Caxias do Sul 30/07/2021

Mentores: a nossa ponte entre a teoria e a vida real (Parte II)

“Nós temos de encontrar tempo para parar e agradecer quem fez uma diferença nas nossas vidas”. (John F. Kennedy)
Produzido por Lisiane Dossin Miotti , 19/07/2021 às 08:17:32
Foto: ARQUIVO PESSOAL

Pois bem, volto aqui contando sobre a história da minha parceria com o Dr. Daniel Parisotto. Me lembro como se fosse hoje do dia em que ele entrou na minha vida. Mas para começar, pergunto, você encontrou suas referências?

Nossa história começou assim: cheguei em Caxias, voltando de Porto Alegre, depois de 10 anos estudando na PUCRS e fazendo meu treinamento no Hospital São Lucas, e eu precisava de um mastologista para assinar minha carta de recomendação para entrar na Unimed. Eu não conhecia esse doutor, mas a sua reputação de duro e exigente o precedia. Meu professor e mentor na residência, Dr. Antonio Frasson, me encaminhou para ele.

Dr. Daniel Parisotto no seu consultório

Eram amigos de longa data, muito diferentes em estilo, mas compartilhavam coincidências. Tiveram uma origem simples na colônia, estudaram graças aos seminários que a Igreja Católica tinha no interior levando a melhor educação disponível para jovens que se comprometessem ou mandando-os para estudarem nos Colégios Maristas de Porto Alegre.

Acima de tudo, esses caras eram especialistas em agarrar qualquer oportunidade que a vida trouxesse com unhas e dentes, e isso os diferenciou por toda a vida. Ambos fizeram seu treinamento em Cirurgia do Câncer de Mama no renomado Instituto Europeu de Oncologia de Milão, e tiveram o privilégio de ter como professor o grande mastologista Umberto Veronesi (1925 - 2016), que foi o brilhante cirurgião que introduziu a cirurgia conservadora de mama na nossa prática, trazendo a mastologia para a era moderna.

Reencontro de Lisiane com o mestre

Numa época em que a medicina usava de radicalidade nos tratamentos, ele advogava sobre a necessidade de dar esperança e humanidade à profissão médica e à cura. Contam seus alunos que seu mentor nunca deixava que uma mulher, acompanhante de suas pacientes, deixasse seu consultório sem convencê-las de terem suas mamas examinadas. Ele dizia: “talvez seja a única oportunidade de terem um diagnóstico precoce”, e assim ele salvava mais vidas.

Pois bem, cheguei tímida e humilde no consultório dele, mas confiante de quem eu era, e do que eu tinha para oferecer. Eu era jovem e inexperiente, comparada a esse doutor, com tantos anos de um excelente trabalho e muita valentia no seu currículo. Eu já respeitava tudo que esse médico, um gigante, tinha feito pelas mulheres não só na nossa cidade, mas em outras cidades menores da Serra Gaúcha, onde ele iniciou sua vida profissional.

Dr. Daniel e Lisiane ladeados pela secretária Karine Molon (E)
e pela esposa do médico e sua musa inspiradora, Márcia

Mas eu também tinha feito meu tema de casa, uma excelente faculdade de medicina cursada com dedicação e quatro anos de residência em um hospital público, muito estudo e experiência ganha no corpo a corpo diário e discussões cientificas com, ao menos, 15 preceptores que constituíam meu serviço de residência, extremamente exigentes, me deram a segurança que eu precisava.

Então tive uma das mais gratas surpresas da minha vida. Aquele doutor tão reverenciado estava curioso e ávido para me receber. Respeitava meu treinamento e queria aprender comigo! Me emociono de contar como ele me recebeu como uma dádiva, como se sangue novo corresse em suas veias pelo simples fato de podermos trabalhar juntos. Ele estava ansioso para saber o que se passava nas universidades de medicina no momento e todas as novidades que eu traria para melhorar o que ele oferecia para suas pacientes.

Dr. Jorge Damin, obstetra, Lisiane e Dr. Daniel Parisotto a caminho da sala
de cesárea para o nascimento de Francesco, em 09/12/2010

Eu entendi, já nos primeiros meses de trabalho, que eu estava frente a alguém muito especial. Esse homem era atemporal, transpassava a sua era, estava em busca da luz, da novidade, do melhor, da transformação. Não tinha vínculo acadêmico, mas era um professor nato e não aceitava o estagnado status de médico que sabe tudo.

Estava em busca do futuro e de tudo que estava por vir e com a humildade que só os gênios têm, achava que o que sabia era muito pouco e estava em busca de mais conhecimento, todos os dias. Não por vaidade ou maior ganho financeiro, mas pela fé na ciência e na vocação que Deus nos deu e na nossa missão de dar nosso melhor por toda e qualquer mulher que entrasse no nosso consultório e essa ligação nos vinculou para sempre.

Ele sempre foi madrugador, acordava rotineiramente as 4 da manhã para estudar e suas cirurgias começavam pontualmente as 7 horas da manhã, para as pacientes dele e para as minhas. E eu devia estar lá, não só pronta para dar meu melhor na cirurgia, mas estar pronta para a sabatina que ele sempre me fazia sobre os últimos artigos publicados, geralmente sobre o seu assunto de interesse atual, e seus interesses eram muitos, eu não conseguia acompanhar aquele cara que era quase 40 anos mais velho que eu.

Isso foi tranquilo, até eu ter o Bernardo, meu primeiro filho, mas então ficou complicado estar alinhada com todas as novidades, considerando as noites mal dormidas, a amamentação e tudo mais que a vida de mãe de bebê requer. Então, me rendi, e simplesmente ouvia atenta o que ele me trazia, com deleite pelo entusiasmo desse cara que não se cansava de aprender e pesquisar.

Dr. Parisotto, quero que saibas que foi um prazer e uma honra ter sido sua pupila, sua parceira de cirurgia, sua colega. Todos seus ensinamentos continuarão comigo para sempre, sua personalidade faz parte do meu superego de doutora que sempre quer mais e o melhor para aquela que me consultar. Obrigada, meu amigo, meu mentor, meu professor. Nessa semana, terei o prazer de lhe abraçar e ouvir sobre as suas últimas leituras e sei que terá um questionário de novidades me esperando. Dentro dos meus sonhos dourados, está o de ser tão importante na vida de alguém como você foi na minha.

E você, que tal ser um mentor ou mentora para alguma vida que cruze a sua? Que tal ajudar alguém a se encontrar com seu futuro? Pense em repassar o que você sabe fazer melhor. Compartilhe sua paixão e contagie alguém com o seu entusiasmo.

Procura-se mentores, remunera-se com gratidão eterna!

Lisiane Dossin Miotti é médica especialista em Mastologia, Ginecologia e Obstetrícia com formação na PUC-RS. Cursando especialização em Menopausa, Ciências do Bem-Estar e Longevidade nos EUA, onde vive há 5 anos.

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