Caxias do Sul 27/02/2021

Último pracinha caxiense da FEB acena a bandeira branca

Ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, ALBERTO ARIOLI morreu sexta-feira, aos 95 anos de idade
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 16/01/2021 às 21:33:09
Último pracinha caxiense da FEB acena a bandeira branca
Alberto Arioli recebendo visitantes no Museu da FEB de Caxias do Sul, em abril de 2016
Foto: Silvana Toazza

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Um pedaço importante da História do mundo apagou-se na última sexta-feira, com a morte do caxiense Alberto Arioli, aos 95 anos de idade. Arioli era um homem generoso. Ciente de que um dos mais (senão O mais) importantes episódios da História do século XX perpassava pelas suas veias e constituía parte fundamental de sua própria biografia, não poupava esforços em generosamente doar seu tempo, sua memória e seu carisma para receber estudantes e qualquer pessoa para relatar, sempre em detalhes saborosos e repletos de emoção, porque pautados pela verdade, os fatos que vivenciou enquanto soldado brasileiro lutando na Itália contra as forças nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Alberto Arioli integrou a FEB, a Força Expedicionária Brasileira, criada no governo Getúlio Vargas para avolumar as forças aliadas que combatiam o nazismo na Europa, e alistou-se como voluntário para lutar em solo italiano em 1944, juntamente com diversos outros jovens serranos descendentes de imigrantes oriundos daquela mesma terra.

Combater nazistas e fascistas para livrar o mundo de ideologias assassinas que pregavam o totalitarismo, a discriminação, a intolerância e o desprezo pela vida humana era o objetivo que motivava aqueles jovens a deixarem o conforto de seus lares para pegar em armas em solo distante, colocando suas vidas em risco a fim de que o mundo pudesse ser um lugar possível de se viver. Arioli, portanto, era um homem generoso, um personagem da História, que viveu entre os caxienses entre 11 de dezembro de 1925 e 15 de janeiro de 2021.

Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente no ano de 2012, quando o entrevistei para produzir um perfil para a revista “Acontece Sul”, na seção que nela eu criara para lançar luz às nuances biográficas de pessoas já conhecidas da Serra, o “Lado B”. No alto de seus então 86 anos de idade, me recebeu no Museu da FEB (criado em 1975 para preservar a memória dos ex-combatentes serranos e localizado na Rua Visconde de Pelotas, 249), onde chegou dirigindo seu carro, lúcido, vigoroso, entusiasmado. “Se nem as bombas dos nazistas me machucaram, vou ter medo do trânsito de Caxias”, foi logo dizendo, ao sair do automóvel e me cumprimentar, detectando meu olhar admirado. E motivos para admirá-lo, de fato, não faltavam.

Voltei a contatá-lo pessoalmente em abril de 2016, quando ele novamente assentiu em me receber na sede do Museu da FEB caxiense, juntamente a um grupo de pessoas interessadas no tema da Segunda Guerra Mundial inscritas em uma oficina cultural sobre o assunto, que eu estava ministrando. Vivenciamos o privilégio de termos a ele como guia da visita que fizemos pelo Museu, com direito a uma longa e saborosa palestra exclusiva sobre sua vivência no front. Arioli narrava e renarrava os episódios já narrados centenas de vezes antes, sempre com o mesmo brilho nos olhos, o mesmo fogo na alma. Provavelmente o fogo e o brilho que acompanharam o medo natural que sentiu naqueles meses terríveis em que participou como sujeito ativo da mais devastadora guerra que a humanidade já protagonizou em toda a sua existência. Ouvi-lo era escutar os ecos vivos da História.

Arioli recebendo nossa turma de oficineiros no Museu caxiense da FEB, em abril de 2016 (Foto: Silvana Toazza)

Sua voz agora se calou. Arioli foi o derradeiro ex-pracinha caxiense da FEB a render-se em sua batalha final. Em sua homenagem, reproduzo a seguir, na íntegra, o texto resultante daquela entrevista em 2012, publicado na revista “Acontece Sul”.

