Caxias do Sul 19/09/2020

Dante pelo mundo

2021 será “o ano de Dante”, com várias ações marcando os 700 anos da morte do poeta maior da língua italiana
Produzido por José Clemente Pozenato, 11/09/2020 às 16:15:20
Foto: Marcos Fernando Kirst

No dia 14 de setembro de 1.321, Dante Alighieri fez sua viagem definitiva para o outro lado do mundo. Daqui a um ano, portanto, ocorre o sétimo centenário da morte do miglior fabbro.

Notícia divulgada pelo Corriere della Sera, na semana passada, informa que o Ministério do Exterior da Itália está promovendo uma série de iniciativas para celebrar “o ano de Dante”, como vem sendo chamado. Vários projetos levarão Dante pelo mundo, envolvendo embaixadas, consulados e institutos italianos de cultura. Um desses projetos é o de um áudio-livro, com a gravação de passagens de quinze cantos da “Divina Comédia” em 33 línguas. Para chegar a esse número dantesco, pela primeira vez na história o poeta vai falar também em indonésio. Para as outras 32, serão aproveitadas traduções já existentes.

Caxias do Sul tem a marca de Dante Alighieri esculpida em sua história e erguida em monumento em sua praça central. Quem deu o nome à praça não foram os imigrantes. A escolha foi feita por funcionários da Comissão de Terras, ao que tudo indica por sugestão de José Bernardino dos Santos.

Busto de Dante foi inaugurado na praça em Caxias do Sul em 15 de novembro de 1914

Poeta, contista e jornalista, José Bernardino era membro do Partenon Literário em Porto Alegre e funcionário da Secretaria da Fazenda. Em função desse cargo, aceitou vir trabalhar na Colônia Caxias, onde faleceu em 1892. Em meu romance A Cocanha, faço dele um personagem, de olhos atentos em observar a cultura e o drama dos imigrantes que chegavam.

Como é sabido, o nome da praça, num ato de insensatez ocorrido no período da Segunda Guerra Mundial, foi mudado para Rui Barbosa, episódio que relato também em meu romance A Babilônia. Um ato de bom senso devolveria a ela o nome original de praça Dante Alighieri.

Por falar em tradução, há um sem número de traduções da Divina Comédia para o português. Até Dom Pedro II se atreveu a traduzir o Canto V do Inferno, aquele de Paolo e Francesca.

Para falar a verdade, nenhuma das traduções existentes me agrada. Ou elas recorrem a uma dicção camoniana, em que predominam os adjetivos, ou, como uma mais recente, buscam no cofre parnasiano rimas ricas para mostrar elegância. Mas como escreveu nossa poeta Vivita Cartier,

Aquele que com esforço

Rimas difíceis alista

Não nasceu para poeta:

Arranja verso: é versista.

Por causa disso, e também estimulado por amigos e por leitores da minha tradução do Cancioneiro de Petrarca, meti-me na empreitada de viajar com Dante e Virgílio e traduzir toda a Divina Comédia. A primeira coisa que descobri nesse mergulho é que Dante faz uma narrativa de cunho visual, com cenas em movimento e diálogos, quase um roteiro de cinema, coisa que as traduções que conheço não levam em consideração. Não por acaso o pintor Sandro Botticelli se empolgou e desenhou todo o poema.

O Inferno, da "Divina Comédia", na visão do pintor Botticelli

Como ensinou Peter Newark, a tradução literária deve considerar não apenas o nível textual, mas também o que ele chama de referência cultural, o da coesão semântica e, por fim, a impressão de naturalidade do texto traduzido.

Outro mestre, o poeta mineiro Dante Milano, diz que o “certo” é adaptar o verso, sem forçar a nossa língua, e escrever “do modo por que Dante o faria se escrevesse em português”.

È por essa sinalização de rumo que pretendo avançar. Dou uma amostra das diferenças de tradução, com gosto camoniano, com gosto parnasiano e com sabor dantesco.

Modo camoniano:

Da nossa vida, em meio da jornada,

Achei-me numa selva tenebrosa,

Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa

Desta brava espessura a asperidade,

Que a memória a relembra inda cuidosa.

Modo parnasiano:

À meia idade da terrena vida,

Perdido achei-me numa selva escura,

A senda certa estando já perdida.

Quanto, dizer qual era, é cousa dura,

Esta selva selvagem, rude e forte,

Que medo infunde à mente mais segura.

Modo “dantesco”:

No meio do caminho desta vida

Me vi perdido numa selva escura

Com a direção certa esquecida.

Ai, descrever como era, é coisa dura,

Essa selva selvagem, crua e forte,

Que deixa a melhor mente insegura.

Como é possível notar, a terceira versão mantém as rimas usadas por Dante – que não dava muito valor a elas –, segue um fluxo narrativo, e procura manter a naturalidade em nossa língua, sem rebuscamentos. Mas que é “coisa dura” seguir por esse caminho, posso garantir que sim...

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado "O Quatrilho", que foi adaptado ao cinema, concorrendo ao Oscar.

mailpozenato@terra.com.br

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