Caxias do Sul 20/04/2021

Um dia para homenagear o maior detetive dos gibis

“Batman Day”, celebrado neste sábado, foi instituído para evocar um dos maiores ícones do universo das HQs
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 19/09/2020 às 08:33:40
Um dia para homenagear o maior detetive dos gibis
Foto: DIVULGAÇÃO

Por MARCOS FERNANDO KIRST

“Santa homenagem, Batman, então quer dizer que criaram um dia especial para celebrar a sua bat-figura?”, deve ter exclamado, com certeza, o menino-prodígio Robin, ao ficar sabendo da existência do “Batman Day”, em 2020 comemorado neste sábado, 19 de setembro. A data foi criada pela DC Comics, a editora norte-americana detentora dos direitos sobre o detetive encapuzado, em 23 de julho de 2014, coincidindo com os 75 anos da primeira aparição do morcegão nas páginas da revista “Detective Comics”, em 1939. De lá para cá, a celebração do “Dia do Batman” se institucionalizou no terceiro sábado de setembro de cada ano. Hoje, portanto! Santa novidade!

Primeira aparição no gibi "Detective Comics", em 1939

Novidade nem tão nova assim, mas eu, quadrinheiro antigo, confesso que, assim como Robin, não sabia. Batman é um dos personagens mais emblemáticos do universo das histórias em quadrinhos (ou “narrativas gráficas”, como deveria ser conhecida em português essa arte injusta e desinformadamente classificada como infantil) exatamente por apresentar uma evolução e amadurecimento de personalidade que acompanha o processo de desenvolvimento psíquico da própria sociedade.

A era da inocência e da ingenuidade, na qual o personagem foi concebido (exatamente pouco antes do estourar da II Segunda Guerra Mundial, por sinal), em que a dicotomia entre o bem e o mal era facilmente solucionada com um par de socos e frases de efeito, há muito tempo desapareceu nas brumas da história, dando lugar ao sombrio, tenso e perturbado Cavaleiro das Trevas da atualidade. Daí seu encanto perenemente renovado a cada nova abordagem feita por artistas dos textos, dos roteiros, dos desenhos, das telas do cinema e da televisão, das atuações, das direções. Batman envolve, instiga, provoca e merece, sim, ter seu “Batman Day” devidamente celebrado.

Minha relação com o personagem começou ainda antes de eu saber ler para segurar nas mãos os gibis que a antiga editora Ebal publicava no limiar entre as décadas de 1960 e 1970. Na Ijuí de minha infância, na casa da rua dos Viajantes, eu viajava nas sessões da tarde à frente do tubo movido a válvula do televisor Telefunken, acompanhando em preto e branco as aventuras de Batman no seriado icônico imortalizado pelo ator Adam West, juntamente com Burt Ward na capa de Robin.

Burt Ward (Robin) e Adam West (Batman) no seriado televisivo dos anos 1960

As onomatopeias que saltavam no vídeo (SOC, POW, BUM, CRÁS) excitavam minha imaginação ao ver serem derrotados os malvados Pinguim, Coringa (na versão imortal do ator Cesar Romero), Charada e Mulher Gato. Mais tarde, descobri em casa, fuçando a coleção de discos de vinil de meus pais, um álbum da banda instrumental de rock The Ventures que continha, em uma das faixas, a música-tema do seriado. Que surpresa! Furei aquele disco de tanto escutar e, por tabela, fui seduzido para sempre pelo som de guitarras elétricas. Curioso? Sente o som do The Ventures AQUI

O ingresso na juventude adulta trouxe junto o afastamento natural daquele bat-universo que insistiu, durante alguns anos, em permanecer estacionado nos referenciais infantis e adolescentes. Mas tudo começou a mudar quando, em 1987, chegaram às bancas brasileiras os quatro exemplares da minissérie revolucionária (do personagem e dos quadrinhos em geral) criada e desenhada no ano anterior pelo norte-americano Frank Miller: “Batman, O Cavaleiro das Trevas”.

Obra-prima gráfica de Frank Miller, de 1986

Ali, fomos, nós, leitores, confrontados com um Bruce Wayne (se você não sabe quem ele é, então... bom, então, sorte do Batman, ehehe) envelhecido, desiludido com sua própria saga de combate ao crime e definitivamente aposentado, que, enfim, resolve voltar a vestir o uniforme consagrado do Homem-Morcego e purificar sua Gotham City. As estéticas narrativa e visual revolucionárias, juntamente com o argumento complexo embasado em perfis dos personagens reformatados em dramas adultos, reavivou o interesse de novos velhos leitores, criando um filão: os quadrinhos adultos (que já existia, mas ainda era pouco desbravado).

Na sequência, o gênio do inglês Alan Moore entregava o roteiro perturbador da novela gráfica (desenhada por Brian Bolland) “A Piada Mortal”, de 1988, em que Batman e Coringa duelam sobre a questão da sanidade (ou da falta dela) sobre a qual ambos os personagens trilham. Tocando o terror, como é de sua praxe, o Palhaço do Crime procura provar que “basta um dia ruim” para você perder a sanidade e pular no poço da loucura e da psicopatia, como parece ter acontecido com ele. Batman e o Comissário Gordon refutam a tese, defendendo que mesmo um dia ruim não é capaz de quebrar suas convicções e sua ética pessoal, se elas estiverem fortemente embasadas em seu íntimo. O resto é quadro a quadro, e sempre vale uma releitura.

O perturbador "A Piada Mortal", de Alan Moore

Foram essas duas abordagens, a de Miller e a de Moore, que permitiram a repaginação do personagem nas telas do cinema e da televisão, chegando aos dias de hoje, em que Batman em cartaz é arrasa-quarteirão nos cinemas e pico de audiência nos seriados. Porque os dramas éticos do personagem refletem os nossos próprios dramas nos dias sombrios que vivemos. Só isso já justifica um “Batman Day”. Santa celebridade, Batman!