Caxias do Sul 31/01/2026

Gastronomia é arte?

Atividade intrínseca à vida fermenta o poder de proporcionar vivências transformadoras
Produzido por Lurdes Marlene Seide Froemming , 06/12/2025 às 08:44:48
Lurdes Marlene Seide Froemming é professora universitária e doutora em Marketing
Foto: Arquivo pessoal

Gastronomia é ciência? É arte? É cultura? É meramente o ato de alimentar-se? É tudo isso e muito mais. Todas essas questões são tangibilizadas quando se torna uma experiência satisfatória e marcante.

Interessante a constatação de Ariovaldo Franco, autor do livro “De Caçador a Gourmet”, de que “em uma vida de cerca de 70 anos, quem consagra mais ou menos duas horas diárias ao ato de comer, passará aproximadamente seis anos comendo”.

Desse período todo, quanto tempo atribuímos a exercer essa atividade com o prazer de atentar para o cenário que envolve essa prática? Não é preciso glamour para isso acontecer. Se prestarmos a devida atenção, até o simples ato da refeição comum e diária é revestido de significados que se traduzem em experiências não identificadas.

O ato de alimentar-se, fazendo coro a Ariovaldo Franco, proporciona um “prazer peculiar à espécie humana. Pressupõe cuidados com o preparo de refeição, com a arrumação do local onde será servida e com o número e tipo de convivas”.

Antoine Carême (1784 - 1833) foi um marcante personagem na história da gastronomia. Foi cozinheiro de reis e da aristocracia na França. Foi criativo, audacioso, minucioso e, a essas qualidades, unem-se o talento de arquiteto, a sensibilidade de cenógrafo e a perspicácia de documentarista. A documentação nos garante até hoje o acesso às suas saborosas receitas.

Pois tudo isso, experimentamos num domingo desses de primavera, ao almoçarmos em um restaurante colonial italiano situado nas Réplicas da Festa da Uva, em Caxias do Sul. Primeiramente, ao examinar ainda do lado de fora o local, já fomos atraídos por um personagem típico da Serra nos provocando com o cardápio ali servido, que parecia até ilusório de tão diversificado e audacioso. Nos conquistou. Entramos: cenário magnífico centrado no que se propunha: uma bodega (até pelegos nas cadeiras – fofura).

Então, após as preliminares, começa o enredo. Uma profusão de ofertas, quase impossível de recusar qualquer uma como quase impossível provar todas. Ofertas como massa com queijo parmesão flambada no próprio queijo com direito a um espetáculo pirotécnico (uma experiência!). E seguem massas, risotos, polentas, assados, filés... ufa!

Claro que havia música ao vivo, fomos até instados a fazer solicitações de canções a serem executadas pela dupla de artistas. O atendimento, algo muito especial, com graça e espírito dos atendentes. Enfim, não foi apenas um almoço. Não foi meramente atender à fome. Foi uma maravilhosa experiência gastronômica! Descobrimos novos pratos, aguçamos nosso paladar.

Brillat-Savarin (1755 – 1826), famoso gastrônomo francês, evoca um belo texto que ouso reproduzir: “a descoberta de um novo prato contribui tanto para a felicidade da espécie humana quanto a descoberta de uma nova estrela”. Ainda complementa: “Dize-me o que comes, e eu te direi quem és”.

Fazendo minha leitura de um novo prato, ele pode ser uma combinação não conhecida, um novo produto. Mas um novo prato é nossa descoberta de pratos que não sejam nossos habituais. A gastronomia também é cultura! Nos permitirmos saborear quitutes de outras regiões, de outros povos, constitui-se em uma fascinante experiência que deve ser identificada, saboreada, vivenciada, valorizada.

Não são apenas as grandes obras da humanidade que definem a cultura. São também as coisas do dia a dia, como o que as pessoas comem e a maneira como os pratos são servidos.

Como dizem os antropólogos, cozinhar é uma atividade que nos define enquanto seres humanos e é um ato que, como preconiza o filósofo e antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009) – e a partir do qual a cultura surge –, não deveremos nos surpreender com o fato de a gastronomia nos propiciar momentos de emoções profundas. Desde o ato de cozinhar até o ato da degustação, transformando-os e sentindo-os como em “uma experiência”.

Em suma, vivenciamos uma experiência na Serra Gaúcha comportando todos os fatores aqui mencionados, celebrando arte, cultura, história, profusão de sabores e confraternização.

Lurdes Marlene Seide Froemming é administradora de empresas, professora universitária e doutora em Marketing.

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