LADO B

Alberto Arioli

Ex-pracinha da FEB, empresário caxiense é um dos últimos remanescentes vivos em Caxias do Sul a ter participado de um dos eventos históricos mais significativos da humanidade: a Segunda Guerra Mundial

Por Marcos Fernando Kirst

Sete de setembro de 2012, uma sexta-feira, feriado, Dia da Pátria. Por volta de onze horas da manhã, tem início o desfile militar na Rua Sinimbu, em Caxias do Sul, no centro da cidade. O público aguarda ansioso pela passagem dos garbosos militares em uniformes alinhados, representando as diversas corporações não-civis existentes na cidade. O mestre de cerimônias, postado junto ao palanque oficial repleto de autoridades, instalado próximo à Praça Dante Alighieri, defronte à Catedral, vai anunciando ao microfone as atrações que desfilam aos olhos de todos. Poucos, no entanto, parecem reconhecer ou mesmo entender a presença de um octogenário senhor, fardado, usando uma boina, que é transportado no banco traseiro de um jipe militar norte-americano da década de 1940, logo no início do desfile. O alto-falante anuncia: “Registramos a presença do ex-pracinha da FEB, Alberto Arioli, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial”. Orgulhoso, faceiro, pleno de vigor, Arioli abana para um público que, na sua maioria, não tem a menor ideia do que ele representa e do que significa ele estar ali. O valor da História, no entanto, segue com ele dentro do jipe, Sinimbu abaixo, um dos últimos remanescentes de um outrora numeroso grupo de heróis que não titubeou em oferecer a própria vida em defesa de valores universais e da construção de um modelo de sociedade diametralmente oposto aos horrores que propunham (e impunham) os sistemas inimigos fascista e nazista, que oprimiam boa parte do mundo sete décadas atrás.

Dos 174 caxienses que se alistaram em março de 1944 para integrar a Força Expedicionária Brasileira e ir combater os alemães em solo italiano, restam vivos hoje apenas seis: somente dois deles residindo em Caxias e, entre eles, apenas Arioli com saúde (aos 86 anos de idade) para participar do Desfile da Pátria e comparecer com assiduidade aos almoços de confraternização realizados na primeira quarta-feira de todo o mês na sede do Museu dos Ex-Combatentes da FEB, situado na Rua Visconde de Pelotas, 249. “No início, desde que o Museu foi criado, em 1975, os almoços eram semanais. Mas tivemos de ir diminuindo a frequência à medida em que os colegas foram morrendo ou envelhecendo demais”, explica o ex-combatente. Hoje, Arioli segue sendo presença constante aos encontros, que reúnem ainda algumas viúvas de ex-pracinhas e alguns de seus familiares. Entusiasta do tema Segunda Guerra Mundial e um dos idealizadores do Museu que resguarda a memória do envolvimento caxiense em um dos mais significativos fatos da história contemporânea da humanidade, Alberto Arioli recebe com simpatia e generosidade os visitantes sempre que está presente ao local (aberto ao público de terças a sábados, das 9h às 17h) e administra uma agenda repleta de convites para compartilhar suas experiências em escolas na cidade. Além de representar parte viva da história, o ex-pracinha tem consciência da necessidade de manter sempre atuais os ensinamentos que os fatos históricos proporcionam, a fim de conhecer, entender e evitar que se repitam os horrores gerados naquela época.

