Caxias do Sul 14/06/2021

Da cultura eslava à cultura latina

Um itinerário singular pela “Alegrete” da Romênia, a longínqua terra dos dácios
Produzido por José Clemente Pozenato, 10/06/2021 às 09:07:11
Foto: Marcos Fernando Kirst

Uma das cidades que mais gostei de conhecer foi Bucareste, a capital da Romênia.

O nome Bucareste tem origem eslava, e significa “lugar alegre” na primitiva língua local. Algo parecido com o nome do nosso “Alegrete”. E o país se chamava Dácia, antes de o imperador Trajano o ter incorporado como província romana, em 104 d.C., dando-lhe o nome de România, que o sotaque dácio mudou para Romênia.

A partir daí, o latim foi aos poucos transformando a língua dácia em língua latina, mas sem a converter totalmente. Na porta do banheiro masculino, por exemplo, está escrito Barbati e, na do feminino, Femei: duas palavras de origem romana. Mas a moeda tradicional do país – ainda não absorvida pelo Euro, adotado em 2007 – se chama “Leu”, e tem mais ou menos o valor de um Real dos nossos.

Até quase metade do século XX, a Romênia conviveu de perto com a cultura da Europa ocidental, em especial a da França e a da Península Ibérica. Bucareste era chamada de “Picul Paris” – Pequena Paris –, tamanha era a empatia entre as duas cidades. E grande parte da literatura produzida foi escrita em francês e em espanhol.

Essa convivência foi rompida quando o regime estalinista a incorporou à República Socialista Soviética, no final da Segunda Guerra. Mas com a Perestroika e a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Romênia respirou fundo e voltou a conviver com seus antigos parceiros do Ocidente.

O primeiro escritor romeno que chegou a meu conhecimento foi Mircea Eliade (1907-1986). Fugindo do regime soviético, viveu em Portugal, onde escreveu o livro intitulado, com toda a precisão, Os romenos: latinos do oriente, escrito em português (Mircea Eliade falava e escrevia em oito idiomas diferentes). Foi professor também na França e, mais tarde, na Universidade de Chicago, cidade onde faleceu. Sua especialidade era o estudo dos mitos e das relações entre a visão sagrada e a visão profana do mundo. Aspects du mythe, edição francesa de 1963, é um de meus livros prediletos.

Depois do conhecimento bibliográfico, tive a satisfação de conhecer a Romênia, e em especial Bucareste, de onde saí encantado.

A primeira imagem que me ficou, quando o avião desceu no aeroporto de Bucareste, foi a de uma planície de trigais recém-colhidos, a perder de vista. Entre eles, tiras de cor verde que, mais perto do chão, deu para ver serem plantações de milho.

Resultado disso é que, nas mesas de Bucareste, o pão é excelente, e a polenta faz parte dos melhores cardápios. Uma polenta igual à que se faz aqui, com aquela farinha grossa herdada dos moinhos de mós de pedra, e a textura macia que ela tem antes de ser frita ou assada.

Mas a Romênia me impressionou em muitos outros sentidos. Duvido que haja no mundo cidade com parques tão numerosos, tão grandes e tão bem cuidados. Outro detalhe surpreendente: no espaço entre a calçada e os prédios, atrás das cercas, não há gramados cultivados como por aqui. Cresce ali uma vegetação espontânea e silvestre, com toda variedade de abelhas, besouros, insetos e cogumelos.

Tive também o prazer de passar quase uma semana na Universidade de Bucareste, participando de um evento na área de Comunicação. A Faculdade de Jornalismo e Ciências de Comunicação foi a primeira criada pela Universidade assim que caiu o regime soviético. O encontro aconteceu no prédio da Faculdade de Direito, o mais antigo da Universidade, erguido em 1857, um verdadeiro monumento arquitetônico.

A Universidade teve três fases em sua história. A primeira começou em 1864, quando foi criada, juntando as Faculdades de Direito, de Letras e de Ciências e durou até 1944, quando a Romênia foi incorporada à União Soviética. A segunda fase inicia com essa incorporação e vai até a queda do Muro de Berlim, em 1989. De lá para cá, vive ela sua terceira fase, com um lema muito significativo: Cultura e Descobrimento.

Nestes últimos trinta anos, o empenho vem sendo o de recuperar espaços e ganhar avanços que foram limitados pelas autoridades comunistas. Elas mudaram o nome de Universidade de Bucareste para o de Academia do Povo da República Romena. E fecharam três Faculdades. Adivinhem quais: a de Teologia, a de Filosofia e a de Ciências Sociais...

Em 1989, “após abusiva desestabilização de departamentos e faculdades”, conforme consta do catálogo atual da Universidade, havia apenas seis faculdades e menos de oito mil estudantes. Hoje, ela se gloria de ter dezenove faculdades, mais de trinta mil alunos e três mil professores. Dados todos que podem ajudar a pensar...

Mas ainda restou a marca do domínio soviético. Passando no centro de Bucareste, o motorista do táxi comentou, mostrando uma fileira de edifícios altos em estilo de caixotes:

- Isso aí é o que sobrou da burocracia estalinista!

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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