Caxias do Sul 18/05/2021

Confissões e conficções de uma Bovary moderna

O que faria, o que pensaria, como agiria a famosa personagem de Flaubert, se vivesse nos dias de hoje?
Produzido por Marilia Frosi Galvão, 30/04/2021 às 08:03:01
Foto: Claudia Haupt Fotografias

Há alguns dias, ao terminar a releitura da obra-prima de Gustave Flaubert, intitulada “Madame Bovary” – constatei a força das afirmações de Italo Calvino em "Por que ler os clássicos?". Realmente, Madame Bovary, obra publicada em 1857, mexeu comigo de tal forma, que me provocou uma nuvem de pensamentos críticos, e persistiu uma certa tensão entre o meu mundo interno e o mundo real. Pois, 150 anos depois, este clássico inesgotável renasceu em mim. Impossível ficar indiferente a essa retomada. Redescobri magias e afinidades.

Os universos do século XIX e o do século XXI, embora em tempos e espaços diferentes, assemelham-se em problematizações e discussões. Assombrada por essa descoberta de realidades ainda vigentes nos dias de hoje, especialmente em relação à condição da mulher na literatura, na sociedade, na subjetividade, no feminismo - eterna luta por emancipação, inspirei-me em Emma Bovary para imaginá-la em tempos atuais.

De mais a mais...

Esse século e meio que me separa de Emma deixou de existir. Ela estava escondida no passado, e a leitura e a releitura a trouxeram para mim, eu a recriei em minha mente também pela imaginação. Ah, o tempo. Passado e presente entrelaçados. Uma experiência sensorial.

Para meu leitor/leitora, um brevíssimo resumo desse clássico:

Emma (nascida Emma Rouault) – órfã de mãe desde pequena, foi educada em um convento, com outras meninas da elite da época. As freiras ensinaram – leitura e escrita – piano – desenho – e tudo o mais para ser uma ótima esposa, mãe, dona de casa. Em off, algumas colegas mais velhas emprestavam-lhe livros, que ela devorava. Versavam sobre amores, amantes, imaginem... mulheres perseguidas e desmaiando em lugares solitários (só para se ter uma ideia), males de amor, soluços, lágrimas, beijos, homens fortes, bem vestidos... aventuras, bailes, castelos... Assim, como efeito dessas leituras, Emma, em idade precoce, fantasiava, e, o pior de tudo, isso se intensificaria com o passar do tempo. Por essas influências, nossa heroína, ao terminar os estudos, e para livrar-se do jugo do pai, aceitou casar-se, e pensou estar apaixonada pelo Charles Bovary – médico. Imaginou que o casamento lhe propiciaria aquelas aventuras românticas dos livros que lia. Porém, a lua-de-mel durou pouco, seu marido era morno, era raso, sem ambições, pobre de espírito, para não dizer “burro”, cego – não enxergava a alma de Emma. Assim, desiludida com a sua vida real tão diferente da sonhada, entediada, buscou concretizar sonhos de amor e de felicidade com seus amantes. Foram dois. Eles a decepcionaram, porque também eram medíocres. Como forma de compensar-se, inconscientemente, Emma tornou-se consumista voraz – lingeries refinadas, presentes caros para os amantes, vestidos, reformas na casa, tecidos para os sofás, cortinas – e contrai muitas dívidas. Até que, os credores, judicialmente, iriam resgatar os bens da família do marido, que não sabia de nada. Ninguém a ajudou. Desesperada, não viu outro caminho senão a morte. Ingeriu arsênico. E agonizou terrivelmente. Foi de partir o coração. Mas, atente para esse fato, minha cara leitora e leitor: Emma suicidou-se – não por arrependimento – foi por chegar a um ponto (dívidas impagáveis), em que ela estaria impedida de prosseguir em busca de seus sonhos, de ser amada como nos romances que ela leu.

(Foto: Marília Frosi Galvão)

Então,

Com Emma Bovary, dialoguei sobre o que faz balançar o coração de uma mulher, sobre alienação e sensibilidade, os desesperos femininos. E sobre as leituras, ah, como as leituras arrebatam e impulsionam uma alma... a busca dos sonhos, o rompimento de padrões, e sim, sobre o amor adúltero, que expõe a fragilidade de uma das instituições mais caras – o casamento. Emma é uma personagem fascinante, ingênua, sonhadora, tosca, provinciana, bonita, insatisfeita com a vida real, dissimulada, ambígua, vaidosa, transgressora, complexa... ousada e corajosa para ir em busca de seus sonhos, tão real para mim, que me flagrei dando conselhos a ela, pobrezinha, faltava-lhe senso crítico... olha só, querida leitora, e leitor, o que faz com a gente a boa literatura!

O criador dessa personagem, de uma profundidade psicológica que impressiona, Gustave Flaubert (1821 – 1880), levou cinco anos para escrever “Madame Bovary”. Perfeccionista – lia e relia os manuscritos sempre à procura da palavra certa – “le mot juste”. Romance realista, com força de estilo, lucidez nas críticas à sociedade da época, e com profundas incursões psicológicas em seus personagens.

