Caxias do Sul 05/12/2021

Beto trampa com trompete

Na cidade do metalmecânico, trompetista ignora o mecânico e usa só o metal: o instrumento de sopro da família dos metais
Produzido por Marcos Mantovani, 18/01/2021 às 08:56:13
Beto trampa com trompete
Foto: MARCOS MANTOVANI

Por MARCOS MANTOVANI

Língua, lábio e bochecha: dominando isso, você já pode começar a brincar. Mas o problema é que, para brincar direito, o trompete exigirá também dos seus dedos, da garganta e dos pulmões. Sem mencionar as partituras, que requisitarão anos de estudo – exercícios seriados que irritarão os seus vizinhos. Então talvez seja melhor deixar o trompete só para quem sabe. Beto Scopel sabe por todos nós.

Na fisionomia, Beto está mais para Chet Baker do que para Miles Davis. Mas na sonoridade ele se aproxima igualmente dos dois mestres. Aliás, o trio que eles poderiam formar tem ritmo até no nome, Beto-Baker-Davis, como se esse sopro triplo fundasse uma nota musical. Uma nota da qual Beto hoje é o único detentor, já que os mestres nos deixaram há tempos – Chet em 1988, Miles em 1991.

o dindo, o maestro pernambuco

Aos 11 anos, algo aconteceu. O menino Beto se sentiu desafiado pelos dois irmãos mais velhos e por dois primos, filhos do dindo Lori. Essa turma adorava os instrumentos de sopro, adorava assoprar melodias. Até que em certo momento, cansado de ser apenas o ajudante que servia água e biscoitos aos músicos, o menino Beto largou a bandeja e encaixou as mãos num trompete.

Meses depois, ainda na primeira metade dos anos 1990, o dindo Lori levou Beto a Farroupilha. Não para comer kiwi. Não para rezar em Caravaggio. A razão era o veterano maestro Pernambuco, que, saído do Sertão profundo, estava dando aulas aqui na Serra Gaúcha. Aulas para aprendizes mirins. E foi então que o menino Beto descobriu a brecha: na banda do maestro Pernambuco, faltava justamente um trompetista.

a disciplina, a inquietação

Aos poucos, tanto nas aulas quanto fechado no quarto, Beto se concentrou em teoria musical. Quis fazer do modo certo, sem comer etapas. E acabou tendo experiências de aprendizagem mais rigorosas, como, por exemplo, ao lado do maestro da Ospa, Evandro Matté – influência que levou Beto ao Conservatório Pablo Komlós, em POA, numa travessia de cinco anos.

Há inquietação em Beto. Uma procura. Uma cobiça criativa que o faz buscar encaixes sonoros que não se encaixam para mais ninguém. E Beto vive nesse quebra-cabeça todos os dias – o seu trompete jamais esteve satisfeito só com o erudito, ou só com o popular. De alguma forma, o ouvido e o sopro de Beto querem alargar as possibilidades, querem dar alternativas ao trompete. Multiplicá-lo.

as parcerias, as produções

Ao longo da sua caminhada rítmica, Beto se misturou a várias parcerias musicais. Quarteto New Orleans. Orquestra Municipal de Sopros. Choros do Balcão. Free Note Jazz Quarter. Duo CCOMA – com o qual, em 2016, venceu o Prêmio da Música Brasileira. Parcerias que já levaram Beto a tocar o seu trompete em vários países da Europa e da América Latina. Trompete viajado.

Mas Beto é mais do que compositor e trompetista. Também é produtor. E mora literalmente no estúdio da Tum Tum Produções, local cuja atmosfera tem uma vibração de “work in progress”. Recinto que tem ainda um piso de jogo de xadrez, talvez como algo alegórico que simboliza os calculados movimentos que Beto, há dez anos, precisa fazer para captar verba para as produções da Tum Tum.

o meditar, o metal não mecânico

O trompete tem a ver com sopro, com respirar, e por isso é um tipo de meditação”, Beto diz. Essa meditação também se espalha em quem o escuta, porque Beto tem a manha de fazer o trompete soar de modo hipnótico, tanto com ritmos étnicos quanto com eletrônicos, tanto com chorinhos quanto com pulsações dançantes. Meditações de timbre que ele pratica – e oferece – sempre em consonância com algo que Miles Davis disse uma vez: “Não toque o que está lá, toque o que não está lá”.

Nada contra o metalmecânico pelo qual Caxias do Sul é conhecida. Nada mesmo. A única coisa é que a vida nem sempre funciona só assim. Existem contextos e âmbitos em que o “mecânico” atrapalha o “metal”. Beto sabe disso. Entende que, para tocar o instrumento da família dos metais, é preciso fugir da mecanicidade. Quase uma metáfora. Como se o trompete de Beto deixasse Caxias menos dura, menos monolítica. E a transformasse na Caxias do Soul, do Jazz, do Rhythm and Blues.

Via Instagram, ouça uma palhinha de Beto e seu trompete em vídeo produzido por Marcos Mantovani AQUI