Caxias do Sul 25/07/2024

A figura de Guido Cavalcanti em Boccaccio

Autor do ‘Decamerão’ traça retrato elogioso de renomado poeta medieval
Produzido por José Clemente Pozenato, 04/07/2024 às 17:52:29
José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”
Foto: Marcos Fernando Kirst

Giovanni Boccaccio completou, com Dante e Petrarca, a trindade que deu base e fama à literatura italiana. Nascido em 1313, era nove anos mais jovem que Petrarca e quase cinquenta mais jovem que Dante.

Teve relações estreitas com os dois. Foi dele a ideia de dar o nome de Divina Comedia à Comedia de Dante, nome que ficou consagrado por todos os séculos. Com Petrarca, Boccaccio chegou a morar, na primavera de 1363, no Palácio Morlin, cedido a Petrarca pela República Veneziana, durante a Grande Peste, iniciada em 1348, que deixou Florença arrasada.

Quando foi visitar Petrarca e morar com ele, Boccaccio já havia escrito o livro Decameron, em português Decamerão, que poderia ser traduzido por “Dez Grandes Dias”, já que a palavra é composta pelos vocábulos deka (dez), e hémera (dia), do grego clássico, acrescidos do aumentativo.

O tema do Decamerão é a Grande Peste, também chamada de Peste Negra, durante a qual dez jovens florentinos, sete moças e três rapazes, se refugiam num castelo fora da cidade. Lá, como passatempo, decidem que cada jovem deve contar uma história por dia. Como ficam dez dias no castelo, as narrativas chegam ao número de cem. Um número que Dante evitou na Divina Comedia, encerrando-a com noventa e nove cantos.

Com isso, Boccaccio deu início às narrativas de ficção escritas em prosa, e não em verso, gênero que se espalhou depois pela Europa, com autores como Molière, na França, e Cervantes, na Espanha. Nessa obra, Boccaccio escreveu, para se contrapor a Dante, uma “Comédia Humana”. Nome de que Balzac se apropriou seis séculos mais tarde para designar o conjunto de seus romances e contos.

Uma reconstituição visual do cenário, dos trajes, das personagens e de parte das novelas do Decamerão foi feita num filme dirigido pelos irmãos Vittorio e Paolo Taviani, há pouco tempo, em 2014. O título que deram ao filme foi Maraviglioso Boccaccio, num justo reconhecimento da importância do autor. Devo dizer que também o filme ficou maravilhoso, com lindas imagens e grande dose de emoção nas cinco ou seis histórias por eles incluídas no roteiro.

Pois bem, para concluir esta lembrança, tomo a liberdade de citar um conto que tem como personagem Guido Cavalcanti. Todos os depoimentos de seus contemporâneos descrevem Guido Cavalcanti como uma figura fascinante, dedicado ao estudo e à discussão de ideias, com tendência à vida solitária, mas de temperamento forte, audacioso, às vezes temerário. Boccaccio contribuiu para reforçar a lenda com um perfil desenhado no Decamerão, pela narrativa da jovem Elisa, na nona novela da sexta jornada:

“Foi um dos melhores lógicos [loici] do mundo e excelente filósofo natural, [...] foi um homem muito elegante e muito bem educado, além de muito eloquente; tudo o que ele quis fazer, e que ficasse bem a gentil-homem, soube fazê-lo melhor do que qualquer outra pessoa. Ademais, era riquíssimo, e sabia honrar, como ninguém, as pessoas que ele, no seu ânimo, considerava que valessem”.

O “filósofo natural”, referido por Boccaccio, significa que Guido Cavalcanti desenvolveu um pensamento afastado da teologia: consta que ele chegou a ser acusado de não crer em Deus. A base de seu pensamento foi a filosofia de Aristóteles, um filósofo da realidade que está em oposição a Platão, filósofo da idealidade. Mas um aristotelismo repassado pelo filtro da análise de Averróis, médico e pensador árabe nascido em Córdoba, na Espanha, que, com Avicena, reintroduziu o pensamento aristotélico na Europa, dando início ao abandono do platonismo herdado de Santo Agostinho e que dominou toda a Idade Média, com um encerramento em alto nível na Divina Comédia de Dante.

Por isso é que Giovanni Boccaccio fez questão de produzir uma “Comédia Humana”...

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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