Caxias do Sul 09/03/2026

Colocar as distâncias em um lugar confortável

Aprender a viver, a amar e a se despedir são desafios vitais para o equilíbrio interno
Produzido por Neusa Picolli Fante, 09/03/2026 às 08:26:59
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda/Divulgação

Pessoas vão embora pela vida ou pela morte e deixam um buraco, um vazio profundo no nosso íntimo.

Como fazer para se refazer? O que fazer para reelaborar essa ausência, para colocar essa distância num lugar confortável dentro de nós?

Fico pensando nas despedidas da minha vida... como gostaria que tivessem acontecido e como foram? A distância que existe entre as duas é que me faz olhar uma vez mais para elas.

Cada um sabe como age, por que age daquela maneira, mas, na hora da despedida, muito borbulha, muito aparece, muito necessita ser cuidado. Muitas coisas ficam descompassadas dentro de nós.

Alguns gritam adeus em alto e bom som. Outros baixam os olhos e nem querem olhar para o desamparo que aquele afastamento causa. Uma nova chance de recomeçar e enxergar de outra maneira, de falar e de dizer que algo doeu, se faz necessária.

Vale o recomeçar para com o outro, porém, com certeza, o recomeçar consigo mesmo também e, de dentro para fora, se refazendo, se redirecionando. Assim, aprendendo a viver e a amar e, inevitavelmente, a se despedir.

Se você tivesse uma nova chance de terminar o que ficou em aberto, de se despedir, de deixar rastros mais amenos do que passou, você se mobilizaria ou ficaria à beira da estrada, só olhando?

Ao invés disso, ele saiu porta afora sem dizer tchau, e você ficou a olhá-lo sem saber para onde direcionava seus pensamentos, seu coração. A sua verdade ficou sem lugar.

Quem dera que todas as pessoas importantes para nós dissessem, suavemente, que era hora de seguir outros caminhos. Quem dera não deixassem um buraco dentro de nós; que entendêssemos o que estava sendo construído, pensado, direcionado. Só assim descansaríamos nossas angústias e saberíamos onde colocar o não sabido.

O fato é que somos diferentes, e que as despedidas na nossa vida se constroem de uma maneira singular, única, de acordo com os vínculos que construímos e como nos relacionamos com as pessoas que passam por nós. Ele olhava para o passado e só desejava, ardentemente, uma chance para se despedir de todos a quem não conseguiu dar um tchau e nem deixar que fossem para outros caminhos.

Despedidas com abraços, com palavras carinhosas, alimentam o amanhã, mas a vida não se efetiva somente deles. Às vezes, existe o distanciamento frio e mudo, ou palavras grosseiras que empurrão a distância no meio de dois seres.

Assim, como aprendemos a amar, a ocupar um lugar na vida do outro, desejo que compreendamos como deixar a nossa ausência na vida das pessoas importantes; que aprendamos a nos despedir com afeto e respeito.

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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