Caxias do Sul 22/09/2020

“Já passamos por tantas crises que o brasileiro acaba se tornando resiliente por natureza”, diz executivo

A primeira empresa de chocolate artesanal do país, fundada há 45 anos em Gramado, precisa se reinventar para não demitir diante do severo impacto no turismo
Produzido por Silvana Toazza, 16/09/2020 às 11:55:25
“Já passamos por tantas crises que o brasileiro acaba se tornando resiliente por natureza”, diz executivo
Mauricio Brock é diretor executivo da Prawer
Foto: arquivo pessoal

Sua história confunde-se com a própria história do chocolate artesanal no Brasil. Com uma trajetória saborosa de 45 anos, a Prawer orgulha-se de levar o status da marca do primeiro chocolate artesanal do Brasil, fundada em 1975, em Gramado.

Porém, tradição necessita andar de mãos dadas com inovação. Para fazer frente a um capítulo difícil vivenciado pelo setor de turismo com a pandemia da Covid-19, a empresa precisou se reinventar e desenvolver estratégias, como um clube de assinaturas mensal de chocolates e a intensificação do e-commerce, para não demitir.

Na entrevista a seguir, concedida de forma exclusiva ao site para a seção Conversa Afiada, Mauricio Brock, diretor executivo da Prawer, detalha os movimentos da tradicional fabricante de chocolates da Região das Hortênsias:

Como a Prawer chega aos 45 anos? Quais os motivos para comemorar?
Não é fácil no Brasil uma empresa chegar aos 45 anos. E isso dá muito orgulho e coragem para seguirmos por pelo menos mais 45. Para chegar lá, é necessário ter um propósito muito forte e muita perseverança. A economia no Brasil é instável. Vivemos de altos e baixos. Para possuir uma empresa e marca fortes, é necessário primar por qualidade e inovação. Esses são fatores que geram o lastro para que a empresa se torne longeva. Estar vivo é um motivo para comemorar. Estamos passando pela pandemia, nos reinventando dia a dia e nos tornando cada vez mais fortes.

A Prawer foi precursora do chocolate artesanal de Gramado, mas hoje a concorrência no setor mudou muito. Como fazer frente a esse cenário?
No meu ponto de vista, oferecer produtos de alta qualidade é imprescindível. É assim que se fideliza o consumidor. E inovação. Pois os hábitos de consumo mudam com muita dinâmica. Se a empresa não inovar, ela se acaba. Outros dois fatores muito importantes também são ética e seriedade, tanto com os parceiros de negócio quanto com o próprio consumidor.

A pandemia impactou nos negócios do turismo. Qual foi o reflexo na Prawer?
Sim, impactou muito. Talvez os setores de turismo e eventos tenham sido os mais prejudicados com esta crise. Para nós, nos primeiros meses da pandemia chegou a impactar em 90% do faturamento, já que grande parte da receita da empresa provém das receitas nas lojas de Gramado. Hoje estamos trabalhando com 40% da nossa capacidade de faturamento.

Qual a estrutura atual da empresa?
Hoje a empresa conta com 160 colaboradores entre fábrica e lojas em Gramado.

Fale da estratégia de venda virtual.
A venda de produtos está migrando para o e-commerce numa velocidade galopante. E este é um caminho sem volta. É cada vez mais fácil e prático adquirir pela internet qualquer produto que se queira. No futuro, as lojas físicas serão para vendas de consumo imediato ou funcionarão como showroom. O foco delas deverá ser em proporcionar uma experiência diferente para o consumidor, o que envolve serviços. Por outro lado, hoje, as plataformas digitais proporcionam um contato cada vez mais próximo com o cliente. É uma maneira de estarmos no seu dia a dia, através dos conteúdos que nos aproximam. A venda virtual acaba sendo uma consequência. A comodidade e a facilidade de consumir com apenas um clic, aliadas à convivência com as marcas, é o que vai nortear as vendas online no futuro.

A retomada da economia já começou?
Achamos que sim. Pouco a pouco estamos retomando o faturamento que tínhamos no passado. Está longe ainda de alcançarmos o 100%. Mas a curva é ascendente.

Qual a expectativa de crescimento em 2020? Houve contratações ou demissões? Como enxergas o final do ano, normalmente nobre para o turismo de Gramado?
Em função da pandemia, não houve o crescimento esperado para o ano, que era em torno de 15% com relação a 2019. Esperamos chegar ao final do ano com 50% a 60% do faturamento de 2019. E contamos que em 2021 a gente consiga retomar o faturamento que tivemos em 2019. Não houve demissões em função da pandemia. O que fizemos é não contratar mais. Assim, em função das demissões normais de turnover (rotatividade), conseguimos enxugar a empresa em torno de 10%. A temporada de final de ano nós esperamos que seja boa, talvez com um público menor em quantidade, mas com maior poder aquisitivo.

Que dica daria a um empreendedor que está passando por dificuldades?
Trace suas metas e persiga seus objetivos. O negócio é lutar e ter garra para alcançar o que se planejou. Perseverança. Desistir, jamais. No Brasil já passamos por tantas crises que o brasileiro acaba se tornando resiliente por natureza. É preciso levar isso para os negócios e pensar que o que mantém uma empresa em pé são os clientes. E o mínimo que o cliente espera é qualidade no produto que está adquirindo. Mas isso só, já não basta mais. As marcas que se mantém são as que encantam, que surpreendem o cliente. E é aí que entra a inovação.