Estamos, essa turma que já viveu mais de meio século, numa idade elegante e sensível, experiente e especial, pois temos um pé em cada milênio. Alguns vivem sem horários rígidos ou trabalho; muitos temos mesada, moradia e gavetas de remédios para nossas dores e, creiam, são um capítulo à parte.
Somos praticamente gambiarras humanas, cheios de retoques, disfarces, enjambrações, reparos, reformas, improvisos e jeitinhos bem brasileiros para continuar iludidos ou enganando o tempo. Estamos velhos, carcaças que não aceitam mais chateação nem pinturas, tudo é provisório, mas vamos indo. "Se véve meu fio, se véve" como dizia minha tia, há uns 70 anos.
Alguns andam de carro; outros caminham. Gente desta idade já não tem medo de engravidar, de esquecer nomes e datas. Temos a sorte imensa de estarmos "quase velhos" inão somos caquéticos ainda, apenas desligados, um pouco lentos...
Então, sob tais prismas, nossas vidas são ótimas, escolhemos nosso jeito de ser, de ocupar o tempo, de ir ou ficar ou, como disse Jenny Joseph, "de fingir que estamos dormindo quando não queremos ouvir". Isso está implícito nos manuais de quem só quer viver.
Estamos espertos, astutos, sagazes, inteligentes e nossas reações, muitas vezes, são tardias ou até lentas em excesso. É que nossos cérebros, sobrecarregados de conhecimentos, de certezas, de erros e acertos, são cautelosos e desconfiados. Essas desconfianças, nesses casos, fazem a diferença.
Está errado quem nos considera obsoletos, superados ou saudosistas, de forma alguma estamos nesses níveis, apenas não temos pressa, gastamos tempo em informações sábias, em toneladas de conhecimentos e experiências de vida.
São conceitos, detalhes e definições acumuladas, às vezes temos dificuldade de fala e de audição, o que atrasa a percepção imediata. Somos sobrecarregados como discos rígidos de computadores, cheios de arquivos, nossos cérebros não estão fracos, só que acumulamos mais informações do que pretendíamos, esquecemos do tempo real e naufragamos nas lembranças. São décadas de memórias arquivadas e que revelam, sem pudor nenhum, sem regulação nenhuma, esse mapa da memória como um campo minado, cheio de armadilhas, dados soltos e bagagens descartáveis.
É preciso atenção para não perder um segundo, o tempo é dúbio, ao mesmo tempo, nosso maior algoz e também nosso maior tesouro. Tem dias rápidos como pipocas estourando grãos tardios.
Nós, os velhos, numa aparente elegância, fazemos o estilo "slow motion" quando entramos numa sala e não conseguimos lembrar do que realmente queremos. Daí, só resta pisar leve, fazer o clássico olhar de paisagem que disfarça e torna a performance discretamente elegante, dando um refinamento próprio da caduquice, digo, da velhice. Fingir que nada esquecemos faz parte desse comportamento eventual, é "cautela", não é problema de memória. Estamos aprendendo a não ter pressa. Estamos lerdos. Então, nada a reclamar.
Somos privilegiados, só descobre isso quem chega à nossa vetusta e saborosa idade.
Portanto, valorize seu tempo. Faça sua parte já.
Seja danado, enfrente desafios sem desperdício de tempo. Veja, aprenda e experimente, aprenda muito, aprenda sempre.
E, depois, com irônica elegância, revele a beleza de chegar aos sessenta, setenta, oitenta ou mais invernos, primaveras, verões e outonos, com essa paixão juvenil que, sem perceber direito, ainda desfrutamos.
(Encaminhe esta mensagem para amigos de qualquer idade, seus melhores amigos. Nada acontecerá se esquecer de enviar, mas faça-os saber que são maravilhosos!)
Valdir dos Santos é artista plástico e poeta em Caxias do Sul.
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