Caxias do Sul 05/12/2021

Eduardo torce pelo semáforo vermelho

Misturado a meio milhão de habitantes, morador de rua de Caxias do Sul segue seu próprio ritmo, sobrevivendo às ciladas da lógica capitalista
Produzido por Marcos Mantovani, 01/07/2021 às 08:46:15
Eduardo torce pelo semáforo vermelho
Foto: MARCOS MANTOVANI

POR MARCOS MANTOVANI

Eduardo de Almeida Cardoso pede pouco à vida, no máximo um real por vez. Às vezes, 50 centavos já bastam para encher os olhos de futuro. No fim do dia, ele apoiará as costas em alguma vitrine, contará as moedas recebidas no semáforo e voltará a pé ao seu lugar secreto, fazendo de cabeça uma contabilidade que nada tem a ver com boletos de luz ou condomínio.

É um mundo diferente. Madrugadas sob marquises encimadas por neon, toalete sem pia e sem paredes, mudas de roupa amarradas secretamente no alto de árvores. Um mundo cujo calendário não consegue diferenciar dias úteis de fim de semana — na realidade nem existe calendário, o que existem são sequências diurnas e noturnas.

Dias e noites em que Eduardo vaga pelos bairros São Pelegrino, Centro e Marechal Floriano. Vagações sem uma rotina organizada e sem nenhuma privacidade, ele exposto 24h, lembrando uma versão alternativa do Big Brother Brasil, com a diferença de que no BBB de Eduardo não há câmeras, torcida nacional nem glamour midiático.

o destino resvaloso e incompleto

Eduardo nasceu em São Francisco de Paula e veio para Caxias aos dois anos. Tem quatro irmãs e cinco irmãos — todos, exceto ele, moram fora das ruas. Ele diz que seu RG e sua CNH (vencida) estão na casa de uma das irmãs. “Eu já tive carro, um Astra”, especifica e olha para cima, talvez relembrando seu tempo na sociedade que consome. Hoje, para Eduardo, consumo virou com sumo aperto.

Na véspera da adolescência, a pregada de peça dupla do destino. O pai (Darci Antônio) escorregou em cima do telhado e caiu de ponta-cabeça no vão entre a casa e o muro, sem chance de sobreviver. Pouco depois, a diabete venceu a resistência abatida da mãe (Venira). Eduardo conta isso com uma voz calma, sedativa, como quem se preocupa em tranquilizar o ouvinte.

Sem pai nem mãe, o adolescente Edu acabou descaprichando nos estudos. Não havia ninguém para cobrar o tema nem para exigir que ele dissesse “presente” na escola todos os dias — quatro repetições na sexta série fizeram Eduardo desistir. O sonho futuro dele tinha a ver com advocacia e escritório, só que o futuro precisou se arranjar sem sonho.

redes, amores, contradição

Eduardo não perde tempo com grupos de WhatsApp, assim como nunca sente o impulso de postar no Instagram os pratos de R$ 1 que ele come no Restaurante Popular — para isso seria preciso ter um celular multimídia. Mas ele já foi bem ativo no Facebook, até perder a vontade. “Faz uns sete anos que eu não entro numa lan house.”

Internet é algo menor na lógica dos sem-teto. Se por um lado eles são invisíveis on-line, por outro enxergam off-line uns aos outros. E gostam de namorar. Eduardo se relaciona com mulheres que, assim como ele, estão em situação de precariedade social. O desafio é achar um canto privativo que ofereça certa liberdade de movimento, driblando Guarda Municipal e Brigada.

O que ele não consegue driblar é outra coisa. A maior contradição de Eduardo é o fato de que, mesmo frequentando diariamente as áreas de reciclagem ao lado do estádio da SER Caxias, ele torce para o Juventude. Na infância, costumava ir aos jogos com o pai. Hoje, desistiu, mas dentro do possível acompanha os resultados e ainda caçoa o rival Caxias.

bruxaria, filho, facadas

Se o clichê se confirmasse e a vida realmente imitasse a arte, Eduardo teria uma varinha de condão cheia de bruxarias. Isso porque, no universo mental dele, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é uma referência de vida, seu filme predileto, visto muitas vezes graças ao DVD de uma sobrinha.

Além de tio, Eduardo também é pai, tem um filho de sete anos. “O nome dele é Wiliam e, até onde sei, mora no bairro Vila Lobos.” Segundo a contagem paterna, faz mais de cinco anos que eles não se encontram, por motivos que não são revelados. Eduardo faz um comentário lateral e, sem fingir polidez, muda logo de assunto.

“O espiritismo me salvou da morte uma vez”, confessa, apesar de não frequentar centros nem pregar a doutrina. Ele sustenta com firmeza que essa fé o socorreu em pelo menos uma ocasião: Eduardo levou duas facadas de raspão na cabeça, quando foi confundido com um assaltante. “Mas depois a confusão foi desfeita, eu nunca roubei ninguém”, diz e não solta o olhar.

o horizonte estrangeiro, o horizonte caxiense

Observando Eduardo com atenção, sua aparência lembra a de Alexander Supertramp, o personagem real do livro Na Natureza Selvagem, do jornalista Jon Krakauer — livro que virou filme em 2007. Vale lembrar que o jovem Supertramp, insatisfeito com uma sociedade padronizada e hiperconsumista, livrou-se das cordas burocráticas para virar mais um dos hobos, como eram conhecidos nos EUA os que vagueavam sem destino e sem dólares no bolso.

Corta para Caxias do Sul e temos aqui o nosso próprio Supertramp contemporâneo, excluído dos empregos e dos endereços fixos. Se fôssemos mesmo a fundo para escrever uma biografia dele, seria adequado terminá-la enfatizando que, na cidade dos carros ostentosos, das sacadas fechadas e do endeusamento metalmecânico, Eduardo se vira com papelão e retalhos de uma lona quase sem cor.