Caxias do Sul 27/05/2022

Quando a dor vira força: o enólogo que ressignificou a vida e criou sua própria vinícola na Serra

Passagem triste foi marco para tirar sonho do papel e produzir vinhos em homenagem às filhas
Produzido por Silvana Toazza, 26/01/2022 às 10:57:41
Quando a dor vira força: o enólogo que ressignificou a vida e criou sua própria vinícola na Serra
Giovanni Ferrari, 34 anos, sempre sonhou em ter sua própria vinícola
Foto: Rodi Goulart

POR SILVANA TOAZZA

Filho e neto de produtores de uva, o enólogo bento-gonçalvense Giovanni Ferrari, 34 anos, “decantava” desde cedo o desejo de possuir uma vinícola própria. Até então, trabalhava em grandes cantinas.

O sonho foi tirado da rolha em novembro de 2019, ressignificando uma passagem triste da sua biografia: a morte da esposa, em decorrência de complicações após o parto da segunda filha.

A bagagem de sentimentos bastante amargos foi o gatilho para perceber que a brevidade da vida exige posturas assertivas e coragem para enfrentar os desafios e dar luz às ambições. Não teve dúvidas: saiu da vinícola onde trabalhava para tocar o próprio projeto. Deu outro rumo à vida profissional, do jeito que ele sempre imaginou, criando um empresa-boutique de sucesso.

Fez da dor, força. Do luto, luta. Resgatou nas filhas pequenas a inspiração para fazer brotar uma vinícola-boutique que hoje se destaca na produção de vinhos finos e espumantes premium e super premium na Serra. É quase um atelier de vinhos, em que qualidade se sobrepõe a quantidade. O enólogo harmonizou, em doses de aroma, o passado com o presente e o futuro, em produtos autorais.

Vinho rosé em homenagem à filha de três anos (foto: Rafael Bauer)

O resultado é que a Vinícola Arte Viva, instalada na Linha 100 da Leopoldina, no município de Monte Belo do Sul, inovou e não para de surpreender o mercado. De um lado, Giovanni criou um vinho rosé para homenagear a filha Júlia, de 3 anos, batizado de Juju, com o próximo lote sendo lançado em alguns meses. O Malu, um vinho tinto evocando a filha primogênita Maria Luíza, de cinco anos, também sairá das barricas e ganhará os cálices.

Porém, Giovanni deu outro importante gole neste concorrido mercado: buscou no passado, resgatando o método ancestral, a receita para lançar recentemente um trio de espumantes Nature, dentro da linha Elementar, que se notabiliza pela complexidade olfativa e excelente frescor.

“No método ancestral, colhemos as uvas com maturação acima da média para poder fazer todo o processo apenas com o açúcar da fruta, sem adição do licor de expedição”, explica Ferrari.

Atualmente, o volume de produção da Vinícola Arte Viva é de 55 mil garrafas/ano, distribuídas em quatro linhas: Ícone, Elementar, Especiais e Sinônimos.

A seguir, leia sem moderação a entrevista exclusiva com Giovanni Ferrari, que começou a carreira em 2009 e tem passagens por empresas da região, como Vinícola Almaúnica, Chandon do Brasil, Vinícola Salton, além de estágios no Douro (Portugal) e em Epernay (França):

Como surgiu a Vinícola Arte Viva?
Primeiramente, um sonho de criança. Aos meus 12 anos, já demonstrava interesse pela elaboração de vinhos, pois meus ancestrais sempre trabalharam no cultivo da videira e no fornecimento de uvas para as vinícolas. Assim, o surgimento da Arte Viva é um passo muito importante dentro da escala de evolução familiar, na qual agregamos valor ao produto (uva) e transmitimos ao consumidor todo o carinho e dedicação envolvidos nessa arte. A trajetória profissional nas vinícolas citadas acima me proporcionou experiência e conhecimento para moldar e polir o projeto tanto no que tange a elementos de gestão, quanto a elementos de nível técnico.

Foi um sonho concretizado ter sua própria empresa após prestar atendimento a vinícolas?
Sim, pois, além do amor pelo vinho, gosto de criar produtos ousados e tenho mais liberdade com a minha própria empresa. Também gosto de empreender e estou satisfeito nessa nova fase profissional.

Quais foram os principais desafios?
A clareza no que diz respeito aos diferenciais oferecidos pelos produtos da vinícola Arte Viva surge à medida em que a experiência profissional matura. Com relação ao modelo de negócio, precisamos ter cautela, pois a vinícola demanda um capital imobilizado acima da média quando comparada com outros negócios. Assim, optamos em alugar a estrutura de elaboração em outra vinícola, adquirindo fôlego para investir diretamente na qualidade dos produtos.

