Caxias do Sul 19/06/2026

Desafios do turismo de aventura no Brasil

Crescimento do setor impõe pensar medidas que incrementem a segurança da experiência
Produzido por Thais Medina, 19/06/2026 às 08:40:59
Thais Medina é CEO da agência de Marketing e representação de destinos Business Factory
Foto: Arquivo pessoal

A morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante uma atividade de rope jump em Limeira, no interior de São Paulo, trouxe novamente para o centro do debate um tema que acompanha a evolução do turismo de aventura: a segurança.

Como profissional do turismo e sendo eu mesma uma grande entusiasta desse tipo de experiências, acompanho há anos uma transformação importante no comportamento dos viajantes. Viajar deixou de ser apenas visitar um destino. Cada vez mais, as pessoas buscam vivências capazes de gerar memórias e conexão com os lugares visitados.

Essa mudança também pode ser observada nos números. Um levantamento do Ministério do Turismo de 2025 mostra que o turismo de aventura está entre os segmentos que mais crescem no país, representando 13% da preferência nacional e chegando a 22% entre jovens de 16 a 24 anos. O dado ajuda a explicar por que atividades ligadas à natureza, esportes e experiências ao ar livre passaram a ocupar espaços cada vez maiores nos roteiros de viagem.

O potencial desse segmento também é reconhecido internacionalmente. No ano passado, a US News & World Report colocou o Brasil como o melhor destino do mundo para o turismo de aventura, à frente de países tradicionalmente associados ao segmento, como Itália, Grécia, Espanha e Tailândia. Esse crescimento é positivo para o turismo brasileiro, mas também exige uma reflexão sobre a responsabilidade de todos os envolvidos na indústria de viagens.

Quando alguém contrata uma atividade de aventura, deposita confiança em profissionais, equipamentos, protocolos e processos. Existe uma expectativa legítima de que todas as etapas tenham sido planejadas, executadas e conferidas para reduzir riscos e preservar a integridade dos participantes.

Como aventureira nata, faço e já fiz trilhas na natureza, explorei cavernas, me diverti em cascading, quadriciclo, balonismo, romaria por montanhas, rafting, safáris, expedições de 4x4 pelo Brasil e para outros países, off-road em diversas modalidades e, meu queridinho, rallies. E o cuidado deve ser sempre o mesmo:

yes1 Realize sua compra com agente de viagens de confiança.

yes2 Pesquise muito bem sobre a empresa ou guia que o acompanhará. Veja avaliações e comentários no Tripadvisor, Google, redes sociais, Reclame Aqui.

yes3 Confirme se há seguro e quais situações cobre.

yes4 Verifique se os equipamentos são adequados, como capacetes, colete salva-vidas, mosquetão, cadeirinhas, entre outros.

yes5 Entenda o nível de dificuldade e pergunte sobre distâncias, duração, esforço físico, altitude, correnteza, exposição ao sol, trilhas, subidas e descidas.

yes6 Informe suas condições de saúde.

yes7 Siga as orientações do instrutor e não se afaste do grupo.

yes8 Use o equipamento de segurança o tempo todo.

yes9 Respeite os seus limites.

yes10 Evite álcool antes e durante.

É importante lembrar que nenhuma atividade de aventura é totalmente isenta de risco. O próprio conceito dessas experiências envolve desafios físicos e emocionais em contato com ambientes naturais. Mas o que diferencia uma operação responsável é justamente a existência de procedimentos claros, equipes capacitadas, manutenção constante dos equipamentos e cumprimento rigoroso das normas de segurança.

O caso de Limeira chama a atenção porque as informações divulgadas até agora apontam para uma falha em uma etapa considerada básica do processo. A própria Ponte do Esqueleto, onde a atividade ocorreu, já registra histórico de acidentes, incluindo a morte de um ciclista em 2024, o que reforça a discussão sobre uso do espaço e a necessidade de fiscalização contínua. Independentemente das conclusões finais da investigação, a tragédia reforça a importância de protocolos que não dependam exclusivamente da atenção de uma pessoa, mas que contem com mecanismos de conferência e validação capazes de reduzir a possibilidade de erro.

Viajar é, em essência, um exercício de confiança. Confiamos em quem organiza o roteiro, em quem conduz a atividade, em quem opera o equipamento e em tudo o que sustenta a experiência fora do nosso controle direto. Mas pode e deve haver espaço para escolhas mais conscientes. Não hesite em perguntar sobre certificações e treinamentos, afinal, isso faz parte natural do processo de decisão. E é tão importante quanto, no momento da atividade, olhar e perguntar se está tudo realmente conferido.

O turismo de aventura continuará crescendo porque responde a uma demanda legítima por vivências que vão além do convencional. O desafio do setor é garantir que essa expansão aconteça acompanhada de profissionalização, legislação, fiscalização e cultura de segurança.

Thais Medina é CEO da agência de Marketing e representação de destinos Business Factory e professora na pós-graduação da Fundação Getulio Vargas e Senac-SP.

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