Caxias do Sul 06/08/2020

Os psicopatas nossos de cada filme

Desajustados, mentirosos, manipuladores, cruéis, você certamente já viu um deles nas telas
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 28/06/2020 às 08:31:54
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

“Posso alimentar a lagarta.

Posso sussurrar através do casulo.

Mas o que me encuba segue sua

própria natureza e está além de mim”.

(Hannibal Lecter)

Eles estão nos livros, séries, filmes, quadrinhos, games e até em Inteligência Artificial (IA). Criada por três cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e batizada de Norman, em homenagem ao personagem de Psicose, a IA foi alimentada com imagens de morte, terror e violência pinçadas da internet. Em testes com uma IA comum, ficou clara a psicopatia de Norman. Veja o resultado AQUI

A palavra psicopata surgiu no século XIX e vem do alemão psychopatisch, originária do grego psykhé, mente, mais phatos, sofrimento. O conceito de psicopatia foi popularizado na década de 40 ao descrever os psicopatas como homicidas charmosos e calculistas. O termo hoje está incluso no Transtorno de Personalidade Antissocial.

No psicopata “existe uma distorção permanente de como percebe, interpreta a si mesmo, outras pessoas e situações de vida”, explica o psiquiatra caxiense Luis Bassanesi. O início e estabelecimento deste quadro se dá a partir dos 15 anos, mas pode acontecer antes. O médico enumera os principais sintomas de psicopatia, em que o indivíduo:

- Não se ajusta a regras e normas legais e envolve-se com situações de prisão;

- Falsidade, mentiras repetidas, identidades falsas, tudo dirigido a interesse próprio; enganar o outro para ganhos financeiros ou satisfação pessoal;

- Não faz planos a longo prazo, o interesse é o prazer imediato;

- Não se preocupa com a segurança sua e a de outros;

- Não sente culpa, não tem arrependimentos por ter enganado, ferido ou maltratado outras pessoas.

“Falsidade e manipulação são aspectos essenciais desse quadro”, afirma. “O psicopata tem, em seu histórico ou no momento atual, casos de destruição de propriedades, agressão a pessoas ou maltrato aos animais, roubo, fraude e violação das regras”.

E como o cinema representa os psicopatas? “Como os psicopatas são encaixados em espectro de gravidade, o cinema tende a buscar o extremo da condição, explorando serial killers ou estupradores, que estão nesta condição. Mas a grande maioria tem um comportamento mais comum. Lotam as prisões e clínicas especializadas em dependência química”, explica.

O psiquiatra lembra filmes em que são utilizados traços psicopáticos, como Dormindo com o Inimigo, Silêncio dos Inocentes, Prenda-me se For Capaz e o brasileiro Vips, inspirado em uma história real. O personagem Dexter, da série homônima, que ficou conhecido como “o psicopata do bem”, se encaixa nesses padrões.

Luis Bassanesi esclarece que “todo serial killer se enquadra como um psicopata, mas com certeza a grande maioria dos psicopatas não são seriais killers”.

“Eu vejo a dor deles, e de um certo modo

eu compreendo essa dor. Só não consigo

sentir a dor”. (Dexter Morgan)

Michael C. Hall como Dexter

De 2010 a 2013, psiquiatras belgas, liderados pelo professor Samuel Leistedt, realizaram a pesquisa Psicopatia e o Cinema: Fato ou Ficção?, na qual analisaram 400 filmes exibidos entre 1915 e 2010 para descobrir o psicopata mais convincente do cinema. Foram “selecionados” 126 personagens que, a partir daí, foram analisados por uma equipe de psiquiatras forenses.

A conclusão foi de que Anton Chigurh, vivido por Javier Barden, em Onde os Fracos não têm Vez (2007), é a melhor representação de psicopata no cinema. Além dele, estão no topo da lista, Hans Beckert (Peter Lorre), de M., O Vampiro de Dusseldorf (1931), dirigido por Fritz Lang, e Henry (Michael Rooker) de Henry: Retrato de um Serial Killer (1986).

Chigurh (Barden), o mais convincente

M, O Vampiro de Dusseldorf, um clássico

Henry (Rooker), uma face do mal

CLAQUETE DE CINÉFILOS

Confira os filmes, séries e personagens psicopatas que marcaram alguns aficionados pela Sétima Arte

FELIPE GUE MARTINI, coordenador dos cursos de Jornalismo e Produção Audiovisual do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG).

Entre os filmes de sua preferência, Martini cita O Silêncio dos Inocentes, Seven e O Iluminado.

Para ele, Seven é um bom thriller, com um roteiro muito bem amarrado. “As atuações são boas e o assassino em série que aparece ali tem inteligência, sarcasmo, qualidades raras e a obra lembra um pouco o filme noir”.