O que motivou o jovem de 18 anos recém-completados Alberto Arioli a se apresentar como voluntário para combater o nazismo na Europa, no início de 1944 (o Brasil declarou guerra à Itália e à Alemanha em agosto de 1942), foi o clima de ânimos exaltados que dominava a atmosfera da cidade, especialmente em comícios realizados na praça central, rebatizada de Praça Ruy Barbosa, já que Dante Alighieri fazia alusão à cultura dos então inimigos italianos. “Eu era jovem e escutava aquelas frases de ‘vamos matar os alemães’, e me entusiasmei com aquilo”, recorda Arioli. Caxiense de nascimento (nasceu em 11 de dezembro de 1925), pertence a uma família de oito irmãos (Alberto é o penúltimo da turma, o único ainda vivo), filhos de José Arioli e Fenice Pezzi Arioli. A ascendência da família é ilustre na história da região: o avô paterno, Tomazzo Arioli, veio da Itália na primeira leva de imigrantes chegados à Serra gaúcha em 1875 e acabou integrando o grupo de onze colonos que mais tarde saíram de Caxias para fundar Bento Gonçalves. O avô materno foi o também imigrante italiano Abramo Pezzi (1847 – 1903), um dos primeiros professores a se instalar no Campo dos Bugres, a primeira denominação de Caxias do Sul. Nenhum deles imaginaria que um de seus netos faria a viagem de volta, décadas mais tarde, à saudosa pátria italiana, a fim de colaborar para livrá-la do fascismo de Benito Mussolini e do nazismo de Adolf Hitler.

O pai vinha de uma família de funileiros, com tradição de duzentos anos nessa atividade. Por isso, recebeu convite de Abramo Eberle para trabalhar em sua fábrica, onde produziam as lamparinas conhecidas como “ciarettos”, muito usadas pelas famílias na época, já que a energia elétrica era uma raridade nos lares. “Meu pai era chefe de montagem na Eberle e eu também comecei a trabalhar cedo, junto com os estudos, para aliviar um pouco as despesas em casa. Por isso, acabei sendo ‘emprestado’ durante cinco anos para uns tios que moravam em Antônio Prado, onde tinham uma loja de secos e molhados, na qual eu ajudei dos 10 aos 15 anos de idade”, recorda Arioli. Terminado o primário, cursado em Antônio Prado, retornou a Caxias para continuar os estudos e trabalhou até os 18 anos de idade em uma oficina mecânica pertencente a um cunhado. “Lidávamos com caminhões e veículos movidos a gasogênio, porque já havia escassez de petróleo em função da guerra”, recorda.

O longo braço das consequências do conflito que abalava quase a totalidade do mundo atingiu Caxias de maneiras diversas. Além dos comícios inflamados, Arioli recorda da população reunindo artefatos caseiros de metal (louça, baldes, ferramentas etc) para doá-los à empresa Gazola, Travi & Cia, que fabricava balas de canhão. A fábrica havia sido considerada como de interesse militar pelo Exército Nacional desde a deflagração do conflito e redirecionara toda a sua produção para atender às demandas do esforço de guerra. O preço, no entanto, para esse engajamento, foi alto. Em uma manhã de julho de 1943, um acidente até hoje não plenamente explicado ocorrido no depósito de pólvora da empresa causou três retumbantes explosões que originaram a morte de seis funcionárias da fábrica, todas jovens caxienses de idades entre 18 e 20 anos. Arioli, então com 17 anos, recorda até hoje do estrondo, bem como da fumaça que imediatamente invadiu as ruas nas imediações da fábrica.

Depois de se alistar como civil voluntário na FEB, em março de 1944, Arioli e seus colegas passaram por vários meses de treinamento em São Leopoldo até embarcarem, saindo do Rio de Janeiro, para a Europa, em cinco encouraçados, em setembro daquele ano. Quinze dias depois, desembarcaram em Nápoles, já toda destruída devido aos combates, onde receberam mais treinamento e a FEB foi incorporada ao 5º Exército Norte-Americano, sob o comando do general Mark Clark. Entraram em combate contra as posições alemãs na Itália a partir de novembro. O cabo Alberto Arioli participou, com sua metralhadora Thompson, dos ataques que resultaram na histórica tomada de Montese. Terminado o conflito em maio de 1945, teve a sorte de integrar a primeira das cinco levas que trouxeram de volta os pracinhas (dos 25 mil soldados brasileiros que foram à guerra, 2,5 mil morreram – 450 em combate direto -, nenhum deles caxiense), desembarcando no Rio de Janeiro em 18 de julho de 1945. Foram tratados como heróis pela população, mas Arioli ainda teve de permanecer por cerca de mais um mês no centro do país, antes de retornar para casa. Por ser exímio datilógrafo, foi convocado para ajudar a produzir os milhares de certificados de reservistas destinados aos ex-combatentes.

