Caxias do Sul 27/01/2022

Olhares sobre um dia nublado

Percepções filosóficas e visuais das luzes e sombras da vida sob o efeito das nuvens na Praia do Barco
Produzido por T. S. Marcon, 04/12/2021 às 15:01:32
Olhares sobre um dia nublado
"Tempo"
Foto: T. S. Marcon

Por T. S. Marcon

No começo de novembro, passei quinze dias sozinho na Praia do Barco, escrevendo. Claro que não só escrevendo, eu saía pra correr, comprar comida ou buscar um pouco de inspiração; prova disso são as imagens que fiz durante um dia nublado, usando a câmera do celular.

Às vezes, a limitação técnica pode ser libertadora. Por razões locomotoras (na ocasião, eu estava a pé), me restringi à parte norte de Capão da Canoa (a Praia do Barco fica ao lado), e sua respectiva beira do mar.

Sempre duvidei dos que dizem que um dia nublado é um dia feio. De certa forma, não há dias feios ou bonitos, o que há são olhares feios ou bonitos, atentos ou relapsos. Olhares automáticos ou desarmados. De forma que tentei me imiscuir no lugar como se fosse um morador, ou melhor: como se fosse um visitante sensível, e não um turista. Nossas praias são cidades, quantas vezes esquecemos disso.

Quando o sol se encontra escondido por cinzas espessuras na atmosfera, o céu meio que se transforma num estúdio fotográfico, como se tivessem pendurado nele imensos rebatedores de luz. As sombras também se tornam muito macias, diluídas, às vezes imperceptíveis. Tudo se contamina com uma aura um pouco mais dramática, as cores se esmaecem fragilizadas, e buscam refúgio na força do preto, do branco, das escalas de cinza.

Em meu passeio de flaneur, pude notar a presença da religiosidade em diversas formas. Sua fome de negócio e de arrebatamento. Para o capitalismo, o fiel é também um cliente.

Nas bordas do asfalto, o avanço faminto do comércio e da urbanização, e os contrastes de alguns resquícios do mundo arcaico, às vezes provinciano, que insiste em resistir. É uma luta desigual, e tem lá sua beleza. Novas obras dividem espaço com escombros de um tempo esquecido. A cidade engole a si mesma, com uma cobra a comer o próprio rabo.

Na beira do mar, em baixa temporada, cães e pescadores dividiram comigo a paisagem. O vazio me encheu de reflexões sobre a natureza do tempo, sobre o sentido de existir.

Todo mundo se torna meio filósofo caminhando sozinho numa cidade que não é a sua, ou na beira da praia, num dia nublado.

"Abandonos"

"Alan Kardek"

"Arboles"

"Beira"

"Bola de neve"

"Brikão"

"Carros antigos"

"Cusco"

"Estofaria"

"Fossa"

"Galo"

"Ginásio"

"Grafismo"

"Homens trabalhando"

"Iemanjá"

"Igreja"

"Obra"

"Pescador"

"Ponto útil"

"Rural X urbano"

"Velha casa"

"Venda"

* Tiago Sozo Marcon é escritor, fotógrafo, arquiteto e funcionário público municipal.