Caxias do Sul 05/12/2021

Luciana sabe que você desviará o olhar primeiro

Coletora de lixo seletivo enfrenta diariamente as ameaças do coronavírus, da informalidade trabalhista e da indiferença social
Produzido por Marcos Mantovani, 14/04/2021 às 09:09:15
Luciana sabe que você desviará o olhar primeiro
Foto: MARCOS MANTOVANI

POR MARCOS MANTOVANI

Soaria bonito dizer que Luciana está usando a camiseta da Mulher-Maravilha por algum motivo específico. Mas o fato é que ela não acredita em super-heroínas que voam e usam tiaras de ouro.

Para Luciana, os superpoderes femininos que importam são mais terrestres, mais realistas, como, por exemplo, ter a naturalidade de vistoriar os containers amarelos e recolher deles o que poderá ser vendido no fim da tarde: latinhas e garrafas pet.

“Eu tô com essa camiseta por acaso”, ela diz, “não tem significado.” O que na verdade tem significado é o olhar de Luciana, cuja mistura de confiança e dignidade cria nela uma aura que se sobressai. É o tipo de olhar que entra como favorito naquele jogo em que duas pessoas se observam com o objetivo de descobrir quem sustenta a encarada por mais tempo. Detalhe: Luciana sabe que você desviará o olhar primeiro.

O Jesus bom, o sétimo dia

Luciana nasceu em Bom Jesus, no fim da década de 80. Os pais contaram a ela que foram caseiros em uma fazenda cheia de árvores hiperfolhosas. Dá para visualizar com facilidade os nasceres do sol nos campos de lá, os poentes, as noites faiscantes cujas estrelas lembravam aquele óleo sobre tela (74 cm x 92 cm) que Van Gogh pintou na França tendo à disposição os recursos do pós-impressionismo.

Essa atmosfera pós-impressionista não esteve ao alcance de Luciana. O pai e a mãe deixaram Bom Jesus quando ela somava apenas sete dias de vida. Ou seja, o sétimo dia não como descanso divino, não como um domingo de preguiça – mas sim no formato de uma mudança rumo ao que desse e viesse em Caxias do Sul, na esquina da Treze de Maio com a Vinte de Setembro. “Bem na entrada do Burgo”, Luciana diz.

Felipe, Brenda e Pietro

O marido de Luciana se chama Felipe. Ele também ganha a vida puxando uma carroça de metal. A diferença é que Felipe faz isso nos dois turnos, ao passo que Luciana cumpre só o período da tarde – pela manhã, ela dá atenção aos filhos. E deixa o CD tocar as músicas sertanejas de que gosta (Luan Santana), já que nas horas em que o marido está em casa o que vigora são os batimentos do eletrofunk.

O filho de Luciana, Pietro, tem quatro anos – ainda não sabe ler nem letras nem os esforços no rosto da mãe. Mas a filha, Brenda, já completou oito e já consegue distinguir bem o alfabeto, assim como distingue as expressões mudas na face da mãe: energia, cansaço, expectativa, desalento, luta, inquietação. Brenda enxerga tudo isso porque, à tarde, sempre acompanha Luciana nas peregrinações pelos containers dos bairros Lourdes e Petrópolis – para a menina, é uma chance de ficar longe da TV e do celular.

a rotina, os perigos

A rotina de uma coletora de lixo seletivo é cansativa. E incerta. Nem sempre há material para ser recolhido. “Agora, na pandemia, diminuiu um pouco, e a concorrência entre nós tá maior”, Luciana diz. Ela tem como objetivo principal a coleta de latinhas, que é o item mais valorizado na hora da troca – em seguida, as pets brancas, que são trocadas por dois reais ao quilo. Ela entrega tudo no fim da tarde, em um pavilhão de descarte, no bairro Cruzeiro.

Os perigos da função de Luciana são visíveis e invisíveis. Há carência de direitos trabalhistas. Há ausência de férias remuneradas. Há um vácuo no plano de saúde e na contribuição de INSS. Há o risco de contrair Covid-19. E, claro, há a invisibilidade e a desconfiança implícita contra os coletores, como se Luciana Andrade Prado não merecesse aparecer na lista das narrativas de sucesso familiar que tanto orgulham a cidade.

as tatuagens, a altivez

Luciana é católica não praticante – ela não confia muito em ícones. Mas acredita nas suas duas tatuagens. Na parte de cima do antebraço direito, lê-se “Luciana”, uma autorreferência que ela visualiza todos os dias, espécie de espelho letrado que faz com que Luciana reforce a confiança em si mesma. Já na parte interna do mesmo antebraço, lê-se “Pietro”, o caçula dela. Ambas tatuagens em letras cursivas.

Cursivas e meio apagadas. É por isso que Luciana quer refazê-las. “Quero um traço mais forte”, diz e chama a filha – Brenda aproveitou o intervalo para se afastar da saia da mãe. O fim de tarde cai depressa e o céu na Santos Dumont perde agora um pouco de coloração, igual às tatuagens de Luciana. Dez metros à direita, Brenda obedece ao chamado e se reaproxima da saia materna, sustentando (com firmeza e altivez) o olhar perguntante do entrevistador da mãe.