Caxias do Sul 19/04/2024

Nanico no trem (Parte IV)

Suma saga segue, em busca de uma porca branca por ítalas paragens
Produzido por Paulo Damin, 01/03/2024 às 15:58:01
Paulo Damin é escritor, professor e tradutor em Caxias do Sul
Foto: ARQUIVO PESSOAL

No capítulo anterior, o Nanico chegou na Itália. Agora ele estava com a profe Leona, no trem pra Pedavena.

Ficou tentando ver alguma coisa através da neblina que embaçava a janela.

Me avisa se tu enxergar a porca branca – ele disse –. Aquele sonho que eu tive no avião é um presságio.

Então apareceu o cobrador. Vinha pelo corredor, de passageiro em passageiro, conferindo se as passagens tinham sido carimbadas. A Leona cutucou o Nanico. Ele seguia procurando a porca branca no meio da neblina.

Mostra as passagens pra ele – disse a profe, angustiada.

O Nanico fez uma cara de pena pela Leona. Ela não conseguia entender que já estavam no País da Cocanha?

Aqui não precisa dessas frescura de passagem – ele explicou.

Aí foi a vez do cobrador fazer cara de pena pela Leona. Quer dizer que aquele ali era o companheiro de viagem dela?

Só não vou multar vocês porque a senhorita tem cheiro de manjericão – ele disse.

A professora se indignou:

– Prefiro pagar multa do que receber favorzinho machista!

O cobrador não deu bola. Só esperou o trem parar e botou os dois pra fora.

laugh

Era uma estação fantasma. Não tinha nem nome naquele prédio velho.

Tem muita cara de lugar onde uma porca branca moraria – disse o Nanico, espiando pelas venezianas quebradas enquanto a Leona esperneava de raiva contra ele, o cobrador e o patriarcado.

Olha bem – disse o Nanico –. Se tu fosse uma porca branca, tu não viria aqui com teus filhotes?

Ela voou no pescoço dele.

laugh

Quando a Leona cansou de bater no Nanico, ele colocou o maxilar no lugar e comentou que estava na hora da janta. Tinham duas opções: ou ir até o povoado mais próximo, ou esperar pela porca branca.

A Leona nem respondeu. Apenas levantou, foi pegar a mochila e – cadê a mochila?

Já não tinha mais forças pra bater no Nanico. Só sentou e chorou.

Pra consolar a parceira, ele comentou que na Terra da Cocanha não precisavam de mochila. E concluiu declamando uns versos de Carlo Goldoni:

Dois tipos de pessoas tem no mundo:

a que tira do trabalho o seu sustento

e a que trata de comer sem sofrimento.

Quem pensa seriamente fique longe:

aqui só a pessoa que delira

é digna da nossa companhia.

Que lógica fajuta – roncou alguém atrás dele.

A porca branca! – disse o Nanico, e a abraçou como se estivesse reencontrando uma amiga querida.

(Continua...)

Paulo Damin é escritor, professor e tradutor em Caxias do Sul.

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