Caxias do Sul 29/06/2022

Os ciclos latino-americanos de Giuliana

Aos 25 anos, temporariamente em Caxias do Sul, artista de rua argentina está viajando de bicicleta pela América Latina com sua cachorra Tormenta
Produzido por Marcos Mantovani, 15/02/2022 às 08:51:24
Os ciclos latino-americanos de Giuliana
Foto: MARCOS MANTOVANI

POR MARCOS MANTOVANI

Giuliana não se intimida com os temporais da vida por uma razão muito simples: Tormenta é sua aliada. Tormenta é a cachorra que foi adotada na fronteira entre o Uruguai e o Brasil e que passou a viajar pela América Latina na garupa da bicicleta de Giuliana. Juntas, elas são a versão atualizada do clássico Thelma & Louise.

Com o tempo, conforme a filhote Tormenta crescia, Giuliana precisou repensar o tamanho do compartimento da garupa da bicicleta. Ela pesquisou opções maiores e isso foi resolvido logo. Hoje, com o espaço aumentado na garupa, Tormenta recebe mais vento no rosto, mais liberdade no pelo e mais paisagens nos olhos de tempestade.

“O nome dela era pra ser Menta”, Giuliana diz em português, com sotaque espanhol e articulação latino-americana. “Menta virou Tormenta porque ela não parava quieta”, explica e acaricia a nuca da cachorra, que por um momento está quieta e dá sinais de preguiça, contradizendo seu nome, o que é compreensível, já que o sol agora das 11h50 é um chamado à moleza.

Amóz, contabilidade, circo

Antes de Tormenta, Giuliana Perlo viveu outros capítulos em sua vida. Seu pai se chamava Amóz, e Amóz faleceu quando Giu ainda era bem menina. Dele, que tinha uma empresa e por isso viajava muito, ela pegou o gosto pela matemática e pelas viagens — inclinações que, mais tarde, levaram Giu a ingressar no curso de ciências contábeis da Universidade de Tucumán, norte da Argentina.

A ideia abstrata na cabeça de Giu era que, como contadora, ela teria chances de viajar a trabalho, conhecer lugares, experimentar-se em cidades diferentes. Foram necessários três anos na graduação de Ciências Contábeis para que a ideia dela perdesse a abstração e ganhasse uma clareza desestimulante. O que fazer? Largar tudo? Giu largou tudo.

E entrou no Circo Social de San Miguel de Tucumán, uma escola circense gratuita que ofertava três aulas por semana de acrobacias, contorcionismo, monociclo, performances em duo e malabares com claves. Ali, durante a vivência de um ano, Giu compreendeu duas coisas. 1) A arte dava uma surra no curso de Ciências Contábeis. 2) Era o momento de deixar a Argentina para trás.

Luciano, fisgada, mãe

Giu condensou a vida num mochilão e caminhou até a casa do seu amigo Luciano, que a esperava com seu próprio mochilão. Eles se olharam de cima a baixo, acharam graça da versão viajante de cada um e se deram um abraço de urso que na legenda dizia: vai dar tudo certo.

Deu tudo certo por 10 meses, na Bolívia, no Peru, no Equador e na Colômbia — Giu e Luciano fazendo acrobacias duo em semáforos, praças e parques. Até que uma percepção fora de hora deu uma fisgada no íntimo de Giu e a fez sentir que, antes de seguir sua viagem pela América Latina, ela precisava retornar à Argentina para fechar um ciclo que não havia sido fechado corretamente, algo a ver com seus três irmãos e sua mãe.

Giu retornou, abriu a porta de casa e olhou para a mãe (Paola) de uma maneira mais adulta, mais autorresolvida. A mãe queria que ela retomasse a faculdade de Ciências Contábeis e se encaixasse na vida cotidiana de San Miguel de Tucumán. Giu sorriu com ternura e disse que a amava, mas que na verdade estava ali para lhe informar que seu futuro seria mesmo a arte de rua, a estrada e a solidão dessa escolha.

Uruguai, Brasil, ciclos

Em um ano e meio de Uruguai, Giu se mexeu: foi a convenções de circo, alargou-se como contorcionista, aprendeu a arte circular do bambolê. E conviveu com algumas artistas de rua que lhe ensinaram na prática os abecês do feminismo e da sobrevivência. Com duas delas, Macarena e Cande, Giu começou a viajar de bicicleta dentro do Uruguai.

Só que essas sequências de viagens em trio se esgotaram, cumpriram seu papel. Giu resolveu dar atenção a um apelo que lhe requeria mais emancipação e individualidade. Assim, na fronteira entre o Uruguai e o Brasil, ela adotou a filhote vira-lata Tormenta e a encaixou na garupa da sua bicicleta, seguindo pelo Brasil adentro na companhia só da cachorra, já tendo hoje intercalado períodos em mais de 10 cidades gaúchas e catarinenses, Thelma & Louise em busca de um fim alternativo para o clássico de 1991.

Mas esse fim ainda terá de esperar. No instante da escrita deste texto, Giu e Tormenta estão transitoriamente em Caxias do Sul, parando na casa de amigos recém-feitos e ganhando a vida com quatro bambolês (dois rosas-choque e dois amarelos) nos semáforos mais ou menos indiferentes e às vezes machistas do bairro São Pelegrino.

Amanhã, ou depois de amanhã, quando o sol iniciar outro ciclo diário, elas também sentirão o gatilho de começar mais um ciclo particular em algum lugar diferente. Giu ajeitará nos alforjes da bicicleta suas roupas, seus quatro bambolês e seu livro sobre veias abertas e América Latina, e então acomodará Tormenta no compartimento da garupa, nenhuma delas precisando dar explicações a ninguém, uma argentina de 25 anos e uma cachorra, o vento, um continente.