Caxias do Sul 18/08/2022

Molière, contemporâneo há 400 anos

A relevância atual do dramaturgo francês que buscava ver a obscuridade por trás do brilho de sua época
Produzido por Paulo Damin, 27/06/2022 às 07:47:31
Foto: ARQUIVO PESSOAL

Molière é contemporâneo porque, em 1600, ele escreve e faz teatro na vida real. Essa mesma vida real que a maioria precisa encarar todo dia, mas não tem coragem de fazer com arte. No caso dele, a sacada é usar o bom humor. Mas me diz: em algum momento, nesses 400 anos desde o nascimento de Molière, a humanidade pôde prescindir da comédia para sobreviver ao medíocre cotidiano?

Molière é contemporâneo porque fala de amor, de ricos e pobres, de arrogantes e ignorantes, de absurdo antes do teatro do absurdo, de cornos reais e imaginários antes do nascimento do teu vizinho.

Ele é contemporâneo porque ri de si mesmo, 400 anos atrás, numa França que nem sonha com a tal revolução, nem com um bicampeonato em Copas do Mundo e o Festival de Cannes, com aqueles dramas sociais cheios de silêncio e medo dos muçulmanos.

Molière é contemporâneo porque fala da alma humana, esse poço, e não das bocas de lobo que entopem a cada ano eleitoral. Tem até leitura feminista de peças dele. É contemporâneo porque, sempre que alguém quiser viver de arte, ele vai servir de referência. Largar o sólido emprego de estofador do rei para montar uma trupe teatral exige muita coragem mesmo.

Molière é contemporâneo porque busca ver a obscuridade por trás do brilho de sua época. Afinal, quem vai cego em busca da luz é mosquito. Dura pouco. Molière, antes, seria um mosqueteiro. Desses que protegem as mocinhas na colônia, em noites de verão.

Se fosse brasileiro, Molière seria um trocadilho ambulante. Um veterano do Pasquim: Molière Fernandes.

Ler Molière é um barato. Até porque está em domínio público. É um dos principais criadores de arte literária no teatro e de arte teatral na literatura. A gente lê Molière hoje e pensa: já vi isso! Porque foi Molière quem organizou alguns discursos, algumas formas e imagens com que a gente se identifica. Atrás do espelho, evidentemente.

Não haveria Nelson Rodrigues ou novela das sete sem a existência pregressa de Molière. Não haveria nem humorista de internet. Nem Pirandello, que, quando completar 400 anos, em 4067, vou escrever uma crônica exaltando ele também.

Paulo Damin é escritor e tradutor em Caxias do Sul.

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