A Serra Gaúcha é reconhecida nacionalmente por sua força empresarial. Indústrias metalmecânicas, vinícolas, empresas do setor moveleiro, plástico, alimentação e serviços carregam uma característica comum: são, em sua maioria, negócios familiares. Empresas fundadas por imigrantes ou seus descendentes, construídas com visão de longo prazo, disciplina financeira e forte vínculo com a comunidade.
Esse modelo foi – e continua sendo – um dos pilares do desenvolvimento econômico regional. No entanto, a mesma estrutura que sustenta estabilidade e identidade também pode impor limites quando o assunto é expansão, internacionalização e sucessão.
Historicamente, empresas familiares mantêm preferência por capital fechado e financiamento via crédito bancário. A preservação do controle societário é valor central. Decisões estratégicas permanecem concentradas no núcleo familiar, garantindo agilidade e alinhamento com o legado construído ao longo de gerações.
O desafio surge quando o ciclo de crescimento exige investimentos mais robustos, prazos mais longos ou custos de capital mais competitivos. Não raramente, companhias eficientes e lucrativas acabam financiando sua expansão em condições menos vantajosas do que poderiam obter por meio do mercado de capitais.
Esse cenário ganha novos contornos com a entrada em vigor do Regime de Facilitação do Acesso a Capital e de Incentivos a Listagens (Fácil), instituído pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A iniciativa simplifica exigências regulatórias e reduz custos para companhias de menor porte, criando uma alternativa intermediária entre o capital fechado tradicional e as exigências mais onerosas do mercado principal.
Para a Serra Gaúcha, onde predominam empresas de médio porte com gestão familiar consolidada, o novo regime pode representar uma oportunidade estratégica. Não se trata apenas de “abrir capital”, mas de ampliar possibilidades de financiamento, diversificar fontes de recursos e estruturar o crescimento de forma mais competitiva.
O ponto central, contudo, não é regulatório — é estrutural. O acesso ao mercado de capitais exige governança organizada, clareza na estrutura societária, definição de regras de sucessão e separação adequada entre família, empresa e patrimônio. Em regiões onde os laços familiares e empresariais frequentemente se entrelaçam, esse preparo é ainda mais sensível.
A profissionalização da governança não significa perda de identidade. Ao contrário, pode ser instrumento de preservação do legado. Estruturas bem definidas permitem captar recursos sem comprometer o controle estratégico e fortalecem a empresa para atravessar gerações com segurança institucional.
A Serra Gaúcha construiu sua força empresarial com base na tradição, na reinvenção e na capacidade de adaptação. O momento atual convida as empresas familiares da região a refletirem sobre o próximo passo: manter o modelo tradicional de financiamento ou avaliar novas estruturas que possam sustentar crescimento e perenidade em um ambiente econômico cada vez mais competitivo.
Mais do que uma mudança regulatória, trata-se de uma mudança de perspectiva. Para muitas empresas familiares da Serra, o mercado de capitais pode deixar de ser um território distante e passar a integrar o planejamento estratégico de longo prazo.
Laís Machado Lucas é advogada de famílias empresárias.