E personagens? “Não sei bem se são psicopatas, mas os que mais me marcaram foram o bandido da luz vermelha e o Alex, do Laranja Mecânica”,

Recentemente Martini assistiu à série Gipsy. “Gosto da boa atuação da Naomi Watts e porque aborda uma espécie de psicopatia e perversão de uma psicanalista que passa a se intrometer na vida de seus pacientes e esse tema é interessante para pensar privacidade, ética, além dessa questão doentia de um cuidador”.

John Doe (Kevin Spacey) em Seven

Naomi Watts, muito além da terapia

FLÓRA SIMON DA SILVA, professora de Fotografia e Produção Audiovisual em Cinema da Universidade de Caxias do Sul (UCS)

Flóra ama o personagem Hans Landa, de Bastardos Inglórios, pela sua inteligência. O Silêncio dos Inocentes e A Cela são seus dois filmes preferidos e ela explica a razão.

“Gosto da abordagem de O Silêncio dos Inocentes (o personagem do Hannibal), muito pela inteligência e o saber envolver do personagem que faz crer que o que ele faz está certo - para mim isso é maravilhoso, pois ele faz de uma forma tão delicada - e apesar de ter sido uma adaptação da literatura, no filme ele consegue envolver em tão pouco tempo, mesmo não sendo o personagem principal”.

Ela também gosta de A Cela. “Mas lá eu não sei se é mais pelo fator estético e psicológico do filme do que pelo tema e pelo personagem psicopata”.

Hans Landa (Christofh Waltz)

Hannibal (Anthony Hopkins), fascínio

JAIRO SANGUINÉ, jornalista gaúcho, diretor executivo da revista 3Sinais, do Rio de Janeiro

Os clássicos Psicose, Silêncio dos Inocentes, Laranja Mecânica, O Iluminado e A Mão Que Balança o Berço são os filmes que mais marcaram Jairo. Ele cita como bem interessantes também Onde os Fracos Não Têm Vez e Perfume – A História de um Assassino.

“Gosto muito de personagens intensos e densos, interiorizados, com a sensibilidade apurada e uma inteligência acima da média. Fico pensando como funciona a cabeça deles, o que os levou a agir daquela forma. Certamente muita coisa represada e que acabam expulsas por meios violentos ou estranhos”.

A Mão que Balança o Berço

Perfume – A História de um Assassino

MINHA CLAQUETE

“Sim, eu estou mudando e não posso parar agora.

E mesmo que eu quisesse não saberia como.

Acredito ter encontrado outra versão de mim”.

(Kevin)

Todos os filmes, séries e personagens citados anteriormente também fazem parte das minhas escolhas. Mas a obra que me tirou o chão foi, sem dúvida, Precisamos Falar Sobre Kevin, roteirizado e dirigido pela escocesa Lynne Ramsay.

A versão cinematográfica do livro homônimo de Lionel Shiver, que pesquisou dezenas de casos para escrevê-lo, narra a história perturbadora de Eva (Tilda Swinton), cujo filho apresenta comportamento incomum e problemático já na infância. Na adolescência, as coisas pioram quando ele comete um ato extremo.

Colocado dessa forma parece simples, mas o filme não-linear, feito um quebra-cabeças, nos propõe questões profundas sobre o relacionamento entre Eva e Kevin (Ezra Miller). É uma obra que incomoda ao discutir temas como maternidade, depressão pós-parto, culpa, perversão e, claro, psicopatia. O sofrimento de Eva e a indiferença de Kevin ficam impressos em nós, é até difícil respirar depois de assistir ao filme.

Assista ao trailer AQUI

Eva e o filho, relação angustiante

Kevin (Ezra Miller), perverso

DE OLHO NO SET

A série Mindhunter retrata dois agentes do FBI nos anos 1970, suas pesquisas e estudos sobre o “modus operandi” dos então chamados stranger killers. Um deles, Rober K. Ressler, é responsável pela nova denominação: serial killers.

Bates Motel apresenta a vida de Norman e sua mãe em cinco temporadas que mapeiam a psicopatia do personagem com ótimas atuações de Freddie Highmore, como o jovem Norman e Vera Farmiga, sua mãe Norma Louise Bates.

Hannibal, série com três temporadas (Netflix), narra a relação do Dr. Lecter com o agente Will Graham (Hugh Dancy) que perfila criminosos.

O documentário Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy (Netflix) discorre sobre o manipulador, charmoso e egocêntrico psicopata que confessou ter assassinado pelo menos 36 mulheres nos anos 1970.

Há outro doc sobre Bundy, esse sob o olhar de sua namorada Elizabeth Kendell, Ted Bundy: Falling for a Killer (Amazon Prime Vídeo).

O best-seller de Patrick Suskind, O Perfume, serviu de referência também para a série alemã de mesmo nome. Ao contrário do filme, ambientado na França do século XVIII, a história se passa nos dias atuais.

Eulália Isabel Coelho (Biba) é jornalista, professora e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com

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