Caxias do Sul 27/05/2022

A arte de plantar pinhão

Típico alimento da população serrana gaúcha requer envolvimento de paciência e abnegação para seu cultivo
Produzido por Paulo Damin, 11/05/2022 às 09:12:28
Foto: ARQUIVO PESSOAL

PAULO DAMIN

Meu nono, com noventa anos, a cada pontada de dor no braço, se lembra de quando era guri e tinha de arrastar toras no interior de Vila Oliva e Santa Lúcia, fazendo-as descer pelo arroio Macaco até alguma serraria. Aí elas seriam transformadas em “taubas tão bonitas”, como diria Gildo de Freitas, ídolo do meu nono e dos peões de sua época.

Agora é preciso repor aqueles pinheiros que nossos antepassados derrubaram.

Caso não sejas uma gralha azul, precisarás usar as tuas próprias mãos. O ideal é plantar em lua crescente ou cheia, depois de um aguaceiro, nos meses sem a letra "r". A semente deve ser enterrada em ângulo de 45° a nordeste, com um palmo de profundidade, onde bata o sol da manhã. Se não puder ser nessas condições, planta igual, que é capaz de nascer.

Existem jovens engajados que saem todo inverno com os bolsos cheios de pinhões e não podem ver um pedaço de terra que já saem enterrando uma sementinha nele. Eu também já tive minha fase de plantador radical: uma vez, em Florianópolis, enterrei pinhões na beira da Lagoa da Conceição. A guria que estava comigo era paranaense e me disse que Curitiba, em guarani, quer dizer pinheiral: ela jurava que era inútil plantar araucária em Floripa, mas achou bonitinho meu gesto.

Plantar pinheiro é coisa de abnegado: não dá para ficar esperando que um dia vamos comer os pinhões da árvore que plantamos. A gente planta para os filhos, mesmo que sejam os dos vizinhos. É preciso acreditar que, assim como nossa turma dos anos 1990 (e a turma do nono, nos anos 1940), também a turma de 2040 vai se embrenhar no mato para catar pinhas e, se necessário, subir nas árvores para garantir pinhões.

Como em todos os âmbitos, o assunto pinhão também divide as pessoas. Mas neste momento as diferenças devem ser colocadas de lado, porque, sem pinheiros, não haverá no futuro debates sadios sobre se o melhor é pinhão na chapa ou pinhão cozido e ninguém mais saberá o que é fazer um sapeco de grinfa num potreiro.

Não podemos esquecer que, depois do leite materno, o pinhão é o alimento mais nutritivo para os bebês serranos.

Paulo Damin é escritor e tradutor em Caxias do Sul.