Caxias do Sul 19/06/2024

Um mestre da poesia: Guido Cavalcanti

Poeta que foi inspiração a autores clássicos como Dante e Petrarca ganha texto traduzido por escritor serrano
Produzido por José Clemente Pozenato, 06/06/2024 às 09:49:56
José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”
Foto: Marcos Fernando Kirst

Os nomes mais lembrados da poesia italiana do século XIII – il Duecento – são os de Dante e Petrarca. Mas os dois tiveram como mestre o poeta Guido Cavalcanti (1255-1300), que não deixaram de elogiar. Por esse motivo, fui também procurar sua poesia e, para degustar em cheio seu sabor, traduzi suas canções, baladas e sonetos, num total de 52 Rime, que foram salvas em arquivos de Roma, Veneza, Florença e Pádua.

O sobrenome Cavalcanti deriva do fato de que nasceu numa família de cavaleiros, tradição iniciada com seu bisavô, em defesa do papado. Ainda jovem, Guido estudou filosofia na universidade de Bolonha, onde conheceu os pensadores aristotélicos Avicena e Averróis.

Para dar um exemplo de sua poesia, fiquei em dúvida entre sua canção mais famosa, Donna mi prega, em que desenvolve uma teoria escolástica sobe o Amor, ou um soneto ou uma balada, nos quais dá um tom mais sensitivo. Modelo que inspirou a poesia provençal e, por decorrência, também a galego-portuguesa.

Escolho então uma balada, Fresca rosa novela, que as editoras atuais colocam como o primeiro poema de sua antologia. É um poema também muito apreciado por Dante, que no seu Vita Nuova, diz: “segundo se crê, (o poeta) deu à sua amada o nome de Primavera e assim a chamava”. Portanto, a “querida primavera” (piacente Primavera- v.2) desta balada não é uma figura retórica, mas o nome atribuído por Guido Cavalcanti a sua amada, cujo nome real era Vanna, ou Giovanna.

Guido Cavalcanti (Reprodução)

Como se pode observar, o poema é cheio de imagens líricas, colhidas da verdura, mas conclui com uma consideração filosófica sobre a essência da natura de sua amada. São três estrofes de treze versos cada uma.

Fresca rosa em botão,

querida Primavera,

por prado e por ribeira

vou gaiamente cantando,

vosso valor louvando – na verdura.

Vossa cara fineza

se renove aos carinhos

de homens e menininhos

nas vias da redondeza;

cantem os passarinhos,

cada um com sua destreza,

manhã e tarde acesa

nos verdes arbustinhos.

Todo o mundo cante

pois que a estação é bem

tal como convém

a uma alteza tal:

pois sois angelical – oh criatura.

De um anjo a semelhança

em vós, senhora, pousa:

Deus, como venturosa

foi minha esperança!

Vossa face formosa

que ultrapassa e avança

sobre natura e usança

é sim maravilhosa.

Entre as mulheres deusa

vos chamam, e é verdade;

tanta é vossa beldade

que eu não sei contar;

e quem pode pensar – além natura?

Mais que a natura humana

vossa fina aparência

a fez Deus: por essência

é que sois soberana;

que então vossa presença

perto me seja e lhana;

não seja ora tirana

a doce providência!

E se parece ultraje

me pôr a vos amar

não queirais condenar:

é o Amor que me força,

contra ele não há força – nem mesura.

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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