Caxias do Sul 27/02/2021

Por onde voam agora as pandorgas da cidade?

Vivenciávamos a experiência dos espaços públicos como formadores do espírito comunitário
Produzido por T. S. Marcon, 19/02/2021 às 16:51:22
Foto: Tiago Sozo Marcon

Havia uma espécie de depósito de taquaras debaixo da escada externa que conduzia à casa do Júlio. Era uma escada de concreto revestida por um ladrilho jateado, cor de carne e fosco, típico dos anos 1960 ou 70.

Executada numa das fachadas laterais, a escada tinha um lance reto com quinze degraus – o Júlio morava no segundo andar e a casa dele ficava ao lado da minha –, e depois disso a gente chegava a um grande patamar-sacada, onde encontrávamos a janela do quarto de costura da Diva e a porta da cozinha quase sempre abertas.

Foi nesse patamar-sacada que, durante uma lendária guerra de bexiguinha da turma, me posicionei como um atirador de elite pra lançar uma dessas granadas de água em direção ao Burziga. Na verdade, eu só endireitei o corpo e abri a mão que segurava a bexiguinha; a gravidade fez o resto, o Burziga enchia as suas no tanque que ficava no térreo, posicionado exatamente na prumada da extremidade sul do patamar-sacada. Meu cálculo, certeiro, resultou em manobra infrutífera: a bexiguinha bateu na cachopa do Burziga, voltou a ganhar algum impulso e, microdeslocada pelo vento e pela rotação da Terra, escorregou, gozadora, nas costas lisas de suor do meu amigo e foi estourar no chão.

Mas eu queria falar do depósito de taquaras e da importância que ele tinha. A gente chamava aquela madeira de taquara. Pode ser que, tecnicamente, fossem bambus. Pode ser que taquara seja um sinônimo regional de bambu, eu realmente não sei e não tô a fim de parar de escrever agora pra elucidar esse detalhe no Google. No Pio X dos anos 1980 não existia Google.

O que eu sei é que as taquaras sempre estavam sequinhas, prontas pro consumo: o Júlio era nosso mestre na arte de fazer pandorgas – pipas, pra alguns – e vocês sabem, a estrutura de uma boa pandorga depende da qualidade da taquara. De forma que o depósito de taquaras do Júlio era uma espécie de almoxarifado poético, um hangar afetivo que alimentava a arte e a técnica de fazer pandorgas.

(FOTO: Tiago Sozo Marcon)

Deitado na rede, olhando a rua através da sacada, o Júlio dava dois ou três assobios e a gente já se preparava pra algumas opções: começar outro jogo de futebol com ele, ouvir suas histórias de civilizações extraterrestres, brincar de se esconder, jogar taco. Ou fazer pandorgas, e depois empiná-las desafiadoramente, pássaros de seda e ousadia, espaçonaves artesanais, primitivas, até que ganhassem os céus do bairro e da cidade.

A receita era básica. Papel de seda, fio de náilon, tesoura, farinha e água. Um dia eu apareci na casa do Júlio com papel dobradura e cola Tenaz. Ele quase infartou. Havia um rito a se respeitar, e toda uma preocupação com o peso dos componentes. Na parte específica do rabo da pandorga, elemento de essencial função aerodinâmica, o Júlio trançava tecidos que sobravam da máquina da Diva.

Falava com entusiasmo sobre a proporção áurea, quando espaçava os nós. Eu deixava minha imaginação voar, e usava as cores em combinações contrastantes: amarelo com preto, azul com laranja, vermelho com branco. O fio de náilon era adquirido na Casa das Armas ou na Ferragem Triches; o papel de seda vinha da Banquinha da Vovó.

Pra quem conhece a cidade, vai parecer bravata: nossas pandorgas eram erguidas na ruazinha desimportante ao lado da velha fábrica de joias do Pio X (geralmente eu era o corredor, o sujeito que parte em disparada e anima a pandorga) e logo iam ganhando altura – quando comandadas pelo Júlio –, de forma que, num dia de vento propício, elas rompiam os limites do bairro e flutuavam sobre o edifício Estrela. Que fica no centro, pra quem não conhece a cidade.

Então mandávamos bilhetinhos, técnica que consiste em encaixar pequenos retalhos de papel no fio de náilon esticado, até que ele alcance a pandorga; desenhávamos manobras em elipses elegantes, sempre fugindo do perigo dos fios elétricos; ríamos com o êxito dos voos, chorávamos quando uma pandorga se perdia. A experiência dos espaços públicos como formadores do espírito comunitário. As ruas do bairro eram como extensões das varandas e dos pátios das nossas casas.

Porque logo depois disso o Júlio foi morar em outra cidade. A casa dele agora já não existe mais. Burziga está morto. E os céus das nossas cidades ganharam edifícios cada vez mais altos e numerosos, e torres com antenas de telefones celulares, signos de um tempo fragmentário, individualista, saturado de paixões tristes.

Tiago Sozo Marcon é escritor, arquiteto e funcionário público municipal

mail tsozomarcon@gmail.com