Trio de espumantes pelo método ancestral

Você está investindo numa linha de espumantes resgatando o método ancestral. Como funciona o processo? É algo raro ou uma tendência? O custo de produção é mais caro?
O método ancestral consiste em iniciar a fermentação do mosto no tanque e encerrar na garrafa. Ou seja, próximo ao término da primeira fermentação, executamos o engarrafamento, e as vinte gramas de açúcar restantes formam a pressão ideal na garrafa. Não é um processo usual devido aos riscos (instabilidades e parada de fermentação na garrafa) e ao custo de produção, que é elevado (no momento da retirada da levedura, perdemos mais produto devido à quantidade de leveduras decantadas).

Quantos rótulos integram a nova linha e qual o público-alvo?
Temos 15 rótulos à disposição no nosso site e loja virtual www.vinicolaarteviva.com.br. No mês de dezembro, lançamos quatro novos rótulos, sendo três espumantes Nature elaborados pelo método ancestral e um Pinot Noir tinto de fermentação integral em barrica, ambos na linha Elementar. O público-alvo é coerente com os produtos da vinícola, ou seja, elaboramos produtos autorais e exóticos, proporcionando sensações gustativas, olfativas e visuais diferentes quando apreciados com atenção.

Como enxerga a evolução do setor vinícola nacional?
Fantástica! É um trabalho de muitos anos. O setor vinícola exigiu um padrão superior no que se refere à qualidade da matéria-prima, aliado ao conhecimento cultivado através do intercâmbio com outros países e aos investimentos realizados no processo de elaboração. A viticultura atendeu ao padrão de insumos com a implantação de novos vinhedos em espaldeira com cepas e clones de videira selecionadas. Além disso, o desenvolvimento da viticultura em outras regiões do Brasil acelerou o processo de elevação da qualidade da uva.

Você tem experiência no Exterior. Temos condições de concorrer em qualidade e preço com grandes países produtores?
Sim, realizei vindimas na França e em Portugal. Com certeza, já somos muito competitivos em relação a preço e qualidade, principalmente em produtos até R$ 300. Dentro do cenário mundial, às vezes esquecemos que nossa vitivinicultura é extremamente jovem (aproximadamente 160 anos), portanto, não podemos comparar países com países, pois cada país tem sua peculiaridade, e a tradição na elaboração dos vinhos somente é possível com o passar dos anos.

Há espaço para pequenas vinícolas, com produção limitada?
Sim, inclusive, há procura por parte dos consumidores. Faz parte da evolução e da difusão da cultura do vinho no Brasil.

A estiagem prejudicará a safra 2021/2022?
No que diz respeito às uvas para vinhos finos, a qualidade está dentro do esperado, porém, com relação a rendimento, temos uma perda significativa de mosto (cerca de 25%). Assim, o custo de produção se eleva e o preço final, consequentemente, sofre alterações.

Você tem um vinho em homenagem à sua filha. Conte essa história.
O primeiro vinho da vinícola foi o Juju, que é um rosé composto de Marselan, Chardonnay e Riesling maturado em barris de jequitibá-rosa e de carvalho francês. A intenção do Juju é proporcionar ao consumidor a oportunidade de provar um rosé gastronômico e exótico unicamente brasileiro. O nome veio por último, pois, degustando este vinho, percebi traços de personalidade da Júlia no Juju. A partir dessa experiência que tive, procurei delinear o Malu, em homenagem à Maria Luíza, conforme suas características de personalidade. Assim, temos a categoria Especial subdividida em Juju (brancos e rosés de pequena tiragem e exóticos) e Malu (tintos de pequena tiragem e exóticos).

Como conseguiu ressignificar sua vida após um acontecimento muito triste?
A vida é extremamente benevolente e repleta de presentes. Basta aceitar. As tristezas existem por conta da nossa resistência em mudarmos nossa visão de mundo (a percepção) e vêm para nos ensinar, assim como as alegrias.

De onde tirou força para se reerguer e criar uma empresa de sucesso e reconhecida excelência? Que mensagem deixaria ao nosso leitor, tanto empreendedor quanto quem precisa se reestruturar diante de um acontecimento impensável?
Para responder às duas questões acima, utilizarei uma frase de Antoine Lavoisier (cientista francês 1743-1794): "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". A natureza é o ambiente onde vivemos e depende exclusivamente de nós criarmos cenários favoráveis ou desfavoráveis, pois a transformação acontece impreterivelmente.

Para você, o vinho significa...
O significado do vinho para mim, por incrível que pareça, deu origem ao nome da vinícola. O vinho significa Arte Viva, pois é a bebida que é análoga ao desenvolvimento do ser, que está em constante evolução. A intenção, o carinho e a dedicação pré-determinam o êxito e a longevidade de um vinho. Observo que assim funciona com o ser humano também. O vinho sempre será apreciado por ter a característica de nos transportar às memórias nele contidas, além de nascer, crescer e morrer.