Chegou finalmente em Caxias do Sul em 2 de setembro daquele ano, após uma longa viagem vindo de São Paulo de trem até Porto Alegre e, dali, a bordo de um ônibus da empresa Expresso Caxiense pela BR-116, na época, ainda sem pavimentação asfáltica. “A viagem de Porto Alegre até aqui durava quase um dia inteiro para subir a Serra. Cheguei na rodoviária em Caxias, que na época situava-se onde hoje há a Praça da Bandeira, e fui levado de táxi até em casa, na Rua Alfredo Chaves, onde cerca de 500 pessoas me aguardavam para festejar. E tudo o que eu mais queria era dormir”, recorda Arioli. Cinco dias depois, junto com mais sete ex-pracinhas caxienses que também haviam retornado para casa no período, desfilou pela primeira vez na condição de ex-combatente da Segunda Guerra Mundial nas comemorações de Sete de Setembro, no centro da cidade. Recém saído da guerra, foi ali, naquele momento especial, que Alberto Arioli foi tocado pelo amor, ao colocar pela primeira vez os olhos naquela que viria a ser sua esposa e mãe de suas duas filhas.

“Estávamos desfilando e, na nossa frente, marchava a banda do Colégio São José. Chamou minha atenção uma moça bonita que era uma das balizas da banda, exatamente a porta-bandeira. Eu tinha 19 anos e ela, 17. Fui lá falar com ela depois do desfile, puxei assunto exclamando sobre como devia ser pesada a bandeira que ela carregava e tal. Depois, convidei para irmos ao cinema, começamos a namorar e casamos”, revela Arioli. A esposa era Zilá Viero, falecida em 1992. Casaram-se em 1950 e tiveram as filhas Maria Elizabete e Marta Maria, que lhe deram os netos Rodrigo, Mateus e Geórgia.

No ano seguinte ao término da guerra, Arioli ingressou no quadro funcional da Eberle, trabalhando no escritório, onde permaneceu até se aposentar, em 1972. Tornou-se então representante comercial autônomo de peças metalúrgicas e, em 1975, junto com outros sócios, fundou a empresa Acre Caxias, que fabrica e comercializa abrasivos industriais. Há seis anos, ao completar seus 80 de vida, decidiu parar de trabalhar e hoje divide o tempo entre leituras e as demandas inerentes ao Museu da FEB. Já visitou a Itália quatro vezes, tendo retornado aos locais em que arriscou a vida para defender a liberdade juntamente com as forças aliadas que combateram os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Nos últimos anos, dedicou-se a escrever as memórias de sua participação na guerra, tendo concluído recentemente a redação do livro que intitulou “Cabedelo: Uma Saga Brasileira”, em alusão ao nome do quarto navio mercante brasileiro afundado por submarinos nazistas em janeiro de 1942. Aguarda com ansiedade a publicação da obra, que perenizará sua participação nesse capítulo sintomático da História do mundo.

(OBSERVAÇÃO: O livro foi lançado no final de 2012, pela Quatrilho Editorial).

"Cabedelo", livro autobiográfico lançado por Arioli em 2012

Generoso e interessado pela história da cidade, Arioli me deu o prazer da presença na sessão de lançamento do livro que escrevi resgatando as memórias do ex-prefeito de Caxias do Sul, Mario Vanin, em 2012 (Foto: Silvana Toazza)