de abril

Lar não é correspondente de casa, pois essa é moradia fixa, material. Lar emerge do registro interno do indivíduo, é o que lhe guarda e protege. No lar criam-se laços, desdobram-se cuidados, removem-se asperezas. Vanguard faz esse papel na vida de Fern, assim como outras vans e trailers que conduzem os migrantes nesse road movie imersivo.

O afastamento do elemento fixo, a casa enquanto matéria, por outra, itinerante, pode parecer sem sentido, afinal, onde fica o lar agora? Para Fern essa pergunta é simples, já que lar é abstração. “Não sou sem teto. Sou sem casa”, explica Fern em dado momento do filme. O lar é para ela a Vanguard preparada com atenção e desvelo. Nela evocam-se memórias (fotos, objetos, pertences) e acolhem-se novas lembranças.

Frances McDormand como Fern, personagem nomad

Vanguard, lar itinerante repleto de laços afetivos

O lar de Fern e dos integrantes reais da subcultura nomad excede os princípios rígidos do que significa morada. Sobre rodas, locomovendo-se pelas estradas do meio-oeste americano, à cata de empregos provisórios e mal pagos (na Amazon e em outras empresas), os nomads formam uma comunidade com encontros e reuniões nas quais trocam experiências e podem sentir calor humano. Eles são os sujeitos errantes que lutam para existir num país que os renegou, arrancando-os do sonho americano durante a recessão de 2008.

O movimento de desterritorialização é paradoxal, pois afasta e une os nomads em sua solidão. Os relatos reais aproximam a ficção do filme - nas atuações de MacDormand e David Strathairn -, a um experimento documental. Zhao fecha a câmera no rosto sofrido dos nomads e abre-a aos espaços desérticos nos quais as vans e trailers fazem contraponto. Uma e outra são takes do abandono, no lugar que é também passagem ao mais áspero dos caminhos.

Atuação profunda de MacDormand captada no set

Essas pessoas que se agrupam de tempos em tempos deixaram para trás suas raízes sociais. Hoje carregam as cicatrizes do colapso econômico e da indiferença do governo. Os nomads são resultado do capitalismo descontrolado. São órfãos de um sistema cuja dinâmica pode mudar a qualquer tempo, convertendo pessoas em objetos descartáveis.

Fern abandona sua cidade fantasma, Empire. A falência e o fechamento da empresa, sob a qual a localidade foi alicerçada, originam uma terra devastada. Até mesmo o CEP deixa de existir. Ficam as casas vazias, a poeira, os sonhos desfeitos. Cada um refaz seu lar como pode rodando o país enquanto entra para as estatísticas da invisibilidade.

Assista ao trailer legendado AQUI

Conheça a Vanguard por dentro AQUI

FICHA TÉCNICA

Nomadland, EUA, 2020


Diretora: Chloé Zhao


Roteiro: Chloé Zhao


Atores: Frances McDormand, David Strathairn

Nomads: Linda May, Patricia Grier, Gay DeForest, Angela Reyes, Carl R. Hughes, Douglas G. Soul, Ryan Aquino, Teresa Buchanan, Charlene Swankie, Annette Webb, Rachel Bannon, Bob Wells, Makenzie Etchverry, Brandy Wilber, Matt Sfaelos, Roxanne Bay, Derek Endres, Donnie Miller, Suanne Carlson, Forrest Bault, Merle Redwing, Sherita Deni.

Duração: 107 min.

Eulália Isabel Coelho é jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica, especialista em cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com

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