O fascínio da obra não está no adultério em si, o interessante e polêmico é a quebra de regras e normas sociais da época. Por isso foi uma obra transgressora, e um marco na literatura mundial, em que o inevitável e a fatalidade conduzem os destinos do homem. Ao recusar o sonho e a fantasia do romantismo, nesta história estão presentes os temas do amor adúltero, da sedução, do tédio em relação à vida enfadonha de um casamento sem amor, a falsidade e a estupidez humana.

Esses motivos suscitaram escândalo, acusação de imoralidade e processo judicial no contexto hipócrita da época. Felizmente Gustave Flaubert foi absolvido. Para a criação da personagem Emma Bovary, o autor inspirou-se em uma mulher real. Todos queriam saber quem era ela. A repercussão foi enorme – “Qui est Madame Bovary?" Saiu-se bem o escritor ao responder :

“ Madame Bovary c’est moi!”

“Quando eu escrevia o autoenvenenamento de Emma Bovary, eu também tinha o gosto do arsênico na boca.” Tal a empatia que ele nutria por ela.

Todo caso...

Após a repercussão e sucesso da obra, surgiu o termo bovarismo – (pelo filósofo francês Jules de Gaultier), “o poder atribuído ao homem de conceber-se outro”, hoje utilizado pela psicologia e pela psicanálise para descrever a sensação de insatisfação que persiste – as pessoas ambicionam uma vida idealizada e compensatória na busca constante de prazer e reconhecimento. A pensar... sobre o que ocorre hoje nas redes sociais, “o império dos cliques”, em que as pessoas são tão felizes, lindas, viajam e só têm sucessos... e sobre o fato de que, hoje, a mulher não é obrigada a ficar confinada no lar, mas sofre outros tipos de aprisionamento – cobranças e preconceitos da sociedade – seja bela – não envelheça – não engorde – esconda os fios brancos do cabelo... o culto da eterna juventude...

Se...

Por uma possibilidade da mecânica quântica, talvez para ocupar algum lugar vazio - Emma Bovary –, vinda do século XIX - transmutada para o século XXI... como ela seria?

Falando em possibilidades, imaginemos a aparência física. Continuaria uma mulher vaidosa, seus cabelos seriam coloridos, ou não, com um bom corte – ao invés do cabelo preso em um coque, com bandós laterais. Os trajes - dantes em tecidos nobres – veludo, tafetá, mousseline e rendas dariam lugar ao elastano, malha, microfibra, jeans, das botinhas aos saltos altos, os tênis, vestidos leves, boinas, coletes, enfim, total liberdade de estilo, dando-se o prazer de ser muitas em uma – não abriria mão das lingeries sensuais, para seu bem estar, pois ao tirar a roupa gostaria sempre de ser (ainda) sexy. Seria adepta de uma alimentação correta e faria atividades físicas.

Creio que ela, uma Bovary moderna, fugiria de relacionamentos mornos. Ou intenso, que a apreciasse, que a deixasse louca de alegria do café da manhã ao jantar... ou vice-versa... ou nada. Observaria que o mundo ainda é governado pelos homens, e que mulheres ainda são tratadas como objetos, pois há muito a conquistar: os direitos nem sempre são iguais... ainda assim, ficaria muito feliz ao inteirar-se das conquistas da mulher e das revoluções feministas.

Com essas novidades, Emma Bovary boquiabriu-se. Virgem Santa! A mulher moderna é cidadã responsável, é eleitora e pode ser eleita, trabalha, tem renda própria, assume responsabilidades, prefere dividir igualmente as despesas com o companheiro (mas aceita aquela viagem a Paris paga pelo seu amor), é independente, causa na vida e na arte, ela não foge à sua essência, mas também procura por uma vida melhor. É “sujeito de si mesma.” Tem autoestima. Afetos, amizades, colegas, família, convívios. Mesmo perdendo estrogênio, mantém uma aura de sensualidade. Casa por amor, cria vínculos e afetos por escolha. Bovarys modernas!! Transgressoras, sim, porque se reinventam. São críticas e eloquentes. Além do mais, leem, e muito, sobre tudo, e histórias de amor por certo, com a diferença de a literatura servir para seu aprimoramento, deleite e até por sublimação às agruras da vida.

Se a leitora e o leitor me acompanharam até aqui, fico grata e feliz.

Não coloco um ponto final, até porque a leitura desse clássico – "Madame Bovary" de Flaubert - ainda reverbera em meu ser. Há possibilidades de aprofundamentos. Por isso gosto das reticências... precisa-se de um respiro, de um refletir. Os clássicos sempre têm o que dizer, atravessam os tempos. Por isso, atuais.

Afinal, por que ler os clássicos? (sem ponto final, portanto, mas...)

Com os pontos e vírgulas de Virgínia Woolf – “O valor do riso e outros ensaios”

Com os pontos de interrogação de Jane Austen – “Orgulho e Preconceito”

Com os pontos de exclamação de Emily Brontë – “O Morro dos Ventos Uivantes”

Com os travessões enfáticos de Clarice Lispector – “A Hora da Estrela”

Com as aspas (valor de parênteses) de Madame de Lafayette – “A Princesa de Clèves”

Autoras/escritoras – mulheres à frente de seu tempo – transgressoras – com algo de Emma Bovary...

Alors,

Tout va bien. Très bien.

Je suis Madame Bovary.

Marilia Frosi Galvão, professora, escritora e cronista

mailgalvao.marilia@hotmail.com