Caxias do Sul 25/09/2026

Mudanças climáticas exigem tecnologia e manejo nos parreirais

1,1 mil produtores de cooperativa da Serra Gaúcha contam com aliados para preservar safra de uvas
Produzido por Silvana Toazza, 25/09/2026 às 09:56:14
Mudanças climáticas exigem tecnologia e manejo nos parreirais
Efeitos climáticos do El Niño impactam vinhedos, mas manejo adequado reduz perdas e garante qualidade da matéria-prima
Foto: Anderson Pagani, divulgação

A maior cooperativa vitivinícola do Brasil, sediada em Bento Gonçalves, harmoniza monitoramento do clima, assistência técnica e pesquisa para orientar decisões, minimizar impactos e preservar a qualidade das uvas cultivadas pelos 1,1 mil produtores familiares associados em 11 municípios da Serra Gaúcha. Com a previsão de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses e a indicação de chuvas acima da média para o Rio Grande do Sul, viticultores precisam estar atentos às condições que podem influenciar no desenvolvimento da próxima safra.

Na Cooperativa Vinícola Aurora, os associados recebem orientações estruturadas em dados, tecnologia, pesquisa e assistência técnica. Destaque para as miniestações meteorológicas instaladas em pontos estratégicos das diferentes microrregiões, que acompanham dados como temperatura, umidade e precipitação, auxiliando nas tomadas de decisão.

As informações alimentam ainda o Vitialerta, sistema de monitoramento voltado à detecção e resposta precoce a pragas, doenças e outras ameaças à viticultura. Os avisos gerados pelas miniestações ajudam a direcionar os tratamentos fitossanitários de forma mais precisa, contribuindo para reduzir perdas, custos e impactos ambientais. Recentemente, os produtores participaram de um encontro com a meteorologista do Climatempo Dayane Figueiredo, que apresentou os possíveis efeitos do El Niño até fevereiro de 2027 na região. Mesmo sendo uma projeção de longo prazo, o panorama permite identificar tendências para o ciclo produtivo da uva e avaliar, com antecedência, quais estratégias de manejo podem ser adotadas em diferentes fases e condições.

“O produtor quer saber como estará o clima para o período, em que fase pode acontecer alguma intercorrência e, dentro do que é possível controlar, como ele pode se preparar”, relata o gerente Agrícola da Cooperativa Vinícola Aurora, Maurício Bonafé.


Miniestações meteorológicas ajudam no controle de pragas e doenças nas videiras (foto: Eduardo Benini)

A preparação para uma nova safra começa assim que a colheita termina. Todos os anos, a equipe Agrícola da Aurora avalia o comportamento das videiras, mapeia o potencial de fertilidade das plantas, as condições do solo e as tendências climáticas para o ciclo. A partir desse conjunto de informações, as estratégias de manejo são definidas de acordo com as características de cada propriedade e microrregião. Em períodos de chuvas intensas ou acima da média, podem ser necessárias adequações na adubação e a intensificação de práticas como desfolha e desbrota.

A conservação do solo também é uma frente importante. Os produtores são orientados sobre o plantio de cobertura sob as videiras para reduzir a erosão e a perda da camada fértil provocadas pelas chuvas ou pelo excesso de seca. Em áreas de maior declive, a adoção de patamares, que são os degraus construídas em terrenos inclinados, contribui para o controle do escoamento da água.

Pesquisa para adaptar a viticultura

A Cooperativa Vinícola Aurora mantém um programa próprio, além de parcerias com instituições como a Embrapa Uva e Vinho, para avaliar cultivares e clones mais produtivos, resistentes e adaptados aos diferentes microclimas da Serra Gaúcha. Um dos exemplos é o trabalho com as uvas BRS Lis e BRS Antonella, lançadas neste ano pela Embrapa. Antes de chegarem ao mercado, as novas variedades foram validadas durante seis anos por meio de testes em parceria com seis cooperados da Aurora.

A vinícola também está desenvolvendo internamente, em parceria com o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), testes para outras 16 variedades. Entre elas estão clones melhorados de uvas já produzidas na região e novas cultivares mais resistentes ao míldio, uma das principais doenças da videira. Outra ação realizada pela Aurora é o Vinha Fértil, que identifica as gemas de maior fertilidade nos ramos e auxilia na definição da poda. A técnica busca equilibrar produtividade e qualidade dos frutos, com maior eficiência.

Historicamente, a Cooperativa Vinícola Aurora tem participação de 10% a 15% na safra gaúcha de uvas, e investir em conhecimento, tecnologia e adaptação no campo fortalece toda a cadeia, do produtor ao